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Monitoramento inédito, via satélite, gera informações sobre botos da Amazônia


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O Inia geoffrensis é um dos mais famosos animais da Amazônia - mas ainda existem muitas lacunas de conhecimento sobre esta espécie. Foto:Federico Mosquera/ Fundación Omacha

O Inia geoffrensis é um dos mais famosos animais da Amazônia - mas ainda existem muitas lacunas de conhecimento sobre esta espécie. Foto:Federico Mosquera/ Fundación Omacha

Serão mapeados trajetos feitos pelos animais e coletadas informações sobre perfil genético e alimentar


05/12/2017

O WWF, em parceria com instituições da América do Sul, está realizando uma iniciativa inédita: pela primeira vez, organizações governamentais e da sociedade civil estão monitorando, via satélite, populações de botos nos rios da Amazônia no Brasil, Bolívia e Colômbia.

O monitoramento é feito por meio de tags: pequenos aparelhos instalados nos animais, parecidos com “piercings”, que enviam informações sobre o seu posicionamento várias vezes ao dia.

Assim, será possível obter dados sobre padrões de distribuição dessas populações e desenvolver trabalhos de conservação mais eficientes das espécies e do ecossistema onde vivem.

A instalação dos aparelhos foi feita em expedições de campo que envolveram dezenas de profissionais nos três países sulamericanos: Brasil, Colômbia e Bolívia.

Também foram coletadas diversas amostras biológicas dos botos, que estão sendo analisadas em laboratórios. Essa coleta de informações adicionais possibilitará a geração de conhecimento mais aprofundado e detalhado sobre a saúde dos animais.

Protocolo

Foram retiradas ainda amostras de sangue, de material genético e excreções nasais e orais. Os botos passaram por biometria, com verificação de medidas e peso. Os pesquisadores vão avaliar, entre outros parâmetros, níveis de mercúrio nos botos capturados, pois existe a possibilidade de essas populações de animais estarem contaminadas pelo descarte indevido de mercúrio, como consequência do garimpo presente em toda a Amazônia.

Até o momento, 11 animais estão sendo monitorados nas bacias dos rios Tapajós, no Brasil; Marañon, entre Colômbia e Peru; e na região do Rio Madeira, entre Bolívia e Brasil. Eles são das espécies Inia geoffrensis e Inia boliviensis – dois dos quatro tipos de botos existentes na Amazônia.

A captura dos animais e instalação dos tags foi feita de maneira padronizada e obedecendo a um rígido protocolo elaborado por especialistas para conciliar a coleta dos dados científicos, a instalação dos equipamentos e o bem-estar dos animais.

A cientista Miriam Marmontel, líder do grupo de pesquisa em mamíferos aquáticos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) – uma das instituições participantes do projeto, destacou o ineditismo do trabalho.

“É a primeira vez que uma pesquisa desse tipo é feita na Amazônia. Queremos ter uma ideia geral da saúde desses animais, de seus padrões de deslocamento e verificar como esses grupos de botos serão impactados pela proximidade das hidrelétricas que estão previstas para esta região.”

Apesar de ser considerada uma fonte limpa de geração de energia, as barragens acabam com a conectividade dos rios. Segundo os pesquisadores, isso gera impactos bastante preocupantes à biodiversidade.

O especialista de Conservação do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira, ressalta que a ideia é também testar os tags como uma nova tecnologia de monitoramento de botos, verificando sua eficiência e confiabilidade para este tipo de trabalho. “Se o monitoramento inicial funcionar, nosso objetivo é dar escala a essa iniciativa.”

O pesquisador colombiano Fernando Trujillo, da Fundación Omacha, lembra que os botos são uma espécie ameaçada. “Nós, que vivemos aqui, sabemos que os problemas ambientais só aumentam e os danos aos ecossistemas são cada vez maiores. Com esse trabalho do tagueamento, queremos gerar mais informações e possibilitar que os tomadores de decisão orientem ações e recursos para proteger esses animais e os habitats em que vivem.”

Entre as instituições que colaboram com o projeto estão a Pro Delphinus (Peru), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio, Brasil) e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM).

 

Sobre os botos

Apesar de serem animais famosos e um símbolo da Amazônia, há poucos estudos com informações científicas consolidadas sobre os botos. Por isso, essa pesquisa pioneira de monitoramento é tão importante.

Com os resultados dela será possível também posicionar o boto globalmente em uma categoria de conservação mais adequada do que a atual.

Hoje, conforme a Lista Vermelha da The International Union for Conservation of Nature (IUCN), que cataloga o status de conservação de diversos animais, os botos amazônicos estão na categoria de “dados insuficientes”.

A ideia é obter mais dados e conseguir mover essas espécies para uma categoria que expresse realmente a sua situação atual. As ameaças aos hábitats e à sobrevivência dos animais têm aumentado por todo o bioma.

Algumas dessas ameaças são projetos de infraestrutura, como hidrelétricas; a contaminação das águas dos rios amazônicos por mercúrio vindo de garimpos; e a captura causada pela demanda de iscas para a pesca da piracatinga (Calophysus macropterus).

Das sete espécies de botos de água doce do planeta, a Amazônia agrega a maior população. Com isso, está nas mãos dos países amazônicos a responsabilidade de evitar que eles sejam extintos, como já aconteceu com o boto baiji (Lipotes vexillifer), no Rio Yangtze, na China, declarado extinto em 2007.
 

Fonte: WWF


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