Segunda, 21 de março de 2016

A extinção que ameaça o berço

Confira a entrevista com Altair Sales Barbosa, antropólogo e doutor em Arqueologia Pré-Histórica

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Altair Sales:

Altair Sales: "A extinção do berço das águas, como conhecemos o Cerrado, irá agravar a crise hídrica até à parte central da América Latina" - Imagem: Wagmar Alves/DICOM-PUC Goiás

Para quem acha que água saindo da torneira é sinal de infinitude, é melhor rever seus valores, porque a realidade e o futuro são desanimadores. A crise hídrica é um fantasma que veio para ficar. E será cada vez mais grave caso ecossistemas como o Cerrado, que abrigam grandes bacias hidrográficas no país, entrem em colapso. É o que diz o antropólogo e doutor em Arqueologia Pré-Histórica pelo Smithsonian Institution National Museum Of Natural History (EUA), Altair Sales Barbosa.

Nesta entrevista concedida à Ecológico, ele alerta que qualquer dano feito ao bioma, como desmatamento para plantação de monoculturas, é irreversível e tem impacto direto na absorção de água pelos lençóis freáticos que alimentam os rios. Também denuncia as grandes empresas multinacionais que se apossaram das águas. E aponta que a privatização do recurso natural já está acontecendo.

Sales, que é fundador do institutos Goiano de Pré-História e Trópico Subúmido em Goiânia (GO), não é um pessimista. O que ele nos mostra é a realidade cientificamente provada de que a revitalização completa do bioma já não é mais possível. E que os efeitos da degradação ambiental que todos nós permitimos poderão ser uma conta a ser paga com mais racionamento, desemprego, epidemias e miséria num futuro próximo. Confira:

Por que uma mudança de atitude em relação à preservação da água é tão difícil de acontecer?

O homem atual é o resultado de dois processos evolutivos que se sobrepuseram ao longo do tempo: o biológico, que compartilha com os demais seres vivos e que fundamentalmente consiste na transferência de adaptações biológicas, que facilitam a sobrevivência e a seleção das espécies; e o cultural, resultado dos avanços tecnológicos logrados pela espécie humana em sua evolução biológica. A evolução cultural tem significado, por um lado, a organização do homem em grupos sociais que tem gerado problemas demográficos, de saúde, educação, institucionais etc. E, por outro lado, agregou o fluxo do dinheiro como resultado dos intercâmbios e das transações, gerando assim uma série de variáveis econômicas relacionadas com produção, capital, trabalho, comércio, indústria, consumo, níveis de preços, maximização de ganho... A aplicação das diversas tecnologias sobre as biogeoestruturas naturais não só originou diversas manufaturas como também criou uma grande quantidade de ecossistemas artificiais: cidades, metrópoles, campos de cultivo, pastagens artificiais, represas, canais de regadio, rodovias, vias férreas, aeroportos, grandes usinas, complexos atômicos, etc. E, para tudo isso funcionar, água é fundamental.

 

Mas não é infinita.

Exato. O fato é que hoje temos conhecimento suficiente para afirmar que a água é um recurso finito, que em breve vai faltar em várias partes do mundo, que os aquíferos que sustentam os rios estão na base mínima de suas reservas e que com a retirada da vegetação nativa a recarga desses aquíferos se torna impossível. Sabemos que precisamos de água em nossas casas para a produção de alimentos e de energia, para a indústria, mas também sabemos que sem saneamento a água, que é fonte da vida, se transforma num veneno letal.

 

Qual a avaliação que o senhor faz da crise hídrica que vem assolando o Brasil?

A tecnologia, que possibilitou ao homem sair do seu planeta e fincar bandeirolas em outros rincões do Sistema Solar, trouxe também o consumismo voraz como modelo de desenvolvimento e progresso. E, em nome deste, uma pequena parcela da humanidade moderna, de posse dessa alta tecnologia, é representada por grandes empresas multinacionais desvinculadas dos estados. E, por isso, sem responsabilidade social e moral, se apossaram das águas modernas, poluindo os rios, construindo represas, desviando e transpondo os cursos dos corpos d’água, sem levar em consideração as histórias evolutivas particulares de cada lugar.

