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Caatinga pode ganhar mosaico de unidades de conservação


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O Boqueirão da Onça é uma região com os últimos remanescentes em área contínua do bioma Caatinga, que pode se tornar um mosaico de unidades de conservação, na região do semiárido, ao norte do Estado da Bahia. Foto: Rogério Cunha

O Boqueirão da Onça é uma região com os últimos remanescentes em área contínua do bioma Caatinga, que pode se tornar um mosaico de unidades de conservação, na região do semiárido, ao norte do Estado da Bahia. Foto: Rogério Cunha

Proposta enviada à Presidência da República prevê a proteção da região do semiárido, ao norte do Estado da Bahia


05/03/2018

 

Já está na Casa Civil da Presidência da República a proposta do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de transformar cerca de 850 mil hectares com os últimos remanescentes em área contínua do bioma Caatinga em um mosaico de unidades de conservação.

O foco é proteger a região do semiárido, ao norte do Estado da Bahia, abrangendo os municípios de Sento Sé, Campo Formoso, Sobradinho, Juazeiro e Umburanas.

A proposta apresentada para a região conhecida como ‘Boqueirão da Onça’ combina um Parque Nacional, com 345, 3 mil hectares para proteção integral da biodiversidade, e uma Área de Proteção Ambiental (APA), com 505,6 mil hectares, que permite o uso sustentável dos recursos naturais.  

Há 16 anos, quando começaram as discussões sobre a necessidade de se conservar a região, a ideia era proteger integralmente os quase 900 mil hectares do Boqueirão, que é como se denomina essa extensa área do sertão da Bahia caracterizada por desfiladeiros, cavernas e ecossistemas que abrigam riquíssima biodiversidade, pinturas rupestres milenares e populações tradicionais.

Ao longo dos últimos anos, houve uma redução gradativa do tamanho da área de proteção integral e aumento da área de uso sustentável.

“Uma vez criadas as novas áreas protegidas, será importante envolver as empresas de geração de energia eólica no trabalho de conservação, o que inclui iniciativas de desenvolvimento regional com inclusão das populações tradicionais e mitigação dos impactos dos empreendimentos, tais como a recuperação da vegetação nativa e apoio à conservação das espécies”, ressalta Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil.

Para o especialista, apesar da diminuição na área de proteção integral, com importantes ecossistemas deixados fora do parque, qualquer iniciativa de conservação na Caatinga é bem-vinda, já que o bioma tem apenas cerca de 2% de sua área sob regime de proteção.

Mesmo com grau de proteção menor, a futura APA – que compõe a maior parte do mosaico – poderá ter áreas de uso restrito no plano de manejo e abrigar projetos de ecoturismo, pesquisa e uso sustentável dos recursos naturais.

Biodiversidade, água e tradição

No Boqueirão, encontram-se várias espécies ameaçadas de extinção. Entre os representantes da fauna estão o tamanduá-bandeira, o tatu-bola, o gato-mourisco e o gato-do-mato. Maior felino das Américas, a onça-pintada tem na região um de seus principais refúgios em área natural.

A espécie já perdeu 55% da área de sua distribuição original e, atualmente, a maior parte de suas subpopulações está ameaçada de extinção. No Brasil, a onça-pintada está criticamente ameaçada na Caatinga e na Mata Atlântica.

Entre as aves em risco de extinção que habitam aquele trecho do sertão baiano, estão a arara-azul-de-lear e o jacu-estalo, além de uma variedade de aves que, embora não estejam ameaçadas, encontram refúgio na Caatinga. Répteis, anfíbios e insetos – ainda por serem estudados – completam o quadro da fauna selvagem da região.

A flora nativa não é menos diversa.  “Trata-se da última grande área selvagem de todas as caatingas do Nordeste brasileiro”, destaca o pesquisador José Alves Siqueira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro Flora das Caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação.

Segurança hídrica

O Boqueirão também tem papel chave na segurança hídrica na região. Importantes nascentes localizadas em seus planos mais altos irrigam o solo seco do sertão, garantindo condições de vida para comunidades urbanas e rurais. Algumas dessas nascentes, foram incluídas nos limites do futuro parque nacional.

A região também tem forte traço de ocupação pelas populações tradicionais. Inscrições rupestres em vários sítios localizados no Boqueirão indicam que a presença humana ali pode remontar a milhares de anos. No entanto, faltam datações para esses registros, provavelmente paleolíticos, como os que se encontram no Parque Nacional da Capivara, no Piauí.

A região é ocupada de modo tradicional por quilombolas e comunidades de fundo de pasto. Tais grupos situam-se no que será a futura Área de Proteção Ambiental. Segundo o MMA, a presença das populações tradicionais foi determinante na elaboração do desenho do mosaico, resguardando potencialidades que poderão ser incorporados em um processo de desenvolvimento local, como o ecoturismo.
 

Fonte: WWF


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