A dor da falta d’água

Quase duas décadas depois de seu lançamento, uma das principais obras do jornalista sul-africano mostra que a sociedade avançou pouco na proteção, respeito e manutenção da água

Memória Iluminada
Edição 106 - Publicado em: 18/04/2018

Quando o assunto é água, provavelmente não há alguém mais preparado para falar do recurso natural no meio jornalístico do que Marq de Villiers. Nascido em 1940 na cidade de Bloemfontein (conhecida como a “Cidade das Rosas”), o jornalista sul-africano conviveu com a escassez de água desde cedo. Viveu a infância em uma região árida, em que um poço perfurado pelo avô era a única fonte de água da família.

Quando iniciou sua carreira no jornalismo, no início da década de 1960, já sabia que a água seria um tema constante em sua vida, e não apenas uma questão técnica a ser pesquisada. A prova disso é seu livro “Água”, lançado em 1999 e que ganhou uma reedição ampliada e revisada. A obra, como o próprio Villiers define, é resultado de mais de 30 anos coletando amostras de água em várias partes do mundo. E, incrivelmente, permanece atual.

Villiers conversou com vários especialistas em recursos hídricos, incluindo hidrólogos, para entender melhor como funciona o ciclo da água, sua disponibilidade, usos e abusos. Desenvolveu diagnósticos da situação do recurso natural de locais que visitou, analisou o impacto da escassez para as comunidades e a biodiversidade local e também conheceu bons exemplos de conservação.

“Quando comecei a escrever este livro, achei que entendia de água. Mas eu não entendia, não verdadeiramente. Eu sabia de onde vinha a água da minha pequena fonte e como a cobertura formada pela floresta sustentava o lençol freático, mas não tinha conhecimento real da intrincada interconexão do sistema hidrológico global”, disse o jornalista, que recebeu dois prêmios canadenses pelo livro (Canadian Science Writers Award e Governor General’s Award for Non Fiction).

Apesar de mostrar a insatisfação das pessoas na forma como as autoridades e as empresas ainda tratam a questão hídrica, Villiers afirma que a água se tornou um recurso ameaçado não apenas “pelas ações deliberadas de homens perversos, os corporativistas violadores da fantasia ecológica”. Mas também pelos “pequenos atos de muitas, inúmeras pessoas comuns, que sempre os praticaram”.

A seguir, a Revista Ecológico convida você, caro leitor, a uma viagem ao mundo literário e informativo de “Água”. Conheça e rememore conosco a realidade hídrica global sob o olhar realista, mas também otimista e espirituoso, de Marq de Villiers:

Bem universal

“Quando eu ainda era criança compreendi que sem água tudo morre, mas só bem mais tarde fui entender que ninguém ‘possui’ a água. Ela pode nascer na sua propriedade, mas só passa por lá. Você pode usar e abusar dela, mas ela não lhe pertence. É parte do bem universal, não uma ‘propriedade’, mas parte do sistema de sustentação da vida.”

Memórias

“Cresci em uma zona árida, na austera mas bela paisagem do Grande Karoo, na África do Sul, nas proximidades do que meus ancestrais chamavam de Thristland (“Terra da Sede”). Lá os rios raramente fluíam. Durante a maior parte do ano eles ficavam reduzidos a poças barrentas, que algumas vezes até desapareciam. Meu avô foi fazendeiro nessas terras incertas, e a água – a ideia da água, a ânsia pela água – consumiu sua vida.”

“Perto do fim da vida, meu avô trouxe um equipamento de perfuração e escavou um buraco de 300 metros de profundidade na rocha e no xisto argiloso do substrato. A aproximadamente 250 metros, os perfuradores encontraram um aquífero. E embora eu na época fosse apenas uma criança, ainda me lembro das gotas frias e claras da água do centro do mundo misturando-se às lágrimas do velho na poeirenta terra da fazenda. Para meu avô, aquilo era um milagre, uma coisa pura e boa, a vida extraída da rocha.”

“Meu avô era um homem que entendia o solo e sabia como funcionavam os sistemas naturais, e ele provavelmente tinha uma compreensão intuitiva de como a água havia sido guardada nos interstícios das rochas subterrâneas tantos séculos antes. Acho que ele considerava isso um presente de Deus, para ser usado de forma sábia e sem esbanjamento, mas de qualquer forma usado, como a chuva, que também é dada por Deus, para produzir as coisas que os fazendeiros devem produzir. Ele nunca soube da assustadora finitude da água.”

