Hanseníase

A hanseníase é uma doença infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae, também conhecido como bacilo de Hansen, que acomete a pele e os nervos, podendo deixar sequelas.

Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 106 - Publicado em: 18/04/2018

A hanseníase é uma doença infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae, também conhecido como bacilo de Hansen, que acomete a pele e os nervos, podendo deixar sequelas. É registrada na história da humanidade desde os hieróglifos egípcios e já ganhou o título de “doença mais antiga do mundo”. Recebeu os nomes de lepra, morfeia, mal de lázaro e, mais recentemente, mal de Hansen. No grego, a palavra “lepra” significava “algo que descama”. É citada na Bíblia como castigo divino, e no livro Levítico, do Antigo Testamento, está escrito: Guarda-te da praga da lepra e tem diligente cuidado de fazer tudo segundo o que te ensinarem os sacerdotes [...].

Atualmente, o único nome que a Medicina utiliza para a doença é hanseníase, em homenagem ao médico norueguês Armauer Hansen, descobridor da bactéria causadora da enfermidade. Para evitar o estigma em relação aos doentes é recomendada a não utilização da denominação “lepra” como diagnóstico clínico. Afinal, como escreveu o escritor inglês Graham Greene: Lepra é uma palavra, não é uma moléstia. Nunca acreditarão que lepra se cura. Palavra não se cura.

Trata-se de uma doença transmitida de pessoa a pessoa por meio de secreções, como a saliva. É adquirida após contatos sucessivos ao longo do tempo, geralmente em ambiente domiciliar. O bacilo tem alta infectividade (pode infectar grande número de pessoas), porém tem baixa patogenicidade (poucas pessoas adoecem).

Clinicamente, manifesta-se com manchas de cor clara, com diminuição da sensibilidade no local. Também podem aparecer placas avermelhadas e nódulos, que na face podem ser deformantes. Como atinge os nervos, pode causar a atrofia de dedos, as mãos e os pés perdem a mobilidade, permanecendo defeitos físicos como sequela. Atualmente, a hanseníase é curável, mesmo que o tratamento demore vários meses. E com poucos dias de uso dos medicamentos o paciente deixa de ser contagiante. Apesar de a incidência da doença ter diminuído no Brasil, vários novos casos surgem a cada ano, alguns deles ainda diagnosticados muito tardiamente.

Por força de lei, os hansenianos eram compulsoriamente internados em leprosários, que eram verdadeiras prisões. Somente em 1962 foi revogada essa lei. Vários anos mais tarde os leprosários mudaram de nome, passando a abrigar apenas os doentes que não tinham mais como se reintegrar à sociedade.

Guimarães Rosa conviveu de perto com a enfermidade durante sua formação médica e nos poucos anos em que clinicou. No seu livro “Magma”, escrito no início da década de 1930, que, todavia, foi publicado somente após sua morte, há um poema com o título “Reportagem”, que certamente se refere ao Leprosário Colônia Santa Izabel, que ficava no município de Betim, a quarenta quilômetros de Belo Horizonte. A maria-fumaça era o principal meio de transporte para se chegar ao local e, coincidentemente ou não, era esse trem de ferro que fazia a ligação entre a capital mineira e Itaúna, município onde ficava a vila de Itaguara:

O trem estancou, na manhã fria,

num lugar deserto, sem casa de estação:

a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,

deixou o baú à beira da linha,

e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,

com medo de que o homem que saltara

tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,

não havia nome ou etiqueta de hotel:

só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo

Socorro...

O trem se pôs em marcha apressada,

e no apito rouco da locomotiva

gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,

mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,

como quem não tem frente, como quem

só tem costas...

Na época em que Rosa clinicava não havia tratamento efetivo, e o isolamento do enfermo era a principal medida a ser tomada. Diante da impotência da Medicina em combater a infecção, existiam superstições sobre a doença, como, por exemplo, evitar nomeá-la diretamente. No livro “Sagarana” há uma referência a essa prática, no conto “São Marcos”: [...] nem dizer lepra, só o “mal” [...], e uma outra citação breve, no conto “Corpo Fechado”, do mesmo livro: Camilo Matias acabou com mal-de-lázaro...

No livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no conto “Cara-de-bronze”, há também uma citação direta à hanseníase:

O fazendeiro patrão não saía do quarto, nem recebia os visitantes, porque tinha uma erupção, umas feridas feias brotadas no rosto. Seria lepra? Lepra, mal-de-lázaro, devia de ser, encontrar-se um rico fazendeiro nesse estado não era raridade. Lamentava-se, a doença. O ar ali, era triste, guardado pesado.

