Bacharéis em engenharia



Patrícia Boson *
Espaço Aberto
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

O comportamento mais sensato, e certamente o mais certo, deve ser apenas chorar e orar muito por tantas perdas. A dor das famílias que se despedem de seus entes queridos, de seus sonhos, suas rotinas, seus pertences, não tem mensuração. A indignação de todo um país diante do inconcebível e a dor dos que vivem de perto a tragédia levam a emoções humanas, buscar culpados e penalizá-los. Afinal, se houve um crime, e o cenário é de um, deve haver o castigo.

A cautela não combina com o que as imagens e depoimentos demonstram. Mas, para entender bem as causas e daí apontar com justeza culpados, muitas perguntas precisam de respostas, como:

- O que foi aprendido e aplicado, ou não, pós-Mariana?

- Por que ainda deixamos unidades que reúnem pessoas, como refeitórios e escritórios administrativos, instalados a jusante dessas estruturas que contêm um grau de risco (baixo ou elevado, não importa) de colapsar?

- Quais parâmetros estão sendo avaliados para garantiar a estabilidade dessas barragens, ao ponto de técnicos do bem se sentirem seguros?

- Quais parâmetros não estão incluídos na avaliação e deveriam?

- Como empresas que empregam o que há de mais top na área de segurança podem ser protagonistas de mais um drama ecológico e humano de grandes proporções?

- Como estarão as que não têm mesmo padrão de excelência operacional e de controle?

- O que fazer agora com tantas barragens com as mesmas características físicas ou operacionais?

- O que será de Minas, que tem na atividade da mineração, além do nome, toda uma cultura, história e riquezas decorrentes?

Diante de tantas incógnitas, não me dou o direito, como tantos, de sair atirando pedras. Assim, aproveito esse espaço para propor uma reflexão, que talvez não aplaque a ira, legítima na maioria das vezes, de corações e mentes indignados. Mas pode ajudar na busca de respostas minimamente consistentes, e assim, quem sabe, garantias de que, efetivamente, não tenhamos que viver esse drama novamente.

Título de um artigo que li recentemente a respeito do rompimento da barragem, sobre o qual não consegui identificar o autor, resume bem minhas reflexões: “Excesso de gestão e falta de engenharia”. Leis, normas, comandos e controles e atividades de compliance não são suficientes para entender e solucionar problemas de engenharia. Não só neste caso das barragens, mas em todos os casos que envolvam estruturas, de todos os tipos e funções. Entretanto, nos últimos 20 anos, o país optou por privilegiar as carreiras, funções e profissões normativas e de controle, como se a solução nelas se concentrasse, abandonando todas as demais carreiras, funções e profissões de execução, operação e fiscalização técnica. Aliás, são tantas soluções traduzidas em novas regras e novas normas que possíveis soluções inovadoras de engenharia ou de processos ficam totalmente engessadas, sem qualquer espaço que estimule a engenhosidade e a inovação. Sendo mais precisa, técnicos especialistas, os poucos que sobreviveram e ainda atuam no poder público, que poderiam estar pensando, desenvolvendo e aplicando alternativas tecnológicas para bem exercerem suas funções públicas, embora integrem uma estrutura que em nada os ajuda (que não os paga e finge), ficam ainda acuados, com medo de serem constrangidos, até fisicamente. Para que fique bem entendido, apenas comparem as carreiras (salários, privilégios e acessos) dos órgãos de controle com aquelas dos órgãos executores e operacionais. Simplificadamente, comparemos as carreiras dos que fazem, e, por isso mesmo, sujeitos a falhas, com os que apenas vigiam, cobram.

Essa escolha não se restringe ao poder público, embora nele as consequências negativas, como se vê, sejam piores. Em verdade, a esquizofrenia é geral. A mídia, por exemplo, sobre o colapso da Barragem de Feijão, convida, como “especialistas”, todos os que entendem de processos administrativos relacionados ao tema, normas, regras, punições possíveis, capitalismo, socialismo, humanismo, etc. Raros os engenheiros de barragem, os geólogos, hidrólogos, hidrogeólogos, etc. Precisamente os que realmente podem contribuir para equacionar, pensar tecnicamente sobre a situação problemática, fazer avaliações consistentes e tentar encontrar uma solução.

Se nada mudar, ao fim e ao cabo, além de uma ferida que talvez nunca cicatrize, vamos assistir a fogueira das vaidades de quem faz discursos mais inflamados e condenatórios, de quem propõe e aprova normas ainda mais restritivas, sem qualquer lastro na ciência e na tecnologia, de quem culpa e penaliza mais pessoas, culpadas ou inocentes, não importa. Mas nesse contexto, a instabilidade física das estruturas permanecerão. No Brasil, se há advogados de sobra (quando Deus formou o mundo, para castigo dos infiéis, deu ao Egito gafanhotos e ao Brasil bacharéis) em contrapartida, tem um déficit de 100 mil engenheiros. O problema deveria ser uma das grandes pautas nacionais para discussão, inclusive por esse flagelo brumado que encobre. Mas, infelizmente, não conseguimos sensibilizar para esse olhar urgente de recuperação da engenharia nacional, nem em nossas entidades profissionais, que, tal qual o senso comum, preferem condenar os engenheiros antes mesmo de um processo conclusivo. Triste!

Não poderia deixar de comentar o admirável comportamento do nosso Corpo de Bombeiros, muito bem representado pelo tenente Pedro Aihara. Mesmo não estando em carreira pública glamorosa, privilegiada por salários acima do mercado, e em dia, estão fazendo um serviço público gigante. Louvável também, nunca é tarde, a imediata ação da Vale, no anúncio do descomissionamento de todas as suas barragens de rejeito.

Como sairemos desse assombro aterrorizante, não sei, mas havendo saída, e há, ela está nas mãos da engenharia, não nas dos bacharéis e suas resoluções, portarias e todo cipoal de regras, quase sempre anacrônicas, data venia.

(*) Engenheira civil, ex-secretária-executiva de Empresários para o Meio Ambiente na Fiemg e conselheira da Revista Ecológico.


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