 

A privatização das águas será então um caminho sem volta?

Os donos do mundo já estão falando em privatização das águas, ou seja, querem considerá-la apenas um bem comercial, em contraposição aos que a veem como patrimônio da humanidade e que, por isso, deve ser preservada e não privatizada. E muito menos transplantada. Agindo dessa forma, os grupos poderosos, que em nome de um falso progresso já desestruturaram o território, orquestram agora o controle do planeta pela privatização da água.

 

A crise hídrica é uma confirmação de que o Cerrado está em vias de extinção?

Sim. O Sistema Biogeográfico do Cerrado, que ocupa desde a aurora do Cenozóico à parte central da América do Sul, também é conhecido como o “berço das águas” ou a “cumeeira” do continente, porque é distribuidor das águas que alimentam as grandes bacias hidrográficas da América do Sul. Isso ocorre porque, na área de abrangência do Cerrado, encontram-se três grandes aquíferos responsáveis pela formação e alimentação dos grandes rios continentais. Um deles, e o mais conhecido, é o aquífero Guarani, associado ao arenito Botucatu e a outras formações areníticas mais antigas. Esse aquífero é responsável pelas águas que alimentam a bacia hidrográfica do Paraná, além de alguns formadores que vertem para a bacia Amazônica.

 

E os outros dois?

São os aquíferos Bambuí e Urucuia. O primeiro está associado às formações geológicas do Grupo Bambuí, o segundo está associado à formação arenítica Urucuia, que em muitos locais está sobreposta ao Bambuí. Em certos pontos, há até um contato entre os dois aquíferos, apesar de existir entre ambos uma imensa diferença cronológica. Os aquíferos Bambuí e Urucuia são responsáveis pela formação e alimentação dos rios que integram a bacia do São Francisco e as sub-bacias hidrográficas do Tocantins, Araguaia, além de outras situadas na abrangência do Cerrado. Além dessas imponentes bacias hidrográficas de dimensões continentais, no bioma ainda nascem águas que dão origem a bacias hidrográficas independentes de grande importância regional. Assim, representada por uma complexa teia, as águas que brotam do Cerrado são as responsáveis pela alimentação e configuração das grandes bacias hidrográficas da América do Sul.

 

Como esses aquíferos são alimentados?

O aquífero possui área de descarga e recarga. A área de recarga se situa nos chapadões ou em suas áreas mais planas. Quem exerce a função de alimentar os lençóis profundos é a água da chuva, que penetra no solo por meio da vegetação, especialmente a nativa. No caso específico das plantas do Cerrado, elas possuem um sistema radicular extremamente profundo e complexo, muito eficiente na absorção das águas pluviais.

 

De que forma uma área de plantação ou criação de gado impacta a absorção de água pelo solo/aquíferos?

Com a introdução da monocultura, as plantas do Cerrado são substituídas por vegetais com raízes subsuperficiais, que não sugam as águas como as plantas nativas. A consequência é que, com o passar dos tempos, as águas dos aquíferos foram diminuindo. Num primeiro momento, ocorre o fenômeno denominado “migração de nascentes”, que se deslocam das partes mais elevadas para as partes mais baixas. Num segundo momento, os cursos d’águas menores iniciam um processo de diminuição da vazão e, com o tempo, o desaparecimento. E assim por diante, são veias menores que deixam de irrigar as maiores.

 

No caso do fantasma da crise de água que vem afetando grande parte do Brasil nos últimos anos, o problema então jamais será solucionado em sua totalidade?

A situação está intimamente ligada a dois fatores: o primeiro é a estiagem prolongada provocada por fatores que independem da ação humana, como El Niño, por exemplo. O segundo é a vazão dos rios alimentadores das represas, que não ostentam mais a quantidade de água de tempos atrás. Consequência: mesmo com a normalização da precipitação pluviométrica, como aconteceu no início deste ano, depois de certo tempo é possível que os níveis das represas atinjam a plenitude. Entretanto, com o advento de outra estiagem cíclica, a situação voltará a se repetir, tendendo a se agravar em função da diminuição da vazão dos rios.

Historicamente, o que potencializou esse fato?

