O Recado Hídrico

Em encontro promovido pela Fiemg em Nova Lima, Sebastião Salgado e Lélia Wanick apresentam o programa “Olhos D’Água” aos empresários de Minas e mostram que é possível produzir água plantando árvores
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FIEMG
Edição 102 - Publicado em: 04/12/2017

Em encontro promovido pela Fiemg em Nova Lima, Sebastião Salgado e Lélia Wanick apresentam o programa “Olhos D’Água” aos empresários de Minas e mostram que é possível produzir água plantando árvores

Um lugar com muito verde preservado à beira de um rio recuperado, no coração natural de Nova Lima. Foi nesse cenário, hoje Espaço Nature, que a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) deu mais um passo para levar a contribuição de Minas ao 8º Fórum Mundial das Águas, que será realizado em março de 2018 na capital brasileira.

O encontro com os empresários mineiros, um dia após a cerimônia da 8ª edição do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, foi realizado por meio do “Minas no Caminho das Águas”, iniciativa idealizada pela Fiemg para mobilizar e debater com a sociedade a importância do cuidado com os recursos hídricos.

Para mostrar mais um exemplo desse cuidado, a instituição convidou o fotógrafo Sebastião Salgado e sua esposa, Lélia Wanick, a apresentarem a metodologia e a tecnologia disponíveis no programa “Olhos D’Água”, do Instituto Terra, que vem transformando a região do Vale do Rio Doce, arrasada pela tragédia da mineração em Mariana.

Considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) um dos 70 melhores projetos de conservação de recursos hídricos do planeta, o “Olhos D’Água” atua diretamente na recuperação de nascentes, envolvendo diretamente os proprietários rurais, que se tornam produtores de água. E não apenas consumidores.

Resultado: desde 2012, mais de duas mil nascentes já foram recuperadas no Vale do Rio Doce, por meio do programa que também oferece qualificação profissional a jovens da região. Durante um ano, eles participam de um curso sobre técnicas de reflorestamento no Instituto Terra, em Aimorés (MG). São 30 vagas. Após a conclusão dos estudos, eles assumem o compromisso de ajudar a proteger 150 nascentes, de cada vez.

Confira, a seguir, o recado e o exemplo hídrico de Sebastião e Lélia:

"Podemos recuperar as 370 mil nascentes do rio doce"

Sebastião Salgado (*)

“A razão de estarmos aqui é falar de um projeto maior e exequível que temos hoje para todo o Vale do Rio Doce. O Instituto Terra foi criado por acaso. Recebemos um pedaço de terra e a primeira ideia era transformá-la em um projeto agrícola.

Quando vimos que ela estava inteiramente degradada, optamos por criar uma instituição ambiental. Não éramos, mas recuperá-la nos transformou em ambientalistas.

Criamos um projeto sustentado em algumas variáveis. A primeira foi a comunitária. Para nós, o ponto mais importante é a ideia de uma comunidade maior, começando no nosso município, na nossa sub-região, sub-bacia e depois na bacia hidrográfica.

A segunda foi a solidária. Se não houver solidariedade entre todos os agentes, das pessoas que trabalham no instituto, seus parceiros e a sociedade como um todo, esse projeto não seria realizado.

Outra variável é a ética. Todo o dinheiro angariado para o instituto foi totalmente aplicado nele. Hoje, somos a organização que mais plantou árvores no Brasil. Inclusive, um dos integrantes do nosso Conselho Diretor é a ex-ministra Izabella Teixeira, que é uma profissional do meio ambiente e afirmou sermos uma instituição ligada à parte rural da ecologia.A última variável é a ideológica.

Conseguimos criar, com o instituto, o que deveria ser criado pelo Estado. Somos e agimos como servidores públicos. O que fazemos é um projeto voltado para a população do Vale do Rio Doce.

Depois de recuperar a terra que tínhamos – a Fazenda Bulcão, onde plantamos 2,5 milhões de árvores–, criamos o maior viveiro de plantas nativas de Minas Gerais com capacidade para produzir mais de um milhão de plantas, de 100 espécies nativas por ano.

Temos, ainda, um centro de formação profissionalizante, algo que precisa ser mais estimulado e multiplicado neste país. Vamos para as escolas técnico-agrícolas da região e selecionamos os filhos dos proprietários rurais que fazem cursos secundários nelas e têm maior identificação com meio ambiente.

Eles residem por um ano no Instituto Terra para se especializarem em técnicas de reflorestamento e recuperação de nascentes. Lá, participam de um curso que é 80% prático e saem do instituto, cerca de 95% deles, já empregados.

Tivemos várias propostas de universidades para transformar esses jovens em universitários. Não aceitamos, porque a maioria é do interior e, se conseguirem diploma universitário, não ficarão no campo.

E eles são essenciais lá. São preparados para serem jovens recuperadores de nascentes.

Esperança hídrica

O projeto “Olhos D’Água” começou há cerca de oito anos. Temos três pessoas muito ligadas ao instituto: Eu, a Lélia e o José Armando Campos, que o preside. Todos faze- mos parte do Conselho Diretor e o instituto é gerido como uma empresa.

Somos auditados pela PricewaterhouseCoopers e tudo funciona de maneira transparente. Nesse projeto, concebemos uma iniciativa maior para todo o Vale do Rio Doce, que tem cerca de 370 mil nascentes. Com base na nossa experiência, a nascente de um rio não é s


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