Novas esperanças para o Rio das Velhas

Parceria entre a Fiemg e o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas potencializa esforços em prol da revitalização do mais importante e castigado afluente do Velho Chico em Minas
Bruno Frade - redacao@revistaecologico.com.br
Encarte Especial FIEMG
Edição 104 - Publicado em: 01/04/2019

Esforços em prol da revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, o maior e mais poluído afluente do Rio São Francisco, seguem seu curso em Minas Gerais. A Região Metropolitana de Belo Horizonte ocupa apenas 10% da área territorial da Bacia do Velhas, mas é a principal responsável por sua degradação, devido à elevada densidade demográfica, processos de urbanização e atividades industriais.

Em julho do ano passado, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Velhas) assinaram um termo de compromisso destinado à adoção de ações conjuntas, em parceria com diversas empresas. O objetivo é dar continuidade aos trabalhos de conservação e recuperação da qualidade da água.

Analista ambiental da Gerência de Oliveira lembra que a primeira iniciativa da federação foi a contratação da consultora ambiental Irany Braga. Em parceria com a equipe da Gerência, ela foi a responsável por desenvolver um completo relatório sobre os índices da qualidade das águas na Bacia do Velhas. O levantamento de dados incluiu uma avaliação sobre a atuação das indústrias na bacia, identificando os impactos positivos e negativos, bem como as oportunidades de melhoria da gestão e uso da água.

“Adotamos como base de dados o Água de Minas, programa da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad)”, explica Irany. Por meio dele, é feito o monitoramento da qualidade de todos os cursos d’água do estado, sendo gerados relatórios trimestrais que incluem avaliações precisas em termos, por exemplo, de contaminação por tóxicos, entre outros indicadores. “Ele funciona como uma espécie de termômetro, indicando se o resultado das ações de controle ambiental por parte das indústrias está sendo efetivo”, frisa a consultora.

Problema crônico

Para estimular a conscientização e o engajamento da indústria com a revitalização do Velhas, a Fiemg tem se valido também de programas de destaque, entre eles o “Minas Sustentável”. Criado em 2010, o programa é considerado um divisor de águas para micro, pequenas e médias empresas no que se refere ao tratamento de seus efluentes. Também oferece um amplo mapeamento de impactos ambientais e sociais, consultorias para regularização ambiental e ecoeficiência, além de capacitações e ações educativas. “Percebemos avanços na melhoria de alguns parâmetros na Bacia do Velhas à medida que mais empresas aderem ao ‘Minas Sustentável’. No entanto, dados comprovam que um dos problemas crônicos da Bacia é a ausência do tratamento do esgoto doméstico”, ressalta Irany.

Essa constatação fica clara quando se avalia a qualidade dos efluentes lançados por alguns setores, como a mineração, por exemplo, que graças às tecnologias adotadas e ao controle sistemático dos parâmetros legais exigidos, devolvem aos cursos naturais uma água com qualidade superior àquela encontrada na Bacia. “Na maioria das vezes, a indústria capta água com qualidade bem inferior à que ela própria lança de volta à natureza”, enfatiza Deivid de Oliveira.

Conscientização ambiental

Outro ponto importante, segundo a consultora ambiental, diz respeito à contribuição positiva das indústrias que fazem o tratamento de esgoto e, com isso, ajudam significativamente na melhoria da qualidade da água.

“Ainda assim, há trechos com índices ruins, sobretudo no eixo que começa depois de Sabará e se estende até Santa Luzia. Temos estações de tratamento de esgoto (ETEs) importantes, como a do Onça e a do Arrudas, no entanto, elas ainda operam bem abaixo da sua capacidade: 40% no Arrudas e 50% do Onça.”

Isso acontece porque parte da população não faz a ligação dos esgotos às redes coletoras que levam a essas ETEs, sendo lançados in natura no leito do Velhas. “É preciso desenvolver um amplo trabalho de conscientização ambiental com um público estimado de 40 mil pessoas e também entre os responsáveis por algumas indústrias”, pondera Irany.

