“O Minas-Rio segue vivo”

Resignado, Ruben Fernandes defendeu a importância da mineração para a sociedade, em especial no Brasil, líder na exportação de nióbio e o terceiro entre os maiores exportadores de minério do mundo.

Hiram Firmino e Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br
Páginas Verdes
Ediçao 109 - Publicado em: 11/06/2018

Em nove anos de presença da Anglo American em Minas Gerais, o engenheiro belo-horizontino Ruben Fernandes é o oitavo executivo a ocupar a presidência da mineradora. Seu rosto – com expressão abatida, cabelos mais grisalhos e alguns quilos a menos – esteve entre os mais vistos em diferentes veículos de imprensa do Brasil entre meados de março e o começo de abril.

O motivo da exposição foi a ocorrência de dois vazamentos de minério de ferro no município de Santo Antônio do Grama, na Zona da Mata Mineira. O produto, carro-chefe da empresa, é transportado ao longo de um mineroduto de 529 km, que liga a mina, em Conceição do Mato Dentro, na Região Central do Estado, a São João da Barra, no Rio de Janeiro.

No primeiro incidente, em 12 de março, 318 toneladas de minério atingiram o Ribeirão Santo Antônio do Grama, na cidade de mesmo nome, e outras 895 toneladas foram contidas num barramento da companhia. No segundo, 17 dias depois, o mesmo ribeirão foi novamente atingido, desta vez por 174 toneladas de material, enquanto outras 473 toneladas se espalharam por duas propriedades rurais vizinhas à tubulação.

Dias antes do início da inspeção interna de toda a extensão do mineroduto, Fernandes recebeu a reportagem da Ecológico em seu escritório, em Belo Horizonte. Reconheceu o gigantesco desafio que não apenas a Anglo, mas todo o setor mineral enfrenta no país, em questionamentos que envolvem sua credibilidade, segurança operacional e, sobretudo, imagem perante a opinião pública.

Resignado, ele defendeu a importância da mineração para a sociedade, em especial no Brasil, líder na exportação de nióbio e o terceiro entre os maiores exportadores de minério do mundo.

É o que você confere, a seguir:

Em grandes corporações, é comum altos executivos serem destituídos de seus cargos em momentos de turbulência ou situações de crise. Como você tem lidado com esse e outros desafios desde os incidentes de março?

A crise é momentânea e procuramos lidar com ela de forma aberta, transparente e fazendo o que é certo. Desde o início, nossa postura foi mostrar a toda a sociedade o que realmente aconteceu. E, em relação à nossa matriz, em Londres, agimos da mesma forma. Informamos de imediato o ocorrido, nas duas situações, detalhando impactos e a real dimensão do problema. Isso foi decisivo para obtermos apoio e os recursos necessários às ações de reparação, além, ainda, de mantermos nossa credibilidade interna perante a corporação.

O que se apurou, até agora, em relação às causas dos dois incidentes?

Estudos preliminares indicam que o vazamento do dia 29 de março decorreu do surgimento de uma trinca na solda longitudinal, originada no processo de fabricação do tubo no fornecedor. Acreditamos que esse mesmo problema tenha ocorrido no tubo que vazou no dia 12 de março. Não houve falha de construção, nem de conexão entre os tubos nem na operação. O diagnóstico exato só será confirmado após a conclusão das análises que estão sendo conduzidas por especialistas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os dois tubos (das duas ocorrências) são do mesmo lote.

Além de impacto ambiental e sobre o fornecimento de água, os vazamentos também levaram à suspensão da operação. Que receita será perdida até o retorno à ativa? Quando esperam recuperar o prejuízo?

O primeiro ponto a se destacar é o nosso alívio pelo fato de os dois incidentes não terem afetado pessoas, além de terem causado impacto ambiental localizado. Apesar de o impacto financeiro estimado ser bastante relevante – algo em torno de 400 milhões de dólares –, vale ressaltar que nossa meta é demissão zero. Os investimentos sociais na região também continuarão. Ao contrário de especulações que sempre surgem por aí, o Minas-Rio segue vivo, ativo; não esteve nem está à venda.