A partir de 1970, uma nova matriz territorial foi implantada na área do Cerrado. Essa matriz tem raízes e consequências predatórias. A partir daí, foi só uma questão de tempo para que os problemas ambientais viessem a aparecer e se agravarem com o tempo. A questão atual do desaparecimento dos pequenos cursos d’água, alimentadores dos maiores, é apenas a ponta de um “iceberg” que tende a se tornar cada vez mais evidente. Em um futuro não muito distante, não haverá mais água para alimentar os rios.

 

O Cerrado é um ambiente passivo de revitalização ou qualquer dano à sua biodiversidade é irreversível?

Em primeiro lugar, o Cerrado dos Chapadões Centrais do Brasil é um sistema biogeográfico com vários subsistemas. Eles se diferenciam por solos, fisionomia vegetal, quantidade de água nos lençóis, comunidades animais etc. Qualquer modificação nos elementos dos subsistemas provoca modificações no Sistema como um todo. Em segundo lugar, convém destacar que o Cerrado é uma das matrizes ambientais mais antigas da história recente do Planeta Terra, que tem seu início no Cenozóico. Isso significa que este ambiente já chegou ao seu clímax evolutivo, ou seja, uma vez degradado, não se recupera jamais na plenitude de sua biodiversidade. Em terceiro lugar, a maior parte das plantas do Cerrado tem um desenvolvimento lento, algumas levam séculos para atingirem a maior idade, fato que torna quase impossível um trabalho de recomposição vegetal. Sem mencionar que estas plantas estão condicionadas a um tipo de solo oligotrófico com balanço hídrico específico, fato hoje difícil de ser encontrado em equilíbrio no Cerrado. Isso faz dele o bioma que mais limpa a atmosfera, pois esse tipo de solo se alimenta de CO2.

 

O bioma guarda importantes espécies da flora, como os buritis, que só vivem em ambientes com água. Existe alguma solução biotecnológica que possa garantir o crescimento e a manutenção dessa espécie, por exemplo,
se o solo estiver seco?

Até o presente momento as plantas nativas do Cerrado têm enfrentado grandes problemas com relação à produção através da biotecnologia. Eles estão relacionados essencialmente à existência de fungos, que no ambiente natural vive em simbiose com as plantas do Cerrado, mas, “in vitro”, constitui elementos inibidores do desenvolvimento das espécies. Portanto, não há solução biotecnológica para produção em massa de diversas espécies de plantas nativas do Cerrado, como também não há até o momento, soluções que mantenham o desenvolvimento de plantas nativas, como os buritis, que levam até 500 anos para atingir 30 metros, em ambientes já degradados. Ou seja: se o Cerrado morrer, os buritis não sobreviverão em outro lugar. No entanto, vale lembrar que não se mede a degradação ambiental apenas pela ocorrência de uma ou outra planta. Há de se considerar comunidades, tanto vegetais quanto animais, incluindo insetos polinizadores, água etc., e tudo isso já não existe no Cerrado de forma contínua. O que há são fragmentos que não representam 10% da área total.

 

O que é preciso para garantir a preservação das poucas áreas ainda preservadas do Cerrado e de suas águas? A criação de novos espaços protegidos por lei é suficiente?

Essas áreas são insignificantes em relação à grande biodiversidade que o Cerrado apresentava até bem pouco tempo. As existentes mais ou menos preservadas são relictos de um ambiente outrora muito mais diverso e representam apenas parcelas de um subsistema. Não há todos os elementos do sistema preservados. No entanto, para garantir a existência desses locais são necessários dois pontos importantes: primeiro deixá-los como estão. Segundo, demonstrar a importância do valor científico e econômico da vegetação ainda existente.

 

Depois do Rio São Francisco, no Nordeste, agora é a vez do Rio Paraíba do Sul, no Sudeste, ser transposto. Fazer uma transposição é assinar o atestado de óbito dos rios?

No caso específico do Rio São Francisco, já escrevi inúmeros artigos salientando os perigos da transposição, pois o fato significa a médio prazo a morte lenta dos rios, já que o Velho Chico tem mais de 90% de sua perenização regulada pelos cursos d’água que o alimentam pela margem esquerda. Esses rios existentes, principalmente no oeste de Minas e da Bahia, estão todos doentes e uma mudança significativa na sua dinâmica, provocada essencialmente pela transposição, poderá acelerar o processo de desaparecimento desses rios, fato que vem acontecendo de forma crescente.

