Biodiversidade em risco

Invasões biológicas podem ser intensificadas em razão das mudanças climáticas. No Brasil, caramujo-gigante-africano, javali e mosquito Aedes aegypti estão entre as espécies exóticas invasoras mais conhecidas
Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br
Ecológico nas Escolas
Edição 107 - Publicado em: 14/05/2018

Biodiversidade é o conjunto de formas de vida da Terra, compreendendo todos os seres que fazem parte de um ecossistema, de plantas e animais a microorganismos, assim como as interações entre eles e sua variabilidade genética. Um de seus sinônimos é diversidade biológica, contemplando tanto a variabilidade encontrada nos ecossistemas naturais quanto naqueles com interferência humana, ou seja, antrópicos.

E quando o assunto é a biodiversidade, o Brasil tem lugar de destaque. Afinal, detém aproximadamente 20% das espécies existentes no planeta. Mas tanto aqui quanto no mundo afora se alastra há tempos uma ameaça silenciosa e ainda pouco discutida junto à sociedade, em especial ao cidadão comum: a invasão de espécies exóticas.

Conforme especialistas, há espécies exóticas invasoras de todos os grandes grupos taxonômicos, incluindo desde vírus, fungos, algas, briófitas, pteridófitas e plantas superiores, até invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos.

Seu potencial em alterar sistemas naturais é tão elevado que, atualmente, espécies exóticas invasoras são a segunda maior causa de extinção de espécies em escala global. Elas ficam atrás apenas da destruição de hábitats pela exploração humana, por meio da conversão de ambientes naturais para dar lugar a pastagens, lavouras, abertura de estradas, instalação de indústrias etc.

As mudanças climáticas e o aquecimento global estão intrinsecamente ligados à facilitação de invasões por espécies exóticas. Assim como a globalização, caracterizada pela rapidez e facilidade de acesso a diferentes meios de transporte, viagens de turismo e comércio.

Consequências negativas

A invasão biológica, processo de ocupação de um ecossistema por uma espécie exótica, se dá quando qualquer espécie não natural é ali introduzida e se estabelece, passando a se dispersar e a alterar esse ecossistema.

As consequências ecológicas negativas da ação de espécies invasoras são contundentes. Entre elas estão a eliminação de espécies nativas por competição ou predação, alterações em ciclos ecológicos – como o de produção de água – e na frequência/intensidade de incêndios naturais. Elas também acarretam alterações de características químicas dos solos e da dinâmica dos processos de polinização e de dispersão de sementes.

De modo geral, na natureza a maior parte dos ‘problemas’ ambientais é absorvida e seus impactos são amenizados com o tempo. Esta máxima, no entanto, não prevalece nos processos de invasão. Pelo contrário. Eles costumam se agravar à medida que as espécies exóticas ocupam o espaço das nativas. As consequências, além das já mencionadas acima, incluem ainda alteração fisionômica da paisagem natural e elevados prejuízos à economia mundial.

Diante de tantos impactos e ameaças, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou, em 1997, o Programa Global de Espécies Invasoras (GISP). Os quatro primeiros anos de trabalho foram dedicados à elaboração de diagnósticos e diretrizes. Com a colaboração de centenas de países, inclusive do Brasil, o programa apontou algumas linhas de ação prioritárias.

As principais delas foram a definição de estratégias nacionais e regionais nesse campo, ainda pouco estudado na maioria dos países, a capacitação técnica e humana para o controle e a erradicação de plantas invasoras e a construção de sistemas de informação de acesso geral.

Informe nacional

Mas como as invasões biológicas afetam o dia a dia das populações e os ecossistemas naturais? Em diferentes países, a presença de espécies invasoras ocasiona grandes perdas econômicas e severos desequilíbrios ambientais. Estimativas globais giram em torno de US$ 1,4 trilhão em prejuízos anuais, o equivalente a 5% da economia mundial. Isso sem contar os chamados danos não mensuráveis ou valorados, como os serviços ambientais prestados por inúmeras espécies.

Segundo dados da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), desde 1600 as espécies exóticas invasoras levaram ao desaparecimento de 39% das espécies de animais extintas por causas conhecidas. No cômputo mundial, acredita-se que cerca de 480 mil espécies exóticas já tenham sido introduzidas nos diversos ecossistemas da Terra.

No Brasil, o Ministério do Meio Ambiente realizou um diagnóstico, que resultou no Informe Nacional sobre Espécies Exóticas Invasoras, iniciado em 2003 e destinado a sistematizar e divulgar informações sobre a distribuição dessas espécies e a capacidade instalada no país para tratar o problema.

Na ocasião, foram identificadas 543 espécies de organismos que afetam o ambiente terrestre (fauna, flora, microrganismos); o ambiente marinho (fauna, flora, microrganismos), as águas continentais (fauna, flora, microrganismos); os sistemas de produção (agricultura, pecuária e silvicultura) e a saúde humana.