A partir da criação do “Minas Sustentável” e graças a ações de fiscalização estadual, houve melhora também em relação ao lançamento de contaminantes tóxicos, tais como zinco, chumbo, cádmio e cobre. Parte do trabalho desenvolvido pela Fiemg prevê, ainda – em atuação conjunta com o CBH Velhas –, iniciativas de conscientização para o tratamento de esgotos gerados por condomínios residenciais ao longo do Velhas. Boa parte deles não trata os efluentes gerados, e a proposta é que haja uma mobilização maior, visando melhorar a qualidade da água na Bacia como um todo.


Maior competitividade

Por meio do “Minas Sustentável”, a Fiemg faz visitas periódicas aos empreendimentos, identificando pontos positivos e negativos da gestão ambiental. Posteriormente, as impressões e dados coletados são enviados à empresa, por meio de um relatório, indicando as providências e adequações necessárias. Para este ano, estão sendo desenvolvidas ações mais específicas, voltadas para a Bacia do Velhas.

“De modo geral, a indústria mineira tem uma gestão eficiente. Ainda assim, procuramos incutir sempre na mente do empresariado a importância e as vantagens de seguirem avançando no aprimoramento de seus processos e no controle ambiental. Afinal, equilibrar desenvolvimento econômico, respeito ao meio ambiente e comprometimento social é um ótimo negócio para as empresas, diminuindo custos e aumentando sua competitividade”, conclui Deivid de Oliveira.

Líder espiritual defende uma nova revolução

A necessidade de uma aliança global pacífica pela conservação e uso consciente dos recursos hídricos foi um dos lemas da palestra do líder espiritual brasileiro Sri Prem Baba, no dia 11 de janeiro, durante o “Águas pela Paz – II Seminário Internacional Água e Transdisciplinaridade”, em São Paulo (SP). O evento faz parte das preparações para o 8º Fórum Mundial da Água, em março, e reuniu cerca de 600 pessoas interessadas em ouvir o recado do idealizador do movimento global Awaken Love.

“Precisamos criar uma nova revolução, mas de consciência. Temos que conseguir superar crenças limitantes que têm nos feito reféns do sofrimento. Precisamos ter coragem de reescrever o nosso destino. Estamos no clímax dessa revolução. Daqui a pouco vamos olhar para trás e não reconhecer esse nosso mundo.”

O líder espiritual destacou que a água tem sido a precursora e a mapeadora da jornada evolutiva do homem. E ressaltou que a sociedade sempre se organizou em torno dos rios, ou seja, das águas. No entanto, segundo ele, o desenvolvimento desordenado tem afastado a sociedade dos recursos hídricos.

“Fomos nos afastando das águas e a grande maioria da população só a conhece da torneira para dentro. Desconhece o percurso da água da fonte até que ela possa chegar em casa e isso criou uma desconexão. Buscamos encontrar soluções apenas técnicas.”

Ele lembrou, ainda, que a água é a causa da vida e deve estar disponível para todos. “Há também aspectos subjetivos que precisam ser considerados na busca por esse objetivo maior. Temos muito que aprender sobre cooperação e compartilhamento. Água enseja o diálogo, a cooperação, a paz. Ela pode, de fato, nos levar a uma nova realidade da geopolítica tendo a negociação, a cooperação e o compartilhamento como base para atender o entendimento ancestral de que a água é para todos.”

Prem Baba também frisou a importância de “plantar” água e fazer renascer as florestas. “Tudo está interligado: proteger nascentes, gerar energia limpa e renovável, cuidar do lixo. A água precisa ser tratada e respeitada como uma entidade viva, como fazem muitos povos antigos, que ainda mantêm a tradição do espírito vivo”, alertou.

Entenda melhor

Com 801 quilômetros de extensão, o Rio das Velhas (foto) nasce em Ouro Preto e deságua no Velho Chico no distrito de Barra do Guaicuí, município mineiro de Várzea da Palma. A população da Bacia é estimada em 4,4 milhões de habitantes.

Ao esgoto doméstico e lixo descartado às margens do Velhas e de seus afluentes também se misturam resíduos de indústrias têxteis, de alimentos e mineradoras, além de óleos, graxas, soluções de baterias energéticas, tintas e produtos químicos provenientes de postos de gasolina, lava-jatos e oficinas mecânicas.

Saiba mais

www.fiemg.com.br

www.cbhvelhas.org.br


Postar comentário