Sob a inspiração de Menin

Com a doação de um triturador pelo Instituto MRV, Tiradentes se torna a primeira cidade da região do Campo das Vertentes a agregar valor à reciclagem de garrafas de vidro descartadas
Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br
Responsabilidade Social
Edição 104 - Publicado em: 19/02/2018

“Sustentabilidade para nós é na prática. Vocês podem contar desde já com a MRV na compra dessa máquina”. A promessa feita pelo diretor do Instituto MRV, Raphael Lafetá – que representou o presidente do Conselho de Administração da construtora, Rubens Menin, anunciado como o “Melhor Empresário” do ano, durante cerimônia da 8a Edição do Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza, ocorrida em outubro–, foi cumprida.

No dia 03 de janeiro último, pouco mais de dois meses depois de ter pedido licença durante a premiação para quebrar o protocolo e anunciar a doação surpresa de um triturador de vidros ao Projeto Tiradentes Lixo Zero – vencedor na categoria “Destaque Municipal” –, Lafetá fez mais.

Acompanhado do gestor executivo de Segurança, Saúde, Meio Ambiente, Qualidade e Sustentabilidade da MRV, José Luiz Esteves, ele foi até a charmosa Tiradentes selar publicamente o compromisso: comemorar a instalação do equipamento, que já está em funcionamento na usina da Cooperativa Tiradentes Recicla, parceira da Associação Tiradentes Lixo Zero, ajudando a transformar a realidade econômica, social e ambiental da cidade, a 192 quilômetros de Belo Horizonte, no Campo das Vertentes.

Logo na chegada ao pátio de estocagem de materiais recicláveis, a “montanha” de vidro à espera de um destino nobre chamou a atenção. Lá estavam cerca de 35 toneladas, recolhidas e acumuladas desde a última edição do tradicional festival de gastronomia da cidade, realizado em agosto do ano passado.

A enorme pilha de garrafas – que sem o trabalho dedicado de uma equipe de oito catadores seguiria diariamente para o insustentável lixão da cidade – vai ganhar, a partir de agora, destinação segura e, sobretudo, mais rentável e sustentável.

Com o triturador, a cooperativa conseguirá agregar valor ao vidro coletado, além de reduzir o volume e também os custos relativos ao seu transporte até uma empresa fabricante de vidros, localizada no interior de São Paulo, para a qual o material passará a ser vendido.

R$ 180 a do âmbar (marrom) e R$ 200 a do branco. Esse é o valor do vidro moído entregue lá na fábrica. Vai melhorar demais a nossa vida. Se eles viessem buscar aqui, descontando o carreto e o combustível, não ia sobrar praticamente nada pra gente”, explica o presidente da cooperativa, Márcio David.

Novos aprendizados

Proprietário da Villa de Antonio, Alysson Cardoso Guimarães visitou a usina pela primeira vez no dia da instalação do triturador. “Fiz questão de vir, porque valorizo e sei a importância do trabalho do pessoal da cooperativa, que coleta o material na minha pousada toda semana. Tenho três funcionários e percebo que, ao fazer a coletiva seletiva, eles se conscientizam mais, passando também a compartilhar os novos aprendizados com suas famílias. Essa troca é valiosa para todos.”

Conselheira da Tiradentes Recicla, Heloísa Edwards lamentou pelo fato de o trabalho das duas entidades não contar com maior apoio da administração municipal, que colabora apenas cedendo o espaço onde funciona a usina e pagando a conta de luz do imóvel. Os catadores atuam em praticamente toda a cidade, coletando material em cerca de 80 estabelecimentos, entre pousadas, hotéis, restaurantes, bares e escolas.

Para Heloísa, a conscientização tanto do poder público quanto dos comerciantes, empresários e da população em geral precisa amadurecer. “Ao permitir a coleta do reciclável em seus estabelecimentos, muitos pensam que já estão fazendo demais pelos catadores. Não. Eles são apenas um elo da cadeia. O desafio é planejar e consolidar tanto a coleta seletiva quanto a reciclagem de forma integrada.”