A crença no negócio continua, então?

Com certeza. Temos plena consciência de que se trata de um projeto complexo, do ponto de vista operacional, mas altamente competitivo e estratégico para a Anglo, porque temos um produto de excelente qualidade e com grande demanda no mercado internacional. Sem contar o potencial do Minas-Rio em termos de benefícios sociais e de transformação positiva da região. Felizmente, de 2015 para 2017, nossa saúde financeira melhorou bastante. Ano passado, geramos um caixa positivo de R$ 435 milhões, com uma produção de 17 milhões de toneladas de minério. Seguimos com as atenções focadas no Step 3, que é a terceira fase do empreendimento.

A meta de atingir, a partir de 2020, a plena capacidade de produção, com 26,5 milhõesde toneladas de minério/ano, se mantém?

Sim. Mas, é claro que os resultados também dependerão do preço do minério no mercado. De toda forma, o Minas-Rio tem mostrado a que veio, inclusive na diferença que já fez e ainda pode fazer pela mineração sustentável no estado.

Em que aspectos? Afinal, realidades à parte, a tragédia de Mariana segue latejando na memória de todos...

Com certeza. Apesar do impacto ambiental dos dois incidentes ter sido pequeno e concentrado – o minério que vazou é equivalente à capacidade de um caminhão fora de estrada e meio–, eles não têm menor importância. Pelo contrário: nosso foco sempre será trabalhar para que elas não ocorram e, muito menos, se repitam. Temos plena consciência do delicado momento vivido pelo setor de mineração. No entanto, reafirmamos nossa confiança no Minas-Rio. Como expliquei, nosso resultado de 2017 equivale a cerca R$ 1 bilhão, grande parte revertida em impostos para a região onde atuamos. Isso tem reflexo direto, por exemplo, na melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que, só em Conceição do Mato Dentro, aumentou 40% entre 2012 e 2016. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), o salto foi de 16%.

A alta direção da Anglo American compartilha desse mesmo sentimento/convicção?

Não só compartilha como, sobretudo, nos apoia e assegura todos os recursos necessários para sempre sermos exemplo e fazermos o melhor. Em momento algum perdemos de vista o fato de o Minas-Rio ser um projeto complexo. Foi o que escutei do nosso CEO Global, Mark Cutifani, que tem 40 anos de experiência profissional, dez a mais do que eu. Ele conhece como poucos a dinâmica e os desafios da mineração em escala mundial e, assim como nós, que estamos aqui, na linha de frente das providências, quer reparar tudo o que for possível e também entender a causa exata dos incidentes. Estamos convictos de que vamos superar esse atual momento com dedicação, competência técnica e diálogo permanente com as comunidades e administrações municipais da nossa região de influência.

A paralisação das atividades ao longo de 90 dias terá algum reflexo nos investimentos sociais feitos pela empresa?

Não. Temos vários protocolos de intenção de investimentos já assinados, com foco em diferentes projetos e ações socioambientais, culturais etc. Só na área da saúde serão investidos cerca de R$ 10 milhões, em parceria com as prefeituras mineiras de Dom Joaquim, Alvorada de Minas e Conceição do Mato Dentro. Mesmo com a operação paralisada e todos os nossos funcionários em férias coletivas, a região está fervilhando. As obras da fase 3 do Minas-Rio seguem a todo vapor. Também segue ativa a mobilização das nossas equipes envolvidas nos trabalhos de recuperação ambiental em Santo Antônio do Grama.

Onde você estava e qual foi sua reação ao ser informado sobre o primeiro vazamento de minério?

Estava chegando ao escritório e meu primeiro pensamento foi: “Felizmente, ninguém se feriu ou foi atingido”. Depois, começamos a buscar respostas sobre o porquê de uma estrutura tão nova como o nosso mineroduto apresentar algum tipo de falha. Não é comum isso ocorrer num período tão curto de operação (o primeiro embarque de minério foi feito em outubro de 2014). Minerodutos têm vida útil estimada em décadas, o que corrobora a hipótese de que a causa seja uma falha na solda do tubo, ocorrida no processo de produção do fornecedor.

