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Descoberta nova família de peixes amazônicos


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Com aparência de enguia, mas filogeneticamente próxima da traíra, Tarumania vive submersa em poços de folhas. Exemplar usado na descrição foi encontrado no período da seca na Amazônia. Foto: Divulgação

Com aparência de enguia, mas filogeneticamente próxima da traíra, Tarumania vive submersa em poços de folhas. Exemplar usado na descrição foi encontrado no período da seca na Amazônia. Foto: Divulgação

Tarumaniidae é a primeira de uma família de peixes sul-americanos a ser descrita em mais de 40 anos


06/02/2018

Um peixe fino e comprido, com um corpo que lembra vagamente o de uma enguia, porém mais curto, como se estivesse sem a parte traseira. Acrescente dois pares de nadadeiras ventrais, uma nadadeira dorsal e uma cauda delicada e transparente, como aquela dos peixinhos de aquário. Agora, reduza essa imagem fazendo-a caber na palma da sua mão.

O peixe em questão tem cerca de 10 centímetros. Seu nome é Tarumania, e sua aparência em nada lembra a de piranhas ou lambaris, parentes seus que habitam os rios das bacias hidrográficas sul-americanas.

Ele só foi visto por um punhado de ictiólogos brasileiros, os biólogos que estudam peixes. Tarumania walkerae é a única espécie de uma nova família que acaba de ser descrita. Isso mesmo, uma nova família de peixes, Tarumaniidae.

Espécies novas de peixes amazônicos são descritas todos os meses, por vezes duas ou três. Um novo gênero surge algumas vezes ao ano. Mas a descrição de uma nova família inteira de peixes é algo surpreendente e bem menos frequente.

Apenas cinco novas famílias de peixes foram descobertas nos últimos 50 anos. Dessas, apenas uma é da América do Sul (Scoloplacidae, descrita em 1976). A descrição de Tarumaniidae é, portanto, a primeira de uma família de peixes sul-americanos em mais de 40 anos.

“Por que levou tanto tempo para ele ser descoberto? Há biólogos coletando naquela região há muito tempo”, informou o ictiólogo Mario Cesar Cardoso de Pinna, professor titular no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Nos idos de 1850, o naturalista britânico Alfred Russell Wallace (1823-1913) já havia coletado peixes no Rio Negro.

“Ele vive escondido. A espécie nunca foi coletada com rede, pela razão óbvia de que não habita as águas abertas do rio, mas passa a vida inteiramente submersa nos poços de folhas, e bem fundo, entre 1 a 2 metros abaixo da superfície, podendo na época da cheia estar coberta por 6 a 7 metros de coluna d’água”, explicou.

De Pinna e seus colegas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Jansen Zuanon e Lucia Py-Daniel, são autores da descrição da nova família Tarumaniidae, que pertence à ordem dos Caraciformes, grupo com mais de 2 mil espécies, entre eles piranhas, pacus, lambaris e traíras, e distribuído entre a América do Sul e a África.

Exemplares coletados

O primeiro exemplar de Tarumania, um indivíduo jovem, foi coletado em 1999, no igarapé Tarumã-Mirim, pela bióloga suíça Ilse Walker, pesquisadora do Inpa desde 1976. Walker doou o exemplar à coleção de peixes do instituto em 1999.

Ela não se recordava com exatidão em quais condições aquele peixinho havia sido coletado. O exemplar era obviamente diferente de tudo o que os ictiólogos do Inpa conheciam, mas faltavam elementos para descrever a espécie. Para tanto, era necessário um indivíduo adulto.

O mistério sobre o local onde se encontrariam outros espécimes durou até 2006, quando finalmente descobriu-se aonde o peixinho se escondia. Zuanon coletou um exemplar adulto em uma piscina cheia de folhas nas margens do Tarumã-Mirim. Era período de seca na Amazônia e a poça se encontrava no meio da mata, a centenas de metros do igarapé – durante a época da cheia, toda aquela área permanece inundada.

“Tarumania é uma descoberta rara e muito instigante. Trata-se de uma espécie extraordinária, sob diversos sentidos. O ambiente em que vive, por exemplo, é inusitado”, disse De Pinna.

O peixe vive em um ambiente de água intersticial, coberto por metros e metros de folhas e material em decomposição. Na cheia, esse tapete encharcado tem muitos metros de profundidade. Na seca, a água é absorvida pelo subsolo ou então evapora, de modo que a porção encharcada onde vive o peixe acaba reduzida a uns 2 metros.

Diversas outras coletas foram feitas em 2010 e 2016. “Para propor uma família nova, você precisa demonstrar que ela é filogeneticamente equivalente a outros grupos de peixes”, disse De Pinna.

Agora que se sabe que a espécie habita piscinas de folhas nas margens do Tarumã, tal ambiente passará a fazer parte dos locais de coletas dos ictiólogos que trabalham na Amazônia.

“É praticamente certo que a família dos tarumanídeos vai crescer. A descoberta de uma espécie tão distinta, em local de relativamente fácil acesso, é uma indicação do quanto ainda temos a aprender sobre a diversidade de peixes no Brasil”, ressaltou De Pinna.
 

Fonte: Agência Fapesp


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