Lagoa da Conceição

O Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental mantém uma base de dados nacional, atualmente com 444 espécies exóticas invasoras. São 1.103 colaboradores registrados e mais de 2.500 referências bibliográficas, graças a um trabalho que vem sendo realizado há 15 anos, em articulação com ministérios do Meio Ambiente em mais de 20 países, na América Latina e no Caribe.

Alguns casos de desequilíbrio ecológico provocados pela presença de espécies invasoras são emblemáticos e envolvem medidas que, em princípio, especialmente para leigos, podem parecer extremas, como o corte de árvores. É o que vem acontecendo, por exemplo, no Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC).

Já foram suprimidos mais de 300 mil pínus (Pinus elliottii e Pinus taeda) que invadem o parque e ameaçam espécies nativas e endêmicas, ou seja, que ocorrem apenas naquela região. Quem explica a iniciativa é a engenheira florestal Sílvia Ziller, fundadora e diretora-executiva do Instituto Hórus e integrante da Rede de Especialistas em Espécies Invasoras da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

“Ao contrário do que muitos pensam, em determinados casos, para conservar o meio ambiente é preciso retirar plantas já estabelecidas que desequilibram ambientes naturais e comprometem o funcionamento dos ecossistemas.”

Nativo da América do Norte, o pínus ou pinheiro-americano, introduzido no Brasil para fins de reflorestamento, representa um problema ambiental porque elimina, gradativamente, as plantas nativas em função de sombreamento, mudança nas características químicas do solo e consumo da água disponível no subsolo.

Cada ecossistema tem suas características, seu processo de evolução natural, adaptadas às diversas espécies que compõem determinada região. A introdução de plantas ou animais que não fazem parte dessa cadeia afeta consideravelmente todo o ciclo de interações entre os seres vivos. “A invasão por pínus na restinga da Lagoa da Conceição e em outras unidades de conservação do Sul e Sudeste leva à redução de populações de plantas nativas, entre outros efeitos menos evidentes”, frisa a especialista.

O controle da espécie é feito por voluntários e vem sendo desenvolvido desde 2010, sob a coordenação da bióloga e doutora em ecologia Michele Dechoum. Atualmente, os esforços estão concentrados na divulgação e na solicitação de ajuda da população residente na região para que também elimine as árvores de pínus de seus quintais, uma vez que funcionam como fonte de sementes para a invasão no parque.

Fique por dentro

Para cada espécie naturalmente existente há outras que interagem com ela ou dependem dela para que o ecossistema funcione de maneira harmônica.

O conjunto de seres vivos em cada local se regula, equilibrando o ambiente. Com a chegada de uma espécie exótica, o controle natural pode não ocorrer, pois os inimigos naturais que fazem o controle da espécie não vêm junto com ela.

Quando a espécie exótica se torna invasora, a consequência é a propagação descontrolada e o desequilíbrio ambiental. Como as introduções de espécies estão ligadas a interesses da sociedade, cabe também ao ser humano evitar a introdução de espécies ou escolher as melhores e mais adequadas espécies a introduzir, bem como arcar com a responsabilidade no que se refere às medidas de prevenção e controle.

A disseminação global de um conjunto de espécies de alta capacidade de adaptação e invasão tende a levar à homogeneização da flora e da fauna em países com condições ambientais similares. Isso significa que ocorre gradativa redução da diversidade natural de espécies e da relação entre os diferentes seres vivos e os serviços ambientais provenientes dessas interações.

Sem a adoção contínua de medidas de prevenção e de manejo para a conservação da biodiversidade, as espécies exóticas tendem a ganhar cada vez mais espaço e a interferir na sustentabilidade dos processos naturais.

Impactos e prejuízos

São inúmeros os exemplos de invasão de ambientes naturais brasileiros por espécies exóticas. Há animais de água doce, de ecossistemas marinho-costeiro e terrestre, arbustos, árvores, ervas e trepadeiras. Por motivos econômicos, o caramujo-gigante-africano (Achatina fulica) foi introduzido no país, causando impacto ambiental, econômico e à saúde humana.

O javali-europeu (Sus scrofa), introduzido ilegalmente para fins de caça e criação, invade a metade sul do país e causa enormes prejuízos à agricultura, além de impactar espécies nativas de porcos-do-mato. O mosquito-da-dengue, Aedes aegypti (“odioso do Egito”, na tradução do latim) é outro exemplo bastante conhecido, também vetor da chikungunya e da zika, doenças que acarretam mortes e elevados custos à saúde pública.

Outro caso conhecido envolve o teiú (Salvator merianae). Essa espécie de lagarto foi levada do continente para o arquipélago de Fernando de Noronha (PE), na década de 1950, com a intenção de que pudessem controlar ratos, o que nunca aconteceu. Hoje, a população estimada do animal chega a 8 mil exemplares e, em vez de predar ratos, houve impacto ambiental, porque se alimentam de ovos de aves e tartarugas marinhas.

Vale citar ainda o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), espécie que tem provocado alterações ecológicas significativas em rios e reservatórios, além de impactos econômicos significativos em hidrelétricas e sistemas de saneamento, obstruindo e aumentando a corrosão de tubulações.


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