O futuro que revela o passado

Criação em curso de uma RPPN em Morro do Pilar já promove preservação ecológica e histórica na beleza da Serra do Cipó
Fernanda Mann - redacao@souecologico.com.br
As áreas protegidas de Minas-Rio
Edição 104 - Publicado em: 19/02/2018

Criação em curso de uma RPPN em Morro do Pilar já promove preservação ecológica e histórica na beleza da Serra do Cipó

Localizada no município mineiro berço da siderurgia nacional, a Fazenda Volta da Tropa está em vias de ter parte de sua área transformada na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Morro do Pilar. A iniciativa, que integra o projeto de compensação ambiental da Anglo American, tem um objetivo maior: preservar a integridade natural dos campos rupestres ferruginosos que surpreendem e encantam os visitantes.

Com a aquisição da área em agosto de 2016, 112 hectares da Fazenda serão protegidos pela empresa. E, com eles, vários tesouros espeleológicos identificados nas pesquisas realizadas pela Anglo American na região. Trata- -se de cavidades subterrâneas intactas, muitas delas abrigo de comunidades antepassadas, como os índios Botocudos [leia mais a seguir], que habitaram todo o Vale do Rio Doce.

O bioma que guarda esses tesouros ecológicos e históricos (leia-se toda a Serra/Parque Nacional do Cipó) tem fitofisionomia única. Ele é extremamente frágil e de baixa resiliência.

“Isso significa que, uma vez impactado, dificilmente retoma sua estrutura original. Daí sua grande importância em termos de preservação sistêmica”, afirma Josimar Gomes, analista ambiental da empresa.

Ele ressalta que para compensar as áreas onde é realizada a exploração de minério de ferro, a Anglo American busca e preserva territórios próximos e equivalentes àqueles onde a atividade é realizada. “No caso dos campos rupestres ferruginosos, essa grande diversidade é extremamente específica. E, em termos de complexidade vegetal, o município de Morro do Pilar corresponde a uma área de preservação riquíssima”, explica.

Importância histórica

Faustino Souza, ecólogo, técnico agrícola e também analista ambiental da Anglo American, foi um dos primeiros contratados pela empresa para atuar na região. Ele conta que, há nove anos, quando chegou ali, ficou tão impactado com a beleza e a quantidade de florestas fechadas que por um momento imaginou ser impossível que alguém tenha habitado o local.

“Quando foi feita a análise do terreno, descobriu-se que muitos povos antigos habitaram ali. Depois, eles deixaram a área. Mas os vestígios das presenças permaneceram.

As pesquisas arqueológicas apontam que houve ocupações na região desde o período colonial, na época da mineração do ouro e até antes disso”, afirma.

Em Conceição do Mato Dentro, cidadevizinha a Morro do Pilar, a preservada Lapa do Fogão (que recebeu este nome por causa da existência de um primitivo fogão a lenha no local) é um dos sítios arqueológicos de maior relevância do país: apenas lá foram encontradas mais de 44 mil peças e utensílios históricos. As pesquisas apontam que comunidades viveram ali há mais de 10 mil anos, na fase de transição do Pleistoceno ao Holoceno.

Para Faustino, a arqueologia tem um apelo ético, sendo também uma ferramenta preciosa de educação para a preservação ambiental e o turismo. “Imaginar há quanto tempo esse território vem sendo ocupado e descobrir a história e os costumes de pessoas que não tiveram a oportunidade de transmiti-los é uma grande oportunidade de conhecer mais sobre nosso passado. Assim, nós e as gerações futuras saberemos que ali viveram muitos povos de culturas diferentes. Isso promove a consciência e nosso senso de responsabilidade com a natureza e a nossa história”, ressalta.


Presença indígena

A região que abrigará a futura Unidade de Conservação da Anglo American foi significativamente ocupada por grupos indígenas no passado.

Relatos históricos reportam a extensa ocupação por índios Botocudos nas imediações de Conceição do Mato Dentro. Lá, eram reunidos sob a alcunha de “tapuias”. Ou seja, os “bárbaros”, em tupi-guarani.

