Ao mestre, com carinho

A vida festejada, aos 100 anos de idade, do jornalista e professor José Mendonça, um dos fundadores do curso de Jornalismo da Fafich-UFMG
Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br
Perfil
Edição 104 - Publicado em: 19/02/2018

Como recordam seus ex-alunos Flávio Friche e Manoel Marcos Guimarães, e a historiadora Maria Auxiliadora de Faria, autores do livro “José Mendonça – A Vida Revelada”, hoje acervo da família, ele é a memória viva do bom e saudoso jornalismo que sempre sonhamos.

Foi o que se rememorou no apagar das luzes de 2017. Ao lado de dois outros grandes mestres ainda vivos, críticos e produtivos – Anis José Leão e Adival Coelho, que também integraram a comissão responsável pela criação do curso de Jornalismo na UFMG – Mendonça recebeu seus convidados, parentes e amigos para um almoço de confraternização no Espaço Floricultura,na capital mineira.

Uma recepção digna de nota, como nos velhos tempos, mais cavalheiros, boêmios e românticos: ele chegando, ao som de um bolero, de braços dados com Maria Tereza, sua “companheira e cúmplice de vida” há 60 anos, mais a benção de cinco filhos e treze netos.

Sua carreira profissional começou no jornal “O Diário”, conhecido como “Diário Católico”, em 1938, onde permaneceu até 1965. Foi também correspondente da “Folha de S. Paulo”, chefe de redação e, em seguida, diretor da sucursal mineira de “O Globo”, além de um dos fundadores do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e seu segundo presidente.

Confira aqui alguns dos seus pensamentos e ideias-guias que ilustram a sua trajetória intelectual e humanística sobre a ética, o dever e papel do bom jornalismo. Conheça, igualmente, o lado “latinista emérito” de José Mendonça, assim consagrado pelo fato de ter traduzido, em prosa, o original “A Nogueira”, escrito por Ovídio, décadas antes de Cristo. Provavelmente, o primeiro poema ecológico escrito na história da humanidade, que a Ecológico recorda a seguir.

Boas lembranças do mestre!

l VALOR DA IMPRENSA

“Ernesto Hello escrevia que o valor da imprensa é das poucas coisas em que não pode haver exageros. A imprensa dispõe da sociedade como o vento dispõe duma folha. Por isso é que é tão grande como terrível a sua força. Pode ela multiplicar o pão ou multiplicar os venenos. E, assim, semear a vida ou espalhar a morte.”

“É realmente curioso que o jornalista, sempre pronto a bater-se pelas causas alheias, frequentemente se mostre tão entorpecido na propugnação de suas próprias reivindicações.”

l DEVER DO JORNALISTA

“Sabemos que a liberdade tem seus limites. Uma errada interpretação desse dom de Deus conduz em filosofia ao indiferentismo, em moral à libertinagem, em economia ao capitalismo e ao pauperismo, todas essas coisas ruinosas e contrárias a um sentido humano da vida.”

“Além do cuidado para não propagar o que se crê falso, deve o jornalista tomar precaução para não ser traído pelos enganos da ligeireza e da defeituosa percepção dos assuntos que formam a matéria jornalística.”

l A INFLAÇÃO PARTIDÁRIA

“Não há, efetivamente, quem não reconheça que temos partidos políticos em número excessivo. Ora, essa multiplicidade quase abusiva, entre outros inconvenientes, pode apresentar – para ficarmos no campo estritamente político – o de enfraquecer as próprias instituições. Pois, quando a democracia se divide, o totalitarismo é que se robustece.”

“Mas não será tão cedo que alcançaremos a legislação ideal (...) que ponha fim a essa verdadeira indigestão de legendas de que padece a vida política nacional.”

l O PAPEL DA COMUNICAÇÃO

“Viver em sociedade é comunicar. Se um grupo não troca informações, ideias, emoções, desaparece o liame social: nada mais há de comum entre seus membros. E, por consequência, não há mais comunidade. Cada qual sabe apenas um pouco e tem necessidade do que os outros sabem.

A reunião desses conhecimentos parciais torna possível o acesso a um saber mais geral. E, portanto, mais eficaz. Eis o papel prático da comunicação.”

l MISSÃO DO JORNALISTA

“Do ponto de vista estritamente técnico, o jornalista, educado no culto à liberdade, está na obrigação profissional de dar publicidade a toda notícia comprovada, ainda a mais chocante, que lhe chegue às mãos.”

“Acontece, por outro lado, que lhe ocorre a obrigação moral de prever as consequências sociais da divulgação dos fatos. Balancear os dois elementos antagônicos, sem que sofram nem a liberdade de informação – e informar bem é a missão primacial do jornalista – nem a liberdade de consciência, é uma tarefa dramática, desafio permanente.”

l SEGREDO PROFISSIONAL

“O segredo profissional há de ser, de um lado, reivindicado como incondicional e ilimitado. E, de outra parte, reconhecido pela lei como válido sempre em qualquer circunstância.”

l O QUE É NOTÍCIA

“Notícia é o relato de tudo quanto, por se ter verificado no último instante, é desconhecido pelos que não o viram nem ouviram, e estão interessados em conhecê-lo porque tem significação.”

