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Atividades humanas já danificaram 75% da superfície terrestre


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Número deve chegar a 90% até 2050, segundo o novo relatório sobre degradação e restauração de áreas degradadas divulgado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) (foto: Dudarev Mikhail / Shutterstock.com)

Número deve chegar a 90% até 2050, segundo o novo relatório sobre degradação e restauração de áreas degradadas divulgado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) (foto: Dudarev Mikhail / Shutterstock.com)

Plantações e pastagens cobrem atualmente mais de um terço da superfície do planeta

03/04/2018

 

Apenas 25% da superfície terrestre permanece livre de impactos substanciais causados por atividades humanas. E o índice deve cair para 10% até 2050, conforme projeções da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

“Apenas algumas regiões nos polos, desertos e as partes mais inacessíveis das florestas tropicais permanecem intactas”, afirmou o sul-africano Robert Scholes, um dos coordenadores do relatório temático sobre ‘Degradação e Restauração de Terras Degradadas’, divulgado pela IPBES, em Medellín, na Colômbia.

O documento na íntegra e um sumário para tomadores de decisão foram aprovados pelos 129 países-membros da entidade, durante a 6a Reunião Plenária, realizada de 17 a 24 de março.

Segundo o texto, até 2014, mais de 1,5 bilhão de hectares de ecossistemas naturais foram convertidos em áreas agrícolas. Plantações e pastagens cobrem atualmente mais de um terço da superfície do planeta. “Os processos mais recentes de desmatamento estão ocorrendo nas regiões do globo mais ricas em biodiversidade”, afirmaram os autores do estudo.

De acordo com Scholes, pode ser definido como degradação o processo que leva um ecossistema terrestre ou aquático a sofrer um declínio persistente das funções ecossistêmicas e da biodiversidade. “É quando uma determinada região tem sua capacidade de sustentar a vida – humana ou não – persistentemente reduzida”, explicou.

A expansão não sustentável de áreas dedicadas à agricultura e à pecuária é apontada no relatório como uma das principais causas do problema – que tende a se agravar com a demanda crescente por comida e biocombustíveis. Segundo os autores, o uso de pesticidas e fertilizantes deve dobrar até 2050.

“Esses produtos químicos em excesso contaminam não apenas o solo como também os sistemas aquáticos, afetando assim a zona costeira. Já temos centenas de áreas mortas em regiões como o Golfo do México e isso ocorre por causa da forma que manejamos a terra. Portanto, esta também é uma questão de segurança hídrica e de preservação da costa”, disse Robert Watson, presidente da IPBES.

Outro fator que tem contribuído para a degradação de ecossistemas, de acordo com os cientistas da IPBES, é o estilo de vida de alto consumo dos países desenvolvidos – bem como o consumo crescente observado nos países em desenvolvimento.

O combate ao problema, afirmam, deve necessariamente incluir a adoção de uma dieta mais sustentável, com menos produtos de origem animal e maior preocupação com os métodos usados na produção dos alimentos e demais produtos consumidos.

“Não estamos dizendo para as pessoas pararem de comer carne, mas para se preocuparem com o modo com que ela é produzida. E, acima de tudo, acabar com o desperdício de comida. Hoje, entre 35% e 40% do que é produzido nos países desenvolvidos não é aproveitado”, disse Watson.

Para Scholes, o Brasil está em uma posição favorável para lidar com essas questões por ter fortalecido, ao longo dos últimos anos, sua capacidade de fazer pesquisas científicas e por ter especialistas capazes de orientar soluções.

“Há um clamor político pelo fim do desmatamento e da destruição de áreas alagáveis. Temos uma oportunidade de começar a fazer as coisas de um jeito melhor. Há espaço no mercado para isso. As pessoas cada se questionar cada vez mais se os produtos que compram do Brasil são bons ou ruins [do ponto de vista ambiental]”, disse Scholes.

Watson reconhece que a produção de biocombustíveis, soja e carne é hoje a base da economia brasileira e afirma ser valiosa para muitos outros países. “O desafio é produzir esses bens de maneira mais sustentável. Avançar em direção das boas práticas. Há um jeito mais eficaz de fazer isso e seria uma grande contribuição do Brasil.”

Três faces do mesmo problema

* De acordo com o relatório da IPBES, os processos de degradação da terra já comprometem o bem-estar de dois quintos da humanidade – 3,2 bilhões de pessoas. Isso tem sido uma das principais causas de migração humana – o que, por sua vez, está relacionado à intensificação de conflitos entre povos e ao empobrecimento de populações.

* Para os autores do relatório, processos de degradação, perda de biodiversidade e mudanças climáticas são três faces de um mesmo problema – um fator intensifica o outro e não pode ser combatido isoladamente.

* Os processos de degradação contribuem fortemente para a mudança climática, tanto pelas emissões de gases de efeito estufa resultantes do desmatamento, como pela liberação do carbono anteriormente armazenado no solo. Foram liberadas 4,4 bilhões de toneladas de CO2 somente entre os anos de 2000 e 2009.

* A restauração de áreas agrícolas degradadas pode significar devolver ao solo sua qualidade original – bem como promover a integração de culturas agrícolas, criação de animais e silvicultura.

* A solução do problema requer a integração das agendas agrícola, florestal, energética, hídrica e de infraestrutura e serviços. Isso, por sua vez, necessita de políticas coordenadas entre os diferentes ministérios para, simultaneamente, incentivar práticas mais sustentáveis de produção e de consumo de commodities.

O caso brasileiro

De acordo com Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa BIOTA-FAPESP e da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), a degradação está presente em todos os biomas e regiões brasileiras. É mais intensa, porém, em áreas onde a ocupação humana é mais antiga, como é o caso da Mata Atlântica.

Segundo dados do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Brasil tem 200 milhões de hectares de áreas degradadas. Exemplos bem-sucedidos de restauração também estão presentes no país, ressaltou Joly.

“A restauração da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, foi ordenada por D. Pedro II por recomendação do Conselheiro José Bonifácio de Andrada e Silva, para recuperar e proteger as nascentes que abasteciam a cidade. O imperador mandou desapropriar terras de fazendeiros e de nobres, nas encostas do maciço que divide a cidade ao meio, para recompor a área que, já no século 19, estava quase totalmente ocupada por fazendas, pastos e lavouras de café. Poucos turistas que visitam o Parque Nacional da Tijuca sabem que estão caminhando em uma área restaurada”, disse Joly.
 

Fonte: Agência Fapesp


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