E quanto a possíveis falhas de operação e/ou sobrecarga de fluxo? Isso pode ter ocorrido?

Absolutamente não. Até porque o mineroduto já está dimensionado para a etapa em que atingiremos 100% de nossa capacidade nominal de produção (26,5 milhões de toneladas/ano). Em 2017, fechamos o ano com 17 milhões de toneladas. E agora, em 2018, a previsão era produzirmos 13 milhões de toneladas, porque o minério da fase 2 já está praticamente no fim [a licença ambiental para acesso à fase 3 do Minas-Rio foi obtida em janeiro deste ano]. Ou seja, estávamos operando bem abaixo da nossa capacidade projetada.

Quanto abaixo, em termos percentuais?

Quarenta e nove por cento abaixo. E, portanto, sem qualquer possibilidade de sobrecarga ou falha de operação.

Vocês estão divulgando o nome da empresa fornecedora dos tubos? As peças repostas após os incidentes foram compradas da mesma empresa ou de outro fornecedor?

Ainda não podemos divulgar nada a respeito. Trata-se de uma informação sensível e precisamos ter tudo muito bem apurado antes. Os tubos repostos são de outro fornecedor.

E como você reagiu diante da notícia do segundo incidente?

Com surpresa. E alívio, porque mais uma vez, repito, ninguém foi atingido ou se feriu. Isso nos tranquiliza bastante, mas em momento algum faz com que nos acomodemos ou trabalhemos menos para que incidentes desse tipo não se repitam. Toda crise traz consigo a chance de aprendizado, de aperfeiçoamento e da busca por inovação nos processos. É importante ainda ressaltar que só voltamos a operar, após o primeiro vazamento, porque todo o protocolo de segurança e operação já havia sido testado e cumprido.

Por que não se cogitou fazer uma inspeção mais minuciosa no mineroduto logo após o primeiro vazamento?

O protocolo não é este. Além de a vida útil do mineroduto ser estimada em várias décadas e também pelo fato de que estávamos operando bem abaixo da nossa capacidade nominal de produção, nós fazemos vários outros tipos de inspeções rotineiras em toda a extensão dos dutos. Isso incluiu o monitoramento de uma série de parâmetros, tais como vazão e pressão de água, etc., em tempo real.

Mas, em termos práticos, tudo indica que isso não foi suficiente...

Quer uma comparação prática? Nenhum médico decide operar e já leva direto para a mesa de cirurgia um paciente que chega ao seu consultório se queixando de uma dor abdominal, por exemplo. Primeiro ele examina, medica, pede exames, etc. No caso do mineroduto, a lógica é praticamente a mesma. Tanto que logo após o segundo vazamento, antes mesmo de sermos notificados pelos órgãos responsáveis, decidimos paralisar toda a nossa produção e iniciar uma investigação minuciosa em toda a extensão do mineroduto.

Está se referindo ao uso do equipamento chamado PIG?

Exatamente. Na vistoria, serão usados PIGs (sigla em inglês para Ferramenta de Investigação de Dutos) fabricados sob medida. Eles têm sensores capazes de indicar, com precisão, indícios de amassamentos, corrosão ou fissuras na tubulação. O processo começa com a passagem dos PIGs de limpeza e prossegue com outras três variações do equipamento (PIGs geométrico, magnético e ultrassom). Eles são transportados na tubulação através do bombeamento de água e a inspeção deve se estender até agosto.

Quais serão os próximos passos desse trabalho?

Os dados coletados serão analisados por empresa independente, gerando gráficos que indicarão os parâmetros de segurança operacional do mineroduto. Essas informações servirão de referência para eventuais medidas a serem tomadas pela empresa. Também serão enviadas aos órgãos públicos competentes com o objetivo de embasar a autorização para o retorno das atividades da companhia.

