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Áreas protegidas: mudar mentalidade e garantir o futuro


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Parque Nacional do Juruena. Foto: Adriano Gambarin /WWF-Brasil

Parque Nacional do Juruena. Foto: Adriano Gambarin /WWF-Brasil

Por Maurício Voivodic - diretor-executivo do WWF-Brasil

 

08/08/2017 

Cientistas do mundo todo estão fazendo um alerta. O último dia 2 de agosto marcou o dia em que a humanidade consumiu mais recursos naturais do que a Terra é capaz de repor em um período de doze meses - o Dia da Sobrecarga da Terra.

Em 2016, a Terra entrou ‘neste cheque especial’ no dia 8 de agosto. Em 2000, foi no dia 5 de outubro. Essa antecipação comprova que o uso dos recursos do planeta é maior a cada ano, de forma descontrolada.

As pesquisas indicam que as ações humanas já causaram a redução de mais da metade (58%) das populações de vida silvestre desde 1970. Caminhamos a passos largos para a sexta extinção em massa dos seres vivos – a última delas, há mais ou menos 65 milhões de anos, fez desparecer da face da Terra os dinossauros.  Atualmente, nos trópicos, o ritmo dessa perda é ainda mais acelerado.

Até o ano 2000, 48,5% do habitat de florestas tropicais e subtropicais foram convertidos para o uso humano, segundo dados do Living Planet Report. Considere que as florestas tropicais estão entre os ecossistemas mais ricos do planeta, e que sofreram a maior perda em termos de área.

Vai-se a floresta e com ela se vão todos os serviços ambientais de que a humanidade depende: água, equilíbrio climático, oferta de alimentos, medicamentos, abrigo. Estamos colocando o nosso futuro em risco.

Ingressamos em uma nova época geológica, o Antropoceno, em que os seres humanos, mais do que forças naturais, representam hoje o principal fator de mudança na paisagem do planeta. A notícia boa é que podemos também redefinir essa nossa relação com a Terra.

 

Uso sustentável – A chave é sair de uma postura predatória adotada contra o planeta e seguirmos um padrão de uso dos recursos naturais sustentável. Isso quer dizer, na prática, que precisamos usar o que a Terra nos oferece dentro da capacidade natural de reposição dos ecossistemas, além de parar imediatamente de destruir a biodiversidade. Somente assim as gerações futuras também poderão usufruir de toda essa riqueza.

Temos de cruzar a ponte e fazer a transição para um modo de vida que relacione o desenvolvimento humano com a conservação da natureza. Trata-se de um novo pacto civilizatório. E esse pacto supõe, necessariamente, a criação e a manutenção de uma rede de áreas protegidas em escala global.

Ao garantir a existência de áreas voltadas exclusivamente à conservação da biodiversidade e seus serviços ambientais, e ao uso sustentável dos recursos naturais, estamos assegurando as condições essenciais de sobrevivência da vida na Terra.

Vejamos o caso do Brasil.

O país tem hoje cerca de 17% do seu território em unidades de conservação (UCs). Estamos falando de parques nacionais, reservas extrativistas, estações ecológicas e florestas públicas. A maior parte da energia elétrica consumida hoje no país vem de rios que nascem ou passam pelas UCs. 

Um terço da água que abastece a todos nós parte dessas unidades. Elas ajudam a controlar o microclima das cidades, a qualidade do ar que respiramos e previnem desastres associados a eventos climáticos extremos, como deslizamentos de terra, enchentes e grandes incêndios florestais.

Sem contar que o Brasil, como um dos maiores produtores de alimento do mundo, depende da regulação do clima, da disponibilidade de água, do combate às pragas e da polinização promovidos pela existência das áreas protegidas.

Diante disso, criar e consolidar a proteção das florestas é um dos diferenciais que o país tem como alicerce para uma nova economia, pautada no desenvolvimento de tecnologias e capacidades que valorizem seu patrimônio natural – uma nova revolução industrial que só está começando.

 

Garantia de futuro

Até 2010, o Brasil foi campeão mundial de criação de unidades de conservação, aumentando significativamente a área sob proteção na Amazônia. Esse fato ajudou a atrair para o país recursos de diversos países para a conservação ambiental, o que mostra que a existência dessas áreas criar fluxos financeiros para manter a biodiversidade.

O Programa ARPA (Áreas Protegidas da Amazônia) tornou-se nos últimos 15 anos o maior programa de conservação de florestas tropicais do mundo. Com investimentos internacionais na ordem de 250 milhões de dólares – a serem combinados com o orçamento público –, o programa investe em boa gestão de cerca de 114 Unidades de Conservação na Amazônia, totalizando quase 60 milhões de hectares.

No entanto, nos últimos anos, unidades de conservação no Brasil passaram a ser ameaçadas por dois principais fatores: a redução de orçamento para sua gestão e a contestação dos limites desses territórios protegidos por setores ligados à mineração, energia e agropecuária.

De acordo com o recente dossiê publicado pelo WWF-Brasil, em maio de 2017, cerca de 10% do território dessas unidades de conservação corriam o risco de serem extintos por pressão desses setores com apoio explícito do Congresso Nacional.

Atrelar o destino das áreas protegidas brasileiras a este cenário de ameaça é condenar o país a um futuro de degradação ambiental e social.

As áreas protegidas são nossa maior contribuição para conter a perda de biodiversidade no mundo e a garantia de sobrevivência da nossa espécie.

 

Fonte: Museu do Amanhã


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