No “Grande Sertão: Veredas” um personagem importante foi o chefe jagunço Sô Candelário, muito admirado por Riobaldo, que gostava de ficar sob suas ordens. O parágrafo seguinte é uma verdadeira aula sobre hanseníase, com conhecimentos que ainda mantêm a atualidade:

Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. Pai dele tinha adoecido disso, e os irmãos dele também, depois e depois, os que eram mais velhos. Lepra - mais não se diz: aí é que o homem lambe a maldição de castigo. Castigo, de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Sô Candelário. Vivia em fogo de ideia. Lepra demora tempos, retardada no corpo, de repente é que se brota; em qualquer hora, aquilo podia variar de aparecer. Sô Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa, espiar seus braços, a ponta do cotovelo, coçava a pele, de em sangue se arranhar. E carregava espelhinho na algibeira, nele furtava sempre uma olhada. Danado de tudo. A gente sabia que ele tomava certos remédios - acordava com o propor da aurora, o primeiro, bebia a triaga e saía para lavar o corpo, em poço, “(para a beira do córrego ia indo, nu, nu, feito perna de jaburu. Aos dava. Hoje, que penso, de todas as pessoas Sô Candelário é o que mais entendo. As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta futura da lepra; e, no mesmo tempo, do mesmo jeito, forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.

O médico Guimarães Rosa sabia que o contágio efetivo, por exigir contatos múltiplos, é geralmente intrafamiliar, que as crianças são mais suscetíveis que os adultos, que a demora em manifestar os sintomas e sinais é outra característica da hanseníase, que uma das manifestações mais frequentes é o aparecimento de manchas hipocrômicas no corpo, e que essas lesões determinavam a perda da sensibilidade da pele no local.

A ausência de tratamento, naquela época, fazia com que inúmeras alternativas de cura fossem tentadas. Sô Candelário “bebia a triaga”, ou teriaga, que é uma mistura de dezenas de componentes, que se acreditava como uma panaceia para várias doenças, inclusive um antídoto eficaz em envenenamentos. É citada em textos antigos há milênios, e a fórmula exata era um segredo muito bem guardado. Galeno, no século II d. C., formulou uma mistura de 64 substâncias, quando o composto recebeu o nome de teriaga. Muitas variações de composição se faziam necessárias, devido a dificuldades de obtenção, já que inicialmente usava-se, por exemplo, o ópio. Porém, continha várias plantas medicinais e carne de cobra dessecada, que se supunha imune a venenos.

No conto “Substância”, do livro “Primeiras Estórias”, surgem outras referências à hanseníase. Ao descrever a personagem principal nesse texto, informa que: [...] o pai, razoável bom-homem, delatado com a lepra, e prosseguido, decerto para sempre, para um lazareto.

Nessa frase é significativo o fato de o homem ter sido “delatado”, já que as leis brasileiras de então impunham a “captura” dos hansenianos e a internação compulsória. E “lazareto” era outro nome empregado para leprosário. Logo adiante, no mesmo conto, são expostas as dúvidas de Sionésio quanto à saúde da amada Maria Exita, cujo pai havia sido enviado ao leprosário:

Se a beleza dela - a frutice, da pele, tão fresca, viçosa - só fosse por um tempo, mas depois condenada a engrossar e se escamar, aos tortos e roxos, da estragada doença? - o horror daquilo o sacudia.

Como já referido, Guimarães Rosa utiliza-se do verbo “escamar”, que remonta à origem grega da palavra “lepra”. Usa ainda, numa referência direta à hanseníase, a expressão “estragada doença”.

Uma visita hoje à Colônia Santa Izabel permite uma recuperação, em parte, de histórias dos tempos antigos. O acesso não é mais pela ferrovia, que foi desativada, mas por uma estrada de rodagem asfaltada. A portaria está em ruínas, com a fachada coberta de mato, porém alguns prédios estão razoavelmente conservados. Documentos antigos relatam que a área era cercada por muitos fios de arame farpado, para impedir fugas. Ali residem ainda seres humanos que viveram tempos sombrios. As casas continuam a abrigar alguns internos, pessoas que perderam para sempre seus vínculos familiares.

Também podem ser encontrados pequenos vilarejos pelo interior de Minas Gerais que tiveram início a partir de hansenianos refugiados. Quando não eram internados à força, e, principalmente, quando não havia leprosários disponíveis, os doentes tinham que se exilar. O indivíduo acometido, muitas vezes junto com sua família, era obrigado a partir e procurar locais isolados para viver. Geralmente, buscavam as desabitadas regiões montanhosas, onde nem sequer seriam vistos.

Nos planaltos e nos grotões das serras do Espinhaço, da Mantiqueira e da Canastra ainda podem ser encontrados povoados que se formaram devido ao estigma da hanseníase dos primeiros moradores. Atualmente, a doença desapareceu e ficaram apenas os descendentes dos pioneiros. São pessoas saudáveis, que vivem relativamente bem, cultivando a terra e comercializando com os turistas, que buscam as águas cristalinas que descem das montanhas. Evitam falar do passado, a não ser alguns, mais velhos, que são filhos ou netos de hansenianos, os quais, todavia, nunca adquiriram a doença. Com um tom de mágoa, relembram os tristes tempos de discriminação.

Em 1930, ainda em Itaguara (MG), Guimãraes Rosa mal sabia que outra doença iria se alastrar por toda a região rural, a ponto de muitas fazendas serem abandonadas. É o que você vai acompanhar na próxima edição.