A opção por minerodutos é bastante questionada, sobretudo em razão da grande quantidade de água que demandam. E em termos de segurança operacional, o que os incidentes ocorridos podem trazer de contribuição no que se refere ao aumento da confiabilidade dessas estruturas?

Críticas à parte, o mineroduto é uma tecnologia mundialmente consolidada. Também se justifica do ponto de vista ambiental e financeiro, sendo a opção menos poluente e mais barata do que outros modais, tais como o transporte por caminhão (inviável para longas distâncias) ou trem. Para se ter uma ideia, só na Europa há mais 800 mil km de dutos em operação. No Brasil, o total não chega a 5 mil km, a maioria oleodutos da Petrobras.

E quanto às características físico-químicas do material que vazou: é tóxico ou não? O Ibama multou a Anglo por atentado à saúde humana...

Não há elementos ou dados técnicos que embasem tal afirmação. Vamos discutir isso diretamente com os órgãos responsáveis. Temos laudos externos comprovando que a polpa de minério de ferro não é tóxica. Rejeito é o que fica retido na barragem e também não é tóxico. O que vazou é o produto final que vai para os nossos clientes, ou seja, minério de ferro puro. A Anglo beneficia um material que, no solo, tem teor de ferro oscilando entre 35% a 40%, concentração que elevamos a 68%. Em várias regiões brasileiras essa concentração de ferro é encontrada in natura.

Foram coletadas amostras no local dos incidentes?

Sim. Desde o primeiro dia, equipes do Ibama e do Núcleo de Emergência Ambiental (NEA), da Feam/Semad (MG) estão acompanhando os trabalhos. Fizeram vistorias de campo, coletaram amostras e repassaram orientações sobre como gostariam que os trabalhos de recuperação fossem conduzidos. Os técnicos, inclusive, elogiaram a evolução e ficaram satisfeitos com as ações de reparação ambiental que continuam em curso e com a postura transparente da Anglo diante do ocorrido.

E em relação ao valor das multas aplicadas: R$ 72,6 milhões pelo Ibama, e R$ 125 milhões pelo governo de Minas? Em vários setores da indústria a cultura é recorrer e protelar ao máximo o pagamento...

Não fugiremos de cumprir qualquer responsabilidade ou dever legal. Mas temos o direito de conhecer e entender os critérios técnicos para questionar qualquer multa. Isso está previsto na própria legislação ambiental. É o que vamos fazer, de forma absolutamente transparente e dentro da legalidade. Entendimento e diálogo técnico são nossa prioridade na condução dessas questões.

O senhor acredita ser possível superar os ruídos de comunicação entre o setor e a sociedade, a fim de recuperar a imagem e a credibilidade do setor?

Sigo confiando em tudo o que fazemos de correto e de bom para a sociedade. Exatamente por isso, não podemos nos abater. Pelo contrário. Temos de nos manter serenos, perseverantes e incansáveis na busca das melhores tecnologias e processos, bem como no diálogo coletivo, que é premissa na Anglo. Somos uma empresa sólida, comprometida e que busca olhar para frente, ciente de que unanimidade é algo utópico quando se trata de imagem pública e amplo entendimento da importância do setor. Nossa realidade é crua: de um lado, a mineração causa impacto agudo e intenso. De outro, seus benefícios são importantíssimos. Mas dispersos e difíceis de serem percebidos, mensurados. No entanto, erra quem pensa que comentários negativos, críticas e cobranças não nos fazem refletir. Fazem, sim. E muito.

Fique por dentro

"O que às vezes a gente não vê, a crise mostra”

Este é o título do discurso, em forma de prosa, que Ruben Fernandes iria fazer em São Paulo caso os dois incidentes em Santo Antônio do Grama não tivessem acontecido. Ele iria ler o texto, escrito de próprio punho, na abertura do evento “Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentáveis (ODSs)", da Rede Brasil para o Pacto Global, do qual era convidado. Mas, em cima da hora, por causa da imagem pública então arranhada da mineradora, Ruben foi “desconvidado”. Confira o discurso na íntegra.

