Entre memórias e histórias

O Jornalista Mia Couto: "Quando os anjos e demônios estão juntos, não há vencidos e vencedores.

Bruno Frade - redacao@revistaecologico.com.br
Memória Iluminada
Edição 107 - Publicado em: 14/05/2018

Mia Couto nasceu em 1955, na Cidade de Beira, em Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de 30 livros relacionados a prosa e poesia. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles, Camões (2013), o mais importante da língua portuguesa, e o Neustadt Prize (2014).

Filho de portugueses exilados, aprendeu desde cedo o simples ato de ouvir, exercício raro em tempos de correria e excesso de aparatos tecnológicos. “A África onde eu vivo é uma sociedade de escuta. As pessoas ouvem os outros e na conversa há uma distribuição dos tempos. Tempo da fala e o tempo da escuta. Esse exercício começou em minha casa.”

As primeiras grandes viagens do autor foram por meio da escuta dessas histórias e muitos de seus livros fazem uma ponte entre vozes, tempos e pessoas. “Eu vivia em um ambiente de narrativas. Meus irmãos falavam e, nas conversas, percebia que havia uma espécie de repartição das funções. As minhas histórias nascem das conversas e também da capacidade de escutar os outros. É um exercício que faço desde menino.”

Sobre o tema Políticas da Memória no Tempo Presente, Mia conversou com o público na Casa Fiat de Cultura, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, num encontro promovido em parceria com a Fundação Torino. No bate-papo ele citou a “embriaguez” sucedida das conquistas da moderna tecnologia e apresentou seu mais recente livro: O Bebedor de Horizontes. O volume encerra a trilogia histórica As Areias do Imperador, ao lado de Mulheres de Cinza (2015) e A Espada e Azagaia (2016).

A Ecológico destaca, a seguir, algumas das memórias e histórias desse moçambicano que coleciona fãs e reconhecimentos mundo afora. Embarque em suas viagens literárias, escute as vozes dos personagens e conheça contos incríveis:

Viagens literárias

“Contar histórias é algo que parte do não saber. É uma ignorância intencional. A história me torna disponível para escutar as vozes dos personagens.”

“Com a minha literatura faço uma espécie de projeção de tudo aquilo que pretendo ser e vivo dentro de mim; é como se fosse uma espécie de duplo eu.”

Um Rio Chamado Tempo,

Uma Casa Chamada Terra

“Nesse livro, o avô parece ter morrido, mas não sabe exatamente se está ou não morto. É um suposto autor de cartas que o jovem tem de registrar. Eu só descobri mais tarde que, com ele, estava a falar da minha própria infância, do meu avô que nunca conheci.”

“Foi um episódio muito importante para mim. Eu me lembro que, neste dia, vi meu pai chorar pela primeira vez. Eu tinha sete anos e nunca tinha visto o meu pai chorar. Chegou uma carta de Portugal, informando que meu avô havia morrido.”

“Todas as noites e até hoje escuto os passos desse avô. Foram esses passos que me conduziram na construção dessa história. Do menino que atravessa o rio em busca dessa família e do sentimento de que todos nós precisamos.”

Exílio

“Os meus pais vieram de Portugal muito jovens e foram obrigados a se exilarem por motivos políticos. Assim como todos os imigrantes, faziam pontes com suas memórias, contando histórias nas cabeceiras de nossas camas. Esse foi o momento em que comecei a ser escritor. Não me lembro muito dessas histórias, mas não me esqueço da magia e da paixão a que se entregavam na fabricação delas.”

“Meu pai e minha mãe viram sua terra ser tomada pela ditadura. O exílio impôs a eles viverem como os nômades do Tibet. Eu cresci em tendas feitas de histórias. Aquela foi a minha primeira nação. Nelas habitavam minha pequena família, o meu avô e outros parentes que não conheci.”

Luta armada

“Aos 17 anos, já havia publicado poemas em jornais e revistas. A essa altura estava ingressando na universidade e comprometido com a luta pela independência, uma luta armada, apesar de nunca ter pego em uma arma.”

“Em certo momento, fui levado para um local desconhecido. Era uma sala escura, com mais de 40 pessoas. Eu era o único jovem, branco e universitário. Comecei a escutar essas gravações e percebi que aquela gente tinha sofrido torturas e sido presa, e não tinha nenhum sofrimento para apresentar.”

“Era curioso, porque o tamanho do sofrimento de cada um era uma espécie de passaporte. As pessoas eram habilitadas a pertencer ao movimento diante de suas provas de sofrimento. Eu fui o último e escutei o seguinte: “Você é o responsável pelos poemas do jornal? Disse: sou. Então, pode entrar, que precisamos de ti.”

“Esse episódio me faz lembrar que a poesia, às vezes, abre portas e também que o sofrimento constrói pontes.”