"A retirada da cobertura vegetal tem afetado a já reduzida recarga dos aquíferos. Em um futuro não muito distante, não haverá mais água para alimentar os rios"  Ascom/Ibama/Everton Pimentel

Como a urbanização pode impactar os rios do Cerrado, tendo em vista que a maioria das cidades localizadas no bioma cresceu em função dos seus cursos d’água?

Incrementada atualmente pelo processo de desterritorialização do homem do campo, a urbanização impacta os rios do Cerrado de diversas maneiras. Uma delas é a poluição generalizada (esgotos, resíduos sólidos, produtos químicos etc.), que afetam a qualidade da água e a vida nela existente. Outro impacto fundamental se dá em função da grande expansão das malhas urbanas que requerem a pavimentação dos solos, impedindo-os de “transpirarem”, como também impede a infiltração das águas que alimentam os lençóis freáticos, que na época da estação chuvosa, regulam os níveis desses rios. A pavimentação desenfreada provoca cheias e inundações violentas na época chuvosa trazendo graves transtornos sociais.

 

Qual será o futuro hídrico do Cerrado e, consequentemente, do país?

O potencial agrícola que ele tem demonstrado o transformou em uma das últimas reservas da Terra capazes de suportar, de modo imediato, a produção de grãos e a formação de pastagens. E o desenvolvimento das técnicas modernas de cultivo tem atraído, recentemente, grandes investimentos e criado modificações significativas do ponto de vista da infraestrutura de suporte. O fato da não existência de uma política global para a agricultura tem provocado a desterritorialização, trazendo as consequências amargas da desestruturação da população rural, que provoca migrações em massa e dão origem ao crescimento desordenado dos núcleos urbanos. Todos esses fatores, no seu conjunto, têm provocado situações nocivas ao meio ambiente, com perspectivas preocupantes.

 

De todas as grandes matrizes ambientais brasileiras, o Cerrado é a que mais tem sofrido mudanças nos últimos anos. Quais são elas?

Não são apenas transformações das técnicas de produção, mas outras muito mais profundas, isto é, transformações culturais, que têm afetado o próprio modo de vida das populações, desestruturando os valores e, muitas vezes, provocando um “vazio”. Não falo de algo que venha a preencher o espaço deixado pelos elementos que foram ou estão sendo subtraídos. Os antigos núcleos urbanos veem-se de repente transformados em polos regionais de inovações e agenciadores de “mudanças radicais” nos sistemas de relações, com seus inúmeros serviços, quase todos voltados para atividades agroindustriais e com preocupações imediatistas e consumistas. A retirada total da cobertura vegetal tem afetado de forma decisiva a já reduzida recarga dos aquíferos, cujas reservas chegarão a um nível crítico, pois as águas pluviais que conseguirem penetrar através do solo serão de imediato absorvidas por estes, dado seus estados de aridez em função da insolação. A pouca umidade retida se evaporará de forma rápida pelas mesmas causas.

 

Por quê?

No início, os problemas oriundos dessa situação serão contornados com a construção de barramentos, através de curvas de níveis e pequenos açudes, para reterem as águas das chuvas. Entretanto, os ambientes que surgem desse processo têm caráter bêntico, fato que origina a argilicificação e a consequente impermeabilização do fundo dos poços, que, associada à forte insolação, resultará numa ação de nula eficácia, provocando a diminuição do nível de água dos lençóis subterrâneos. Essa situação começará a refletir de forma visível nos polos urbanos.

 

O que acontecerá caso o cenário pessimista que vivenciamos duramente em 2015 retorne este ano?

Haverá mais racionamento de água, em função da diminuição da vazão dos rios, que, por sua vez, provocará a redução do nível dos reservatórios. O racionamento de energia elétrica também será cada vez mais imposto pelas mesmas causas. O desemprego e os serviços, antes fartos e variados, afundarão numa crise sem precedentes. Os polos urbanos serão assolados por diversas epidemias, que provocarão índices alarmantes de mortalidade. E a maioria da população sucumbirá diante da miséria crescente.

 

 

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