Saiba mais

Há 45 anos a Anglo desembarcava no Brasil, PIB de 14%, auge do regime militar, fim do milagre econômico brasileiro e o mundo as vésperas da crise mundial do petróleo. Passando pelas décadas perdidas, enfrentando momentos difíceis, fomos consolidando nossos valores, nossa gente, nossos negócios, nosso papel na sociedade, na economia brasileira. Níquel, ouro, nióbio, fosfatos, zinco, minério de ferro. Parte de uma província mineral vasta e rica desta nação que temos a honra e orgulho de ser de certa forma, um dos protagonistas da indústria. Ao longo do tempo, crises econômicas, políticas, hiperinflação, guerras, países emergentes, tigres asiáticos. A Anglo sempre enfrentando seus desafios, desenvolvendo sua gente, se reinventando, sempre nas fundações solidas de suas crenças e valores, base da família Openheimer, seus fundadores.

Projeto Minas Rio, um grande desafio, uma grande complexidade, um grande aprendizado. Primeiro embarque em 2014. A partir de 2016, uma grande transformação cultural. Era necessário, um novo modelo, novas atitudes. O ambiente de negócio mais ambíguo, mais vulnerável. A credibilidade da mineração sendo questionada. O licenciamento se transformou em crise. Minério se exaurindo, risco de parada de produção. Vimos então os primeiros frutos. O que as vezes a gente não vê, a crise mostra. Trabalho incansável das equipes. Compensação florestal, condicionantes, cavidades, trogóblios, comitês de convivência, teores baixos, perdas metalúrgicas. O time se reinventou. O time se integrou. Discussões acaloradas, mas baseadas em um objetivo comum, Step3, LP/LI. Negociações infindáveis, desgastantes com órgãos públicos. Fim de 2017, tudo orquestrado, prontos para a votação. Seria nosso presente de Natal. Estávamos confiantes. Em uma reunião, no MPMG, a decisão difícil, solitária do CEO. Era preciso adiar novamente. Era preciso mostrar nossa abertura, nosso comprometimento ao diálogo. Decepção, desconfiança da equipe. Compreensão, resiliência. Era o time se mostrando forte mesmo na adversidade. O que as vezes a gente não vê, a crise mostra. Mostra, a cultura, a inspiração, a transpiração, o coração. Mostra que estamos no caminho.

Chegara 2018, enfim a votação. Enfim as licenças. Janeiro, dia 26, afinal era sexta-feira. Comemoramos, como adolescentes, como crianças. Teve batuque, fantasia, selfie, teve até cerveja. Merecíamos, estávamos exauridos, mas unidos, cada vez mais. Lindo ver o engajamento, de todos, das esposas, dos parceiros,

das crianças, das comunidades. Era a Anglo começando a escrever uma nova história. O que as vezes a gente não vê, a crise mostra. Alegria durou pouco. Tal e qual o Carnaval, apenas alguns dias. Em março, o susto, o inesperado. O primeiro vazamento, o segundo. Como um capricho do universo, estávamos em crise mais uma vez. Estaríamos sendo testados novamente, como líderes, como equipe? Era hora de mostrar nossa força, nossa união. Tema do encontro de líderes que fizéramos em fevereiro. Não era mais treinamento, era vida real, era para valer. E mais uma vez, o que as vezes a gente não vê, a crise mostra. Mostra responsabilidade, mostra comprometimento, mostra competência, mostra a cara. Dias e dias ligados 24 horas, equipe no campo, equipe no escritório. Sem poupar recursos, sem poupar suor, sem poupar coração. Coletiva de imprensa, TV, rádio, jornais, Gabeira, prefeitos, Ministério Público, IBAMA, Sindicato, todos atrás de nós, alguns contra nós, mas nossa consciência a nosso favor, com a certeza de fazer o que é certo. Cenas inesquecíveis, gente as 3 horas da manhã distribuindo agua mineral, comprando tubulações para captação no ribeirão, indo de casa em casa, técnicos no campo, todos juntos, um só time, uma só emoção. Antes da coletiva de imprensa, orações, terços, energias positivas. Emoção na percepção destas cenas sutis. Após o ataque de microfones e câmeras, a constatação do trabalho em equipe, da postura correta. Por um lado, fui desconvidado sumariamente para palestrar no evento sobre os Objetivos Desenvolvimento Sustentáveis, da Rede Brasil para o Pacto Global. Barrado no baile, literalmente, completa ausência de uma conversa respeitosa. Estávamos preparados para oferecer a outra face, para mais um desconvite, mas por outro lado, uma postura integra, honrada, emocionante, do Sergio e sua equipe, que jamais hesitaram em nos tirar este prêmio, que mostrou sua confiança, seu respeito a Anglo. O que as vezes a gente não vê, a crise mostra. Mostra o caráter, mostra a verdade, mostra a hombridade.

