Qualia

Eis que a fronteira da arte pode ser quebrada pelas máquinas. E se for? Quando um algoritmo compõe, escreve ou tinge de tons um quadro em branco é como se nos eviscerasse, pondo à mostra o que resta de humano em nós, pisados em nossa competência subjugada, inúteis em nossa existência.

Roberto Francisco de Souza (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Gestão & TI
Ediçao 109 - Publicado em: 11/06/2018

Em 1979 começou o meu namoro. Um livro pequeno e frágil assumiu a liderança em meu campeonato secreto dos melhores que já lera. O nome? Caminhada. O autor? Hermann Hesse.

Não havia explicação fácil na escolha. O único jurado era Euzinho de Souza – só eu mesmo. Se critérios havia? Acho que não.

Deponho que o texto era de uma elegância encantadora. Lembro-me de imaginar cada lugar descrito como se eu lá estivesse, andando, lado a lado, com Hermann, para quem, anos mais tarde, escrevi uma carta póstuma que nunca foi postada e ainda guardo com carinho.

Mas não deve ter sido por isso. Enquanto escrevo, tenho o objeto de meu namoro em mãos. Fora o cheiro de livro antigo que ativa uma rinite tão antiga quanto ele, encontra-se em bom estado. Olho-o, como se fosse mesmo a namorada perdida e há tanto tempo não vista, e procuro uma razão para ter amado. Meus feromônios cansados logo se atiçam só de olhar a capa. Há nela, e em todo o livro, um encanto único, virgem a ser desvendado. São gravuras de Hermann.

Nunca soube mesmo explicar o motivo de minha paixão. Mas acho que eram elas. Simples, delicadas, instigantes, fugidias. Sua delicadeza, ao mesmo tempo sua força, convidando-me a praticar... Qualia!

Qualia é pessoal. Qualia é sentimento e sensação. E sensação é tempo e lugar.

Naquele dia, em 1979, minha Qualia viu o que não sei e não me interessa se outros viram. Isso aconteceu de novo poucas vezes. Anos depois, sem trair Hesse, apaixonei-me por A Sabedoria e o Destino, de Maeterlinck, e passei a viver com eles um romance a três, denso e desafiador.

Eis que a fronteira da arte pode ser quebrada pelas máquinas. E se for? Quando um algoritmo compõe, escreve ou tinge de tons um quadro em branco é como se nos eviscerasse, pondo à mostra o que resta de humano em nós, pisados em nossa competência subjugada, inúteis em nossa existência.

Que pintem os robôs, que escrevam, que cantem até... Pero ¡No Pasarán!

Que tenham Qualia, mas não será a minha Qualia. E esta será minha vitória!

Considere assim, que se conduza um Teste de Turing (que verifica a capacidade de uma máquina ter comportamento equivalente ao de um ser humano) para investigar se um algoritmo produziu arte. Ponham Bach tocando suas mais sublimes notas e ponham a máquina com suas belíssimas peças. Uma plateia leiga, que tenha Qualia e não crítica, estará presente. Precisa ser encantada por um ou por outro. Precisa confundir-se entre neurônios e fios, tonta em decifrar o autor humano.

Tudo inútil. Os escrutinadores procurarão nos votos a resposta e ela estará dada.

Alguns se apaixonarão por Bach, outros não. Sem culpa alguma dirão que foram encantados pela máquina, como fui aos 18 anos pelas aquarelas de Hesse. Continuarão fiéis à raça humana porque, afinal, o segredo de ser humano é se encantar.

(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.

Saiba mais

Tech notes

1. O que é Qualia

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2. Máquinas podem possuir Qualia?

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3. Conheça Caminhada, de Hermann Hesse

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