Produção

“O problema com a água – e existe um problema com a água - é que não se está produzindo mais água. Não se está produzindo menos, mas também não se está produzindo mais. Hoje existe a mesma quantidade de água no planeta que existia na pré-história. As pessoas, no entanto, estão fazendo mais – muitíssimo mais do que é ecologicamente sensato – e todas essas pessoas são dependentes da água para viver, para seu sustento, para se alimentar e, cada vez mais, para suas indústrias.”

“A quantidade de água existente no planeta com certeza não mudou desde as eras geológicas: o que tínhamos então continuamos a ter. A água pode ser poluída, maltratada e mal utilizada, mas não criada nem destruída. Ela apenas migra.”

Indiferença

“Os seres humanos podem viver um mês sem comida, mas morrerão em menos de uma semana sem água. Eles consomem, desperdiçam-na, envenenam-na e, inquietantemente, mudam os ciclos hidrológicos, indiferentes às consequências: muita gente, pouca água, água nos lugares errados e em quantidades erradas.”

Ambientalismo

“O movimento ambientalista, agora acostumado aos paroxismos desanimadores das profecias malthusianas, previu crescentes conflitos universais entre demanda e oferta. Ismael Serageldin, então presidente do Banco Mundial para assuntos relacionados ao meio ambiente e ex-presidente da Comissão Mundial da Água, declarou rudemente alguns anos atrás que ‘as guerras do século XXI serão travadas por causa da água’. Ainda que tenha sido severamente criticado por sua opinião, ele se recusou a desmenti-la.”

Crise

“A água está em crise na China, no sudeste da Ásia, no sudoeste da América, no norte da África – na verdade, na maior parte da África, com exceção das bacias do Congo, do Níger e do Zambezi. Mesmo na Europa há escassez de água. Seca já não é uma palavra estranha à Inglaterra, onde os lençóis freáticos já declinavam no início da década de 1990.”

Saara

“O Saara é o maior deserto do mundo, a apoteose da seca, mas mesmo sobre a superfície ou pouco abaixo dela ele não é totalmente desprovido de água. Vários grandes rios nascem fora dos seus limites, correm através do deserto ou nele desaparecem, impactando de várias maneiras sua superfície e suas águas subterrâneas.”

Egito

“As reservas de água do próprio Rio Nilo, o berço da civilização, estão em perigo. O Egito é um usuário eficiente da água, mas os egípcios estão consumindo absolutamente todo o suprimento disponível. E a população está crescendo mais de 3% ao ano. Há um milhão de novos egípcios a cada nove meses.”

China

“Em milhões de hectares no norte da China, o lençol freático está decrescendo a uma taxa de um metro por ano. A irrigação, e seu desperdício de água escoada – leva a culpa.”

“A China, com 22% da população mundial

e somente 6% de sua água doce, já se encontra em sérios problemas: um terço dos poços do noroeste já secou e mais de 300 cidades já sofreram

falta d’água.”

Saneamento

“Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água potável limpa e mais de 2,9 bilhões não têm acesso a serviços de saneamento. A realidade é que a cada oito segundos morre uma criança por causa da contaminação da água potável, e o saneamento tende a ficar cada vez pior, principalmente devido à tendência mundial de deslocamento do homem do campo para as favelas dos centros urbanos.”

Degradação

“Somente um terço da água que flui anualmente para o mar é acessível aos homens. Dessa quantidade, mais da metade já tem destino e está sendo usada. Esta proporção talvez não pareça muito, porém, a demanda vai dobrar em 30 anos. E muito do que se encontra disponível está degradado por aluvião erodido, esgotos, poluição industrial, produtos químicos, excessos de nutrientes e pragas de algas.”

Aquecimento global

“Há 18 mil anos, o gelo cobria um terço da superfície terrestre. Agora, somente 12% permanecem nas fronteiras geladas, e esta proporção está diminuindo. E diminuirá mais, e mais rapidamente, se o aquecimento da Terra realmente existir.”

Quantidade

“Os lagos de água doce e os rios, onde o ser humano consegue água para seu consumo, contém somente 9.000 km3, ou seja, 0,26% de todo o estoque global de água doce, que significa só 3% do estoque do mundo. Se toda a água da Terra fosse armazenada em um recipiente de cinco litros, a água doce disponível não encheria uma colher de chá.”

Oceanos

“Lamentar a morte dos oceanos pode ser prematura, mas o equilíbrio dos oceanos está começando a mudar à medida que o despejo de poluentes no mar começa a afetar a sua composição química. Às vezes, a natureza pode mudar um estado estável para um caos incontrolável, mas o homem, enteado da entropia, está fazendo isso bem mais rapidamente.”