Para isso, pondera a conselheira, é preciso investir em planejamento, logística, novas tecnologias e treinamento da mão de obra envolvida. “Isoladamente, a coleta e a venda dos materiais não asseguram os salários dos catadores. Desde abril do ano passado, quando a cooperativa foi fundada, foram vários os meses em que eles ficaram sem a complementação mínima de renda, sobrevivendo apenas com o pouco que conseguem com a venda dos recicláveis.”

Uma das metas para este ano, destinada a agilizar e ampliar o alcance do serviço de coleta seletiva na cidade é obter apoio para a compra de um veículo Cargo 200. “É um triciclo com carroceria basculante e bastante econômico em termos de consumo de combustível. Com ele, a equipe deixará de usar o caminhão e poderá circular com mais facilidade e baixíssimo impacto ambiental pelas vielas do centro histórico. Seguimos abertos a novas parcerias e doações”, salienta Heloísa.

Convocação coletiva

A presença do gestor executivo José Luiz Esteves na inauguração reafirmou o cuidado da MRV com a segurança e o bem-estar dos catadores. “Além do maquinário e do treinamento introdutório, também doamos todos os equipamentos de proteção individual necessários, tais como óculos, abafadores de ruídos, luvas, botas e uniformes. Esperamos que, com mais segurança, eles também tenham maior produtividade, gerando melhor renda para suas famílias e contribuindo para uma Tiradentes mais limpa.”

Movido pela mesma emoção demonstrada na cerimônia de entrega do Prêmio Hugo Werneck, Raphael Lafetá contou que o processo de compra do triturador, que totalizou investimentos de R$ 16 mil, foi simples e rápido.

“Estamos extremamente felizes em ver como um equipamento relativamente simples tem grande potencial de transformação para toda a comunidade. Agora, a cooperativa e a associação darão um novo direcionamento – econômico, social e ambiental – ao importante trabalho que já desempenham em prol da cidade.” Determinado a manter viva a parceria com as duas entidades, Lafetá convocou a administração local a também abraçar a causa e unir esforços.

“Todo governante deveria ter a sustentabilidade como uma das bases da gestão pública. O mesmo vale para a população. Uma cidade limpa e ordenada demonstra o seu grau de conscientização e de maturidade em relação ao descarte adequado dos resíduos que gera, em especial daqueles com elevado potencial de reciclagem, como o vidro. Quantos mais conhecerem, entenderem e apoiarem essa causa, melhor para todos”, concluiu.

Equação sustentável e amorosa




Capricho e fé: mesa ornamentada pelos catadores para assinatura do termo de doação, com destaque para o VIII Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza, recebido pelas duas entidades em 2017

Vencedoras do "Prêmio Hugo Werneck 2017", a Tiradentes Lixo Zero e a Tiradentes Recicla reforçam dia a dia sua luta em prol da causa sustentável na charmosa cidade histórica. O município, que comemora 300 anos em 2018, tem característica bastante peculiar. Em razão do elevado fluxo de eventos e de turistas, mesmo tendo pouco mais de 7.500 moradores, produz volume de lixo equivalente ao de uma cidade de 20 mil habitantes.

Apaixonada pela equação que ilustra as logomarcas e norteia o trabalho das duas entidades (Associação Tiradentes Lixo Zero + Cooperativa Tiradentes Recicla = Cidade Limpa e Consciente), a fundadora e presidente da associação é a artista plástica Andréa Dirickson. Mais conhecida como Tancha, ela segue apostando na educação ambiental como mola propulsora de novos comportamentos.

“Fazemos tudo com dedicação e amor. Estamos convencidos de que o diálogo com todos os setores envolvidos e sobretudo as ações de educação ambiental têm de ser permanentes. Um trabalho sério e alimentado diariamente, a cada nova parceria e reconhecimento que conquistamos, como o Prêmio Hugo Werneck.”

Tancha frisa que os catadores merecem ser vistos de forma mais solidária e respeitosa pela sociedade, em razão do importante serviço ambiental que prestam. “O catador não é um pária da sociedade. É uma profissão de valor, uma categoria profissional reconhecida por lei. A maioria dos cooperados é arrimo de família, gente que supera desafios diários na coleta de resíduos e nunca se refere a eles como lixo, porque sabe seu real valor, uma vez que retornam às diferentes cadeias produtivas como novas matérias-primas.”


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