O desafio complexo no campo

Num planeta de mais de sete bilhões de pessoas, pressão aumentada sobre recursos naturais de toda espécie, a gestão de recursos hídricos se coloca como questão ímpar para todas as nações, principalmente quando se trata de dar acesso universal à água potável e produzir alimentos.

Luciana Morais, Luciano Lopes, Cristiana Andrade e Bruno Frade - redacao@revistaecologico.com.br
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Edição 106 - Publicado em: 24/04/2018

Num planeta de mais de sete bilhões de pessoas, pressão aumentada sobre recursos naturais de toda espécie, a gestão de recursos hídricos se coloca como questão ímpar para todas as nações, principalmente quando se trata de dar acesso universal à água potável e produzir alimentos.

Calcula-se que a agricultura – incluindo aqui os cultivos, a pesca, a atividade florestal e a pecuária – seja um dos motivadores da escassez de água e também prejudicada por ela. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), 70% da extração de água em nível mundial se destina à produção de comida, num cenário em que se prevê o aumento de 50% na demanda por alimentos até 2050.

Nesse contexto, é preciso levar em conta ainda as mudanças climáticas, que no século 21 deixaram mais alarmados dirigentes de países e ambientalistas, tamanhos foram os reflexos no processo de degelo da Antártida, secas extremas, inundações e outros tantos fenômenos climáticos, que, além de atingirem duramente núcleos urbanos, afetaram muitas áreas rurais.

No Brasil e em outros países em desenvolvimento, o tempo parece apertado para o cumprimento da Agenda 2030 da ONU, que estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles o ODS 6 – “Água potável e saneamento”; ODS 2 – “Fome zero e agricultura sustentável”; ODS 13 – “Ação contra a mudança global do clima”; e ODS 14 – “Água e vida”. Todos eles intrinsecamente interligados.

Para se ter ideia, a Índia, em 2000, tinha cerca de 19 milhões de poços mecanizados ou por tubos, enquanto em 1960 esse montante era de menos de um milhão. Essa evolução nos campos indianos representou um importante esforço do país em combater a pobreza, mas, por outro lado, resultou no desenvolvimento de um sistema de irrigação que gerou estresse hídrico.

No Brasil, a realidade é similar à de outros países em desenvolvimento: mais de 70% do uso da água vai para sistemas de irrigação na agricultura. De acordo com o Atlas Irrigação, produzido pela Agência Nacional de Águas (ANA) em 2017, o país tinha 6,95 milhões de hectares equipados com sistemas de irrigação, retirando 969 mil litros por segundo da fonte (rios ou reservas subterrâneas), sendo que a projeção para 2030 é de 1,33 milhão de litros por segundo.

Transformação digital

Esse cenário coloca o país entre os 10 com maior área irrigada do planeta, e tem capacidade para aumentar as lavouras em até cinco vezes.

Mas, diante do cenário de escassez, é importante que setor produtivo, governo e sociedade dialoguem para responder à pergunta: o Brasil pretende ampliar essas áreas ou busca encontrar formas e técnicas melhores para expandir as áreas de plantio, sem gastar mais água?

Na visão do presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, os desafios são complexos, uma vez que a agricultura está inserida em cadeias globais de produção. “Precisamos olhar para o nexo alimento/água/natureza. O Brasil tem muitas riquezas, seis biomas complexos e é um grande exportador de alimentos. Temos grandes bacias hidrográficas compartilhadas com outros países, como Argentina e Bolívia. Então, inserir o país nessa perspectiva transnacional, inclusive do ponto de vista das mudanças climáticas e dos impactos que sofremos aqui, é fundamental, uma vez que uma ação que tomo no meu território, impacta diretamente meu vizinho.”

Lopes disse ainda acreditar que estamos vivenciando uma transformação digital que vai gerar uma mudança de paradigma na chamada lavoura de precisão. Segundo ele, 40 anos atrás a realidade do Brasil era 70% de trabalho na terra e 30% de tecnologia. Hoje é o inverso. “A tecnologia está passando por uma revolução, com o uso de drones e sistemas que conseguem calcular a quantidade exata de água que determinada planta precisa.”

Maurício Lopes lembrou ainda as grandes instituições científicas que produzem conhecimento nessa área e políticas públicas que orientam sobre o zoneamento e o risco climático em várias regiões do país. “A aprovação do Código Florestal foi mandatória no sentido de obrigar o produtor a proteger seus biomas e suas águas. Está tudo resolvido? Não, não está. Mas temos investido em alternativas, como os sistemas integrados (lavoura/pecuária, lavoura/floresta). Dos 70 milhões de hectares cultivados no país, 12 milhões estão integrados”, acrescentou.

Experiências internacionais

Durante debate sobre água para agricultura e a produção de alimentos, a ministra de Alimentação e Meio Ambiente da Espanha, Isabel Garcia Tejerina, enfatizou a mudança que seu país teve de adotar para tornar seu sistema mais eficiente e causar menor impacto ambiental.

A Europa tem mais de 50 milhões de hectares em áreas irrigadas e a Espanha é o país que lidera esse ranking. “Nossa agricultura é forte e esses sistemas são muito importantes para a população rural. Ocorre que, com as mudanças climáticas, passamos a usar irrigação onde anteriormente não havia necessidade. Então, a Espanha se viu diante de erradicar a fome e a pobreza, apostar numa economia social e ambiental, reduzir emissões de gases, tudo para ratificar o Acordo do Clima de Paris, com um sistema de irrigação antigo. Precisávamos adotar uma visão de sustentabilidade ambiental, com redução de consumo de água e uso desse recurso de forma moderna”, explicou Isabel.

E qual foi a mágica? O processo teve início em 2004, quando o país começou a substituir equipamentos em uma área de 1,5 milhão de hectares, aumentando a eficiência no uso dos recursos hídricos com a redução de 10% do consumo da água e expandindo a área de irrigação; e deixando de usar fertilizantes agressivos nos cultivos. “Mudamos o modelo de governança, e foi o que deu esse resultado positivo. Investimos em treinamento para agricultores e em campanhas de comunicação com eles, para que entendessem o novo processo. Estamos investigando novos modelos de produção de água, como reúso e dessalinização; e novas tecnologias para o agricultor. Essa tomada de decisão mais eficiente é nossa meta até 2025 para termos maior consciência no uso da água”, acrescentou a ministra espanhola.

A economista Cláudia Sadoff, diretora-executiva do International Water Management Institute, ponderou que o grande desafio das nações produtoras de alimentos é pensar em todas as possibilidades de uso consciente da água diante da menor disponibilidade dos recursos hídricos. “Temos de pensar na água azul (rios e lagos), na verde (capturando do solo e das florestas e biomassa) e em como equilibrar irrigação tradicional com a água da chuva de forma global. Não há mais como pensar numa propriedade local. É preciso pensar e agir coletivamente.”