Memória e esperança

A prometida recuperação ambiental do Ribeirão Santo Antônio do Grama, cujos acidentes recentes fizeram lembrar, erroneamente, a tragédia de Mariana

Mineração
Ediçao 109 - Publicado em: 11/06/2018

05 de novembro de 2015

Data do rompimento da Barragem do Fundão, da Samarco, em Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Um mar de lama, com 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, causou a morte de 19 pessoas, desagregando o viver bucólico e pacato de mais de 300 moradores locais. Também devastou a vegetação nativa e poluiu o Rio Doce e seus afluentes até a sua foz, 670 quilômetros depois, contaminando também o mar no estado do Espírito Santo. E, até hoje, quase três anos depois, as famílias sobreviventes do maior crime socioambiental da história do Brasil ainda não têm, através da Fundação Renova, um outro novo, mais seguro e sustentável distrito para morar.

04 de dezembro de 2017

Os quase cinco mil habitantes de Santo Antônio do Grama, na Zona da Mata, são surpreendidos com um dos maiores temporais da história do município. Casas, escolas, cinema e até o prédio da prefeitura, construído a partir de um andar acima do chão, ficaram submersos com a enchente do ribeirão de mesmo nome na cidade. Moradores recentes, os cerca de 100 funcionários da Anglo American que hoje vivem e trabalham ali, operando a estação local de bombas do Sistema Minas-Rio, se colocaram à disposição da população e lideraram, com seus equipamentos, junto à prefeitura municipal, os esforços de recuperação após os estragos causados pela “tromba d’água”.

12 de março de 2018

Às 7h30 da manhã, aconteceu o primeiro rompimento do mineroduto da Anglo American, a poucos metros da mesma estação de bombeamento de polpa de minério de ferro. Segundo a empresa, 493 m3 de polpa de minério (água 30% e minério 70%), equivalentes à carga de um caminhão fora de estrada e meio, atingiram o ribeirão, interrompendo o abastecimento de água do município. Outros 1.400 m3 foram contidos, naturalmente, dentro da barragem da empresa. Dois dias depois do incidente, a Anglo American construiu e entregou uma nova e alternativa estação de captação e distribuição de água potável para a população. Nesse período, a empresa assegurou o fornecimento aos moradores por meio de galões de água mineral e caminhões-pipa. E outros 300 funcionários da empresa, fixos e temporários, incluindo preferencialmente a mão-de-obra existente na cidade, foram convocados e mobilizados para ajudar a equipe local.

29 de março de 2018

Data do segundo vazamento do mineroduto, a poucos metros do primeiro. Dessa vez, dos 250 m3 de polpa de minério vazados, mais da metade não caiu no córrego. Mas em um morro de pastagem, sem floresta, já devastado pela pecuária. Usando uma mangueira d’água gigante, os funcionários da empresa “lavaram” o morro, reabilitaram o solo e transportaram todo o material inerte recolhido.

O restante da polpa de minério caiu e foi carreado pelo ribeirão até oito quilômetros abaixo. Por precaução, sua área de limpeza foi estendida em mais dois quilômetros, incluindo a restituição das margens naturais, além da calha do curso d’água.

Ambos os derramamentos não atingiram, felizmente, o curso do Rio Casca, nem o Rio Doce, como se temeu e chegou a ser divulgado na época.

25 de maio de 2018

A Revista Ecológico foi até Santo Antônio do Grama, que até hoje, a exemplo de Mariana, lança todo o seu esgoto in natura no ribeirão de mesmo nome. E confirmou um cenário ambiental muito comum em toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce, antes da tragédia da Samarco: de perto, a situação do ribeirão que dá nome ao município é outra. Tanto no local atingido por ambos os vazamentos da Anglo American, quanto suas margens a montante e a jusante. Faz dó ver a situação histórica desse seu curso d’água.

Trata-se de um ribeirão hoje bastante assoreado, sem verde natural às suas margens, em razão da devastação de suas matas ciliares. Segundo moradores da cidade, elas foram desmatadas no passado pelos próprios fazendeiros e lavradores. E, tal como a Ecológico já reportou ao longo de 100 quilômetros de margens do Rio Doce e seus afluentes, pós-tragédia de Mariana, praticamente não há mais arbustos e árvores ao longo do Ribeirão do Grama, para alimentar sua fauna aquática. Só a invasão induzida de diversos e agressivos tipos de capim, para o gado se alimentar.

Por isso mesmo, quase todas as margens e o próprio leito do ribeirão em processo acelerado de recuperação ambiental pela Anglo American na região são arenosos. Eles resultam do assoreamento proveniente dos morros pelados, cujas matas foram cortadas para dar lugar à pata do boi.

Pelo acordo com o Ibama e o Ministério Público, a mineradora propôs e está fazendo a requalificação ecologicamente correta de toda a natureza do ribeirão, como o replantio planejado das matas ciliares que já existiram ali. Soma-se a isso a reintrodução programada de espécies frutíferas de árvores e a não retificação do seu curso atual, tal como acontece na natureza, para diminuir a velocidade de suas águas.

Também está em curso um programa de educação ambiental para os moradores vizinhos e crianças matriculadas nas escolas locais. A proposta maior é que os proprietários e moradores às margens do ribeirão atingido adotem, junto com os funcionários da Anglo American, uma proteção hídrica compartilhada que também seja boa para todos. Sem autorização expressa deles, não há como entrar nas propriedades e fazer qualquer coisa, mesmo que seja sustentavelmente benéfica. Todo este trabalho já em execução está sendo previsto pela mineradora ao longo de 10 quilômetros do ribeirão, dois a mais do que foi impactado.

“Se a obrigação legal e ambiental é entregarmos o trecho agredido do ribeirão plenamente recuperado, nós vamos além. Vamos entregar um plano mais robusto e extenso, que inclua também a recuperação das áreas contíguas do rio que já estavam degradadas ao longo de anos, desmatadas e sem vegetação ciliar. Isso irá resultar na criação e manutenção de novas áreas verdes para o município”, afirmou Ruben Fernandes, presidente da Anglo American Brasil.