> Notícias

Coral invasor se espalha pela costa brasileira


font_add font_delete printer
Antes biodiversos e multicoloridos, os costões da Ilha dos Búzios se encontram inteiramente rajados de um alaranjado belo e intenso. Há pontos onde não se vê mais outra forma de coral e nem mesmo porção alguma de rocha nua. Foto

Antes biodiversos e multicoloridos, os costões da Ilha dos Búzios se encontram inteiramente rajados de um alaranjado belo e intenso. Há pontos onde não se vê mais outra forma de coral e nem mesmo porção alguma de rocha nua. Foto

Coral-sol ocorre em mais de 3 mil quilômetros, desde Santa Catarina até o Ceará

11/05/2018

Detectado pela primeira vez no Brasil no litoral do Sudeste, no fim dos anos 1980 – quando começaram os trabalhos de prospecção de óleo e gás na Bacia de Campos (RJ) – o coral-sol vem se espalhando pelas ilhas brasileiras com grande velocidade e é considerado um invasor biológico.

“Na região de Ilhabela (SP), os costões submersos da Ilha dos Búzios estão em situação irrecuperável”, diz Marcelo Kitahara, professor no Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador-colaborador no Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP).

Antes biodiversos e multicoloridos, os costões da Ilha dos Búzios se encontram inteiramente rajados de um alaranjado belo e intenso. Há pontos onde não se vê mais outra forma de coral e nem mesmo porção alguma de rocha nua.

“É preciso conter a expansão do coral-sol e evitar que o mesmo ocorra em outras ilhas. Há locais onde o manejo ainda é possível, mas isso requer a retirada manual e completa de todas as colônias”, esclarece Kitahara.

Diversos pontos do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro apresentam sinais de invasão pelo coral-sol. É o caso do Arquipélago dos Alcatrazes, em São Sebastião (SP), área de Refúgio de Vida Silvestre.

“Uma vez instaladas as plântulas, a colônia se multiplica com enorme velocidade. Tentamos entender por que isso acontece”, afirma Kitahara, que coordena um projeto apoiado pela FAPESP com a finalidade de estudar a filogenômica dos corais, suas relações evolutivas e as mudanças climáticas.

Os primeiros resultados que revelaram a surpreendente capacidade de regeneração do coral-sol foram publicados no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology. A primeira autora é a bióloga Bruna Louise Pereira Luz, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente, Bruna está na Austrália para estudar o coral-sol na James Cook University, em Townsville, diante da Grande Barreira de Coral, como parte de seu programa de doutorado orientado por Kitahara.

São sete as espécies que compõem o gênero Tubastraea, todas nativas das águas tropicais dos oceanos Índico e Pacífico. Apenas duas espécies ocorrem no Atlântico Sul Ocidental, as invasoras Tubastraea coccinea e T. tagusensis.

Após os primeiros registros feitos na Bacia de Campos, nos anos 1980, foram avistadas colônias em costões do litoral Sul do Rio de Janeiro nos anos 1990. Desde então, o coral-sol tem sido registrado em mais de 3 mil quilômetros da costa brasileira, desde Santa Catarina, ao sul, até ao largo do Ceará, mais ao norte.

O aparecimento do invasor no exato momento em que começaram os trabalhos de extração de petróleo e gás não é um caso isolado do Rio de Janeiro. No Golfo do México, há vastos campos de extração de petróleo em alto-mar e, desde o início dos anos 2000, também tem sido encontrado no litoral. Há inclusive registros do coral sendo transportado incrustado no casco de navios. “Não podemos afirmar que a exploração de petróleo na Bacia de Campos resultou na invasão do coral-sol em nosso litoral, mas todos os indícios levam a essa conclusão”, disse Kitahara.

“Como não tem algas, não está restrito a locais com luz para a realização de fotossíntese. O coral-sol ocorre geralmente a até 20 metros de profundidade, mas já foi registrado aos 110 metros. Uma vez que os pólipos se estabelecem num costão, criam grande número de colônias, dominando 100% do substrato”, explicou Kitahara.

Ao fazê-lo, tomam o lugar dos corais nativos, devastando as relações ecológicas com a fauna submarina que deles depende ou neles se abriga.

O pesquisador percebeu os primeiros indícios do poder de regeneração do coral durante mergulhos na Ilha dos Búzios. Ele notou algumas colônias com parte do esqueleto quebrado, o que pode ter ocorrido em razão da ação mecânica do mar ou pela mordida de algum peixe. Semanas mais tarde, ao retornar ao local, se surpreendeu ao notar a colônia completamente regenerada.

Os próximos passos do estudo envolvem, do lado molecular, o sequenciamento do genoma. Do ponto de vista ecológico, o grupo pretende investigar os aspectos biológicos da invasão e como ela afeta a fauna marinha nativa.

Na avaliação do pesquisador, o futuro não parece promissor para os corais nativos da costa brasileira. Para o coral-sol, ao contrário, parece brilhante. De um lado, as mudanças climáticas globais e o aquecimento das águas favorecem o invasor, que se regenera melhor em águas mais quentes, enquanto os corais nativos correm o risco de morrer. Além disso, a extração de petróleo nas águas brasileiras tende a se expandir.

 

Fonte: Agência Fapesp


Compartilhe




Outras Notícias