Era então momento de replanejar, de repensar o ano que começara tão bem. O esforço conjunto e contínuo tem sido de ir além do que a legislação exige, além do que é esperado, além das melhores práticas. Se a obrigação é entregarmos o ribeirão plenamente recuperado até o final de maio, vamos além. Vamos entregar um robusto plano de recuperação de áreas degradadas, que resulte na manutenção de áreas verdes importantes ao município de Santo Antônio do Grama. Se a lei estabelece as condições mínimas aos empregados que terão seus contratos de trabalho suspensos pelos próximos meses, vamos além. Vamos garantir que não haja perda salarial, nem de benefícios. Vamos garantir que não haja demissões. Vamos garantir que o período seja dedicado a uma série de ações estruturadas voltadas para a saúde, para as relações, para o esporte, para a arte e para a qualificação dos empregados e suas famílias. Vamos atravessar esse momento unidos, com o vínculo ainda mais forte. Se o requisito era restabelecer o abastecimento de água no município, já fomos além. Construímos uma adutora permanente em tempo recorde. Vamos realizar um investimento social que vá ao encontro das demandas da população local, vamos resolver os transtornos que causamos deixando um legado que impacte positivamente a vida das pessoas. Se o esperado é que enviemos nossas informações aos moradores, à imprensa, às autoridades, aos empreendedores locais e parceiros, nós vamos além. Cumprimos uma extensa agenda que nos coloque face a face, olho no olho com cada pessoa, dialogando de forma transparente e respeitosa com todos aqueles, que direta ou indiretamente estão envolvidos em nossas atividades. O que as vezes a gente não vê, a crise mostra.

É essa disposição para fazer o que tem que ser feito, colocando a preservação da vida como premissa de todas as decisões que tem tornado possível mantermos relações de confiança num contexto incerto e difícil. Mais do que isso, são essas relações de confiança que nos vinculam, que nos fortalecem, que nos encorajam a seguir adiante, a despeito de qualquer dificuldade. Foi assim que a Anglo American completou 100 anos no mundo e 45 anos no Brasil, e é assim que pretendemos continuar escrevendo nossa história.

Portanto, especialmente hoje, diante do reconhecimento que este prêmio nos traz, queremos reafirmar nosso trabalho obstinado para sanar os problemas, para fortalecer nossa trajetória e para contribuir com os aprendizados necessários a uma mineração responsável. Estou certo de que só seremos capazes disso se mantivermos a proximidade e a transparência como aliadas de nossas relações. Precisamos nos reinventar, inovar, aprender ainda mais em diálogo com a sociedade, se quisermos contribuir com as transformações necessárias a um mundo mais justo e sustentável. Este é o principal compromisso que devemos assumir, enquanto sujeitos do nosso tempo e enquanto profissionais responsáveis e conscientes da importância da mineração na vida das pessoas.

E como no filme, resta dizer, o que fazemos nesta vida, ecoa na eternidade. E como na vida, resta de fato afirmar, o que as vezes a gente não vê, a crise mostra, ensina, motiva e transforma. Paz e bem a todos.

(*) Presidente da Anglo American Brasil.


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