O outro pé Da sereia

“Para escrever este livro, fiz pesquisas, tive conversas sobre escravos e fui ao norte de Moçambique. Ninguém podia falar sobre esse assunto. Um dia, depois de muita insistência, um chefe religioso tradicional bateu em minha porta e disse: 'É melhor que vás embora, volte para casa. Você está trazendo grande tormento para nossa comunidade. Não venha reabrir feridas. Acabamos de sair de uma guerra. Não queremos mais violência'.”

Guerra civil

“Foi um martírio que durou 16 anos. Moçambique viveu uma guerra que deixou um milhão de mortos e destruiu a sociedade, do ponto de vista psicossocial e econômico. Mesmo depois de tantos anos, até hoje não sei como falar dessa guerra.”

“Durante todo esse tempo morei em Matuto e era impossível sair da cidade. Vivíamos cercados pela guerra e de nossas casas escutávamos os barulhos das explosões e dos tiros. E observávamos a chegada dos feridos e mortos.”

“Era jornalista e perdi amigos que foram assassinados. Tenho que falar de um colega que era chefe da redação do jornal. Ele dizia que precisava cobrir a guerra por ser negro, africano e ter de honrar os seus antepassados. Pensou que não poderia ser capturado, mas foi pego na estrada e morto, junto com a esposa e os filhos.”

O novo amanhã

“Em 4 de outubro de 1962, foi assinado o acordo de paz. Passados alguns dias, eu e meu irmão mais velho tivemos de sair da região. Quando chegamos ao limite da cidade, era como se não soubéssemos olhar para o novo, para aquela paisagem infinita que se abria. Vou confessar: começamos a chorar.”

“Ouvi meu irmão baixar a cabeça sob o volante e murmurar: ‘eu não consigo’. Voltamos para trás incapazes de vencer aquela invisível fronteira. A guerra havia tomado conta de nós. Do mesmo modo que as paredes passam a existir por dentro das cadeias.”

“Essa estrada foi uma espécie de metáfora daquilo que é a capacidade de se manter vivo,de voltar a sonhar.”

O bebedor de horizontes

“Há uma fala que me recorda muito o sentimento que herdei dos anos da guerra. A imperadora irmã fala para uma das personagens: ‘Minha rainha, a senhora apagou-me o idioma que aprendi na escola, arrancou uma das minhas antigas raízes. Não me apagou, contudo, a arte de ler e escrever em português. Pois agora, sou eu que lhe peço: leve-me também esses dons. Não quero mais papel, não quero mais tinta, não quero mais caneta. A escrita dói-me, e eu desejo destatuar a minha alma. Talvez a senhora nem saiba, mas as palavras, quando grafadas, amarram o tempo. Se não posso rever o meu filho, não quero mais o tempo, não quero nenhuma lembrança. Por isso, imploro-lhe: rasgue todas as folhas antes de estarem escritas e converta em água toda a gota de tinta. Quero-me vazia. E quando não houver em mim nenhum idioma, peço-lhe me apague a língua dos sonhos. Porque me basta a noite dos bichos: um tempo para simplesmente nascer e morrer.”

Mesma aldeia

“Vivemos hoje em um mundo global e estamos todos na mesma aldeia. Parece que estamos todos ligados por uma via reflexiva da internet e do Facebook, mas não é verdade. É ilusão, não vivemos todos no mesmo mundo, até porque nem toda a humanidade tem acesso à internet.”

Recomeço

“Precisava curar essa doença que era a guerra em volta das pessoas. Eu só tinha uma saída: a poesia. Era mais que lembrar um lugar; eu queria construir um lugar fora do mundo.”

“Essa estrada que inventei foi uma espécie de encontro comigo mesmo. A possibilidade de haver um tempo para mim.”

“Éramos todos nós, de um lado e do outro, vítimas e culpados. Homens vencidos e vencedores. Parece que a história seria escrita pelos vencedores, mas na nossa guerra não houve quem pudesse escrever essa história. Anjos e demônios estavam juntos nela.”

“A literatura foi um convite para visitar esse tempo e mostrar que esse esquecimento é falso.”

Esquecimento coletivo

“Todos sabemos o que aconteceu em 11 de setembro de 2011, nos Estados Unidos. A dimensão trágica do que ocorreu criou uma linha divisória no tempo. O antes e o depois. Morreram pessoas inocentes e esse crime não pode ser esquecido. Mas eu pergunto: quem entre nós se recorda dos dias 6 e 9 de agosto de 1945? Foram os dias em que a Força Aérea dos EUA bombardeou as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Lá morreram milhares de pessoas. Por que esse evento não é descrito com a mesma importância na linha divisória da história quanto o 11 de setembro? Afinal, não nos esquecemos apenas do que aconteceu, mas desse crime absurdo, dessas duas bombas. Nos esquecemos que elas foram lançadas em nome de Deus.”

“O esquecimento é uma fabricação intencional. Ele tem dono. É assim que esquecemos os genocídios, o tráfico de escravos, os anos de ditatura. O que tivemos em Moçambique, vocês tiveram no Brasil.”


Postar comentário