Aumento da população

“O crescimento populacional, propulsor de todo o aumento das demandas de recursos, está no cerne do problema da desertificação. Mais gente significa mais animais e mais vegetação cortada para lenha e para construção. O rebanho adicional, que se faz necessário com o crescimento da população pisoteia e compacta o solo, reduzindo a infiltração da pouca água existente, causando erosão e danificando o solo.”

Mudança climática

“A mudança climática regional pode alterar profundamente os ecossistemas hidrológicos locais. Pode afetar a distribuição das bacias, deslocar os lenções de água subterrânea e causar desertificação em alguns lugares e inundações em outros. A mudança climática global causará, obviamente, as mesmas coisas. Só que em maior escala.”

Águas subterrâneas

“A química das águas subterrâneas está sendo modificada em escala global. As ações humanas já fizeram com que a média de ‘aditivos’ dissolvidos crescesse em 10%, e no caso do sal, do sódio, do cloro e do sulfato, em um terço. Soluções de fertilizantes, herbicidas e pesticidas, produtos químicos tóxicos, orgânicos e inorgânicos, e traços de radioatividade são encontrados em todo o mundo. A situação é pior nos Estados Unidos, principalmente porque lá a indústria química é mais inventiva e a lavoura tornou-se dependente do uso pesado de pesticidas, mas também porque lá praticamente não há nenhum rio que não esteja represado ou aquífero que não seja explorado.”

Substâncias nocivas

“Que os pesticidas e fertilizantes químicos têm o seu próprio pacote de consequências desastrosas é bem sabido. Mas o fato de que a irrigação (o fornecimento de água limpa para as plantas que dela precisam) traz em si um outro conjunto inesperado de dificuldades surgiu como uma surpresa desagradável.”

“Está ficando cada vez mais claro que a salinidade e a crescente concentração de substâncias nocivas na água são o calcanhar de Aquiles da revolução da irrigação, ameaçando enormes áreas de terras antes produtivas. O problema é simples de apontar, mas desalentadoramente difícil de resolver: sem um grande cuidado e um habilidoso manejo, a irrigação, de maneira quase inevitável, causa o encharcamento, o esgotamento e a poluição de água, bem como a elevação da salinidade do solo. Se não for dada a devida atenção a estes problemas, eles podem vir a matar o solo definitivamente.”

Estados Unidos

“Os Estados Unidos são um país que parece ignorar o fato de ser visto por interessados observadores de fora como enérgico, criativo, vulgar, ganancioso e ridículo, além de detentor de um recorde assustador de pilhagem do meio ambiente. Mas nas questões relativas à água, é simultaneamente dissipador e cuidadoso, predatório e econômico, e de espantosa capacidade, quando os americanos se interessam por uma questão.”

“A economia enriqueceu, sem dúvida... As terras que tinham se tornando secas em função do mau uso agrícola e de horríveis abusos foram estabilizadas e salvas dos ventos desertificantes... Os recursos ‘desperdiçados’ – rios e aquíferos – foram colocados em uso produtivo. No entanto, o custo de tudo isso foi uma espoliação tanto do patrimônio natural quanto do futuro econômico. Até agora, foi a natureza que pagou o preço mais alto.”

África

“Em todo o leste africano – na verdade, em toda a África – é normal as pessoas andarem um quilômetro, ou dois, ou seis para procurar água. Nas áreas mais áridas, as pessoas percorrem distâncias ainda maiores, e às vezes, só o que encontram é um tanque lamacento por causa do uso excessivo.”

“Mais de 90% dos africanos ainda cavam a terra em busca de água, e as doenças veiculadas pelo recurso natural, como tifo, disenteria, esquistossomose e cólera, são comuns. Em algumas áreas, os poços estão tão abaixo da superfície da terra que é necessário que as pessoas formem correntes humanas para passar a água.”

Mali e Nigéria

“Em Mali, fiquei em um vilarejo onde uma ONG americana havia instalado uma bomba movida a energia solar e um tanque reservatório galvanizado; ambos estavam funcionando perfeitamente após cinco anos de sua instalação. Na Nigéria, no outro lado da fronteira, uma bomba similar havia quebrado e numa noite uma criança abrira a válvula do tanque e toda a água escorreu, ensopando a terra crestada. A criança foi espancada. Mas já era tarde demais: a água se fora e todos os habitantes do vilarejo se mudaram. Eles nunca voltaram.”