Esses povos, habitantes do Sertão, eram considerados agressivos pelos invasores portugueses, tendo ocupado todo o Vale do Rio Doce. Economicamente, os Botocudos, assim como os demais povos indígenas à época da invasão bandeirante, dependiam da horticultura e da caça e pesca para sobreviver: plantavam milho, mandioca, amendoim e consumiam carnes de pequenos mamíferos e peixes.

Milhares de anos depois, neste mesmo território onde viviam os Botocudos, passaram naturalistas que cruzaram oceanos para desfrutar das belezas naturais e descobrir/identificar novas espécies da fauna e da flora de nosso país. É o caso do botânico francês August de Saint-Hilaire, que há aproximadamente 200 anos esteve na região. Ele ficou encantado com algumas plantas típicas dos campos rupestres, como a canela-de-ema (Vellozia squamata Pohl), que hoje, infelizmente, encontra-se ameaçada de extinção.


Preservar é preciso

Localizada em área limítrofe do um nicípio de Conceição do Mato Dentro, a parte da Fazenda Volta da Tropa que abrigará a futura RPPN vem sofrendo alguns impactos por conta da proximidade com a zona urbana. O espaço é utilizado frequentemente por moradores e visitantes locais para uso recreativo e turístico. Por isso, a conscientização da população para a necessidade de se preservar o local é constante na região e é uma das preocupações da empresa.

A questão do esgoto lançado no córrego Pilar, que corta a área adquirida, já tem solução à vista. Em novembro de 2017, a Anglo American assinou um protocolo de intenções que prevê a elaboração de um diagnóstico específico sobre o lançamento irregular de efluentes sanitários na calha do córrego Pilar e ações para reversão desse impacto.

O protocolo prevê também a elaboração e a execução de um Programa AUGUST DE SAINT-HILAIRE: ele identificou várias espécies da fauna e da flora na região de Educação Ambiental e Patrimonial específico para o município, com envolvimento do poder público municipal e sociedade civil. Atualmente, a empresa não possui um programa de monitoramento socioeconômico específico para Morro do Pilar. Com a obtenção das licenças Prévia e de Instalação para a Etapa 3 do Minas-Rio no dia 26 de janeiro, a execução das atividades será iniciada em breve.

O próximo passo para manter essa riqueza natural e histórica viva e preservada, logo após transformá-la definitivamente em RPPN, é estruturar de forma efetiva e sustentável o seu uso público. E isso inclui atividades de educação ambiental para promover e viabilizar o cuidado com os recursos naturais da região. A Anglo American também irá alinhar, em conjunto com as comunidades próximas à nova RPPN, como elas poderão se beneficiar dos serviços ambientais oferecidos pela floresta preservada.

E torná-la um local seguro, protegido e sinalizado para ser desfrutado com respeito e amorosidade. Tal como toda a Serra do Cipó e suas belezas naturais, a futura RPPN Morro do Pilar ainda tem muito a nos revelar.

Fique por dentro

Morro do Pilar é o berço da siderurgia no Brasil, com a primeira fusão de ferro-gusa em alto-forno do país. O Intendente Câmara entrou para a história como o construtor do primeiro alto-forno para a produção de ferro na América do Sul. Essa façanha se deu com a implantação da Real Fábrica de Ferro do Morro do Pilar ou de Gaspar Soares, em 1814.

Conforme historiadores, Câmara, que estudou na Universidade de Coimbra, em Portugal, era contemporâneo de José Bonifácio, o Patriarca da Independência.

Quando jovens, eles integraram um grupo que percorreu minerações da Alemanha, Rússia, Suécia, Noruega, Escócia e País de Gales, custeado pelo governo português, para conhecer mais sobre o assunto. A descoberta de ouro motivou a fundação da cidade, por volta de 1701, pelo minerador Gaspar Soares.

Localizada na região central de Minas Gerais, Morro do Pilar tem várias atrações naturais, como a Cachoeira do Tombo, tem 3,3 mil habitantes (IBGE, 2015), 475,6 km2 de área e fica a 151 km da capital mineira. Para mais informações, acesse: www.morrodopilar.mg.gov.br


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