“Notícia é aquilo que a gente não sabia e fica sabendo.”

l MINEIRIDADE

“Para preservar a autêntica cultura regional, tomada da palavra cultura no abrangente sentido da totalidade do modo de ser dos mineiros, isto é, de suas formas de pensar, sentir e agir, importa conservar ou restaurar o apreço pelas humanidades clássicas.”

l MILTON CAMPOS

“Milton Campos fez um governo intransigentemente honesto e indesviavelmente respeitador das liberdade asseguradas pelo estado de direito.

Foi, assim, o avesso de certos governantes que escolhem colaboradores corruptos e atribuem os próprios desacertos à mídia, de tal modo que até estimariam viesse uma ‘lei da mordaça’ a coibir os pretensos abusos do direito/dever de informar.”

l QUESTÕES MAIORES

“Procure interessar-se pelas questões do mundo, além das da família.”

l ECOLÓGICO

“Não plantei árvores, mas ajudei muito minha mulher a plantar, a cuidar de suas árvores e folhagens.”

l VELHICE

“O pior da velhice é saber que ela dura pouco.”

l SABEDORIA

“Supere perdas. Sinta-se feliz com suas realizações. Seja realista. Tenha consciência do limite da vida. Relativize o bom e o ruim.”

l RECADO FINAL

“Tenha gratidão pela vida. Seja alegre.”

“A Nogueira” de Ovídio

A tradução, em prosa, de “A Nogueira”, de Públio Ovídio Naso, é provavelmente o primeiro poema ecológico escrito pela humanidade antes de Cristo

“Nogueira plantada à beira do caminho, sem culpa alguma sou atacada com pedras pelos transeuntes.

Tal é a pena habitualmente infligida aos malfeitores identificados, porque o ódio popular não aceita justiça tardia.

Quanto a mim, não cometi pecado algum, a menos que se considere pecar oferecer os frutos anuais ao seu dono.

Os frutos teriam então prejudicado a árvore materna, a menos que longa forquilha ajudasse o trabalhador a arrancar os ramos apodrecidos. Por sua vez, em certa época as mulheres imitavam nossa fecundidade, mas não a mulher que então ainda não fosse mãe. Depois, entretanto, que aos plátanos, cuja sombra é estéril, foi tributada honra de certo modo mais

abundantemente do que a qualquer outra árvore, nós também, árvores frutíferas (se é que a nogueira pode de algum modo incluir-se entre elas), começamos a desenvolver com vigor amplas ramagens.

Também não nascem mais frutos todo ano; a uva e a azeitona chegam mirradas ao celeiro. Agora as mulheres, por seu turno, corrompem o germe da própria fecundidade e é rara aquela que deseja ser mãe (...).

Na verdade, não sou invejosa, mas por que foi ferida apenas a árvore cuja inútil ramagem deve ser poupada? Olhai, uma a uma, todas essas árvores incólumes, que nada têm para que sejam atacadas. Quanto a mim, pelo contrário, cruéis feridas danificam os ramos já mutilados e as cascas nuas mostram a cortiça despedaçada.

Não é o ódio que me dá esse tratamento, mas a esperança de pilhagem. Se as outras árvores produzirem frutos como eu, do mesmo modo se queixarão...

Fui, pois, a única árvore atacada porque só a mim valia a pena agredir. As outras verdejam com suas folhas intactas (...). Feliz a árvore que nasce em um campo distante e somente tem de prestar contas ao seu dono! Ela não ouve o vozerio dos transeuntes nem o ranger das rodas, nem é coberta pelo pó do grande caminho, e pode oferecer ao lavrador todos os frutos que carregou e deles prestar-lhe conta exata.

Quanto a mim, nunca me é permitido ver os frutos amadurecidos, pois são abatidos antes do tempo, quando seus invólucros, ainda moles, apenas cobrem o germe leitoso que está dentro deles. Assim, meus frutos não serão de proveito algum para as pessoas que deles me despojarem.

Entretanto, sempre encontro quem me apedreje e, através de golpes prematuros, conquiste uma dádiva inútil. Desse modo, feita a conta dos frutos que me são roubados e dos que me sobram, tu, viajor, terás parte maior do que a do meu senhor (...).

Oh! Quantas vezes me veio o tédio da longa vida e optei por morrer de sede! Quantas vezes desejei ser lançada ao chão por um furacão tenebroso, ou ser atingida pelo violento fogo de um raio vindo do alto. Praza ao céu, sobretudo, que muitas tempestades arrebatem meus galhos de um só golpe, ou que eu mesma possa derrubar meus frutos (...)

Mas o que posso decidir quando o viandante toma suas armas e antecipadamente mira o lugar em que deve golpear-me? Não posso evitar suas varas ferozes mudando de lugar o meu tronco que as raízes, como vínculos possantes e tenazes, mantêm debaixo da terra.

Exponho o corpo aos golpes do viandante, do mesmo modo que um criminoso se expõe às flechas da populaça que reclama que sua vítima seja garroteada, ou como a branca novilha quando vê levantar-se sobre sua cabeça o pesado machado ou o cutelo ser desembainhado em seu pescoço.

Mais de uma vez acreditastes que era só o vento que fazia tremer minhas folhas, mas era o medo a causa do meu tremor. Se o mereci e sou tida como culpada, lançai-me às chamas e queimai meus restos em fornalhas fúmidas.

Se o mereci e sou tida como culpada, derrubai-me com o cutelo e, em minha desdita, tenha eu de sofrer o suplício apenas uma vez. Se, entretanto, não tendes motivo para me queimar nem para me derrubar, poupai-me e prossegui a viagem que começastes.”


Postar comentário