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Segunda, 21 de março de 2016

Aprendendo na floresta

Instituição educacional de Nova Lima (MG) mostra que é possível aliar teoria e prática de forma integrada à natureza

Cristiane Mendonça - redacao@revistaecologico.com.br



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Sala verde: as paredes são árvores e as aulas tratam de rios e plantas - Imagens: Sanakan

Sala verde: as paredes são árvores e as aulas tratam de rios e plantas - Imagens: Sanakan

A fumaça do fogão a lenha sobe vagarosa, enquanto na horta o sol forte ilumina as ervas. A cigarra canta pedindo chuva quando, de repente, um esquilo sobe em uma árvore para buscar alimento. As crianças e adolescentes estão espalhadas: algumas na sala tocando flauta, enquanto outras, sentadas em círculo no meio da mata, debatem as últimas notícias. 

Se você acha que estou descrevendo um ambiente rural, errou. Na verdade, esse é o cotidiano de uma escola diferente que a Ecológico visitou em Nova Lima, Região Metropolitana de BH: o Instituto Educacional Ouro Verde. Localizada no bairro Ouro Velho, a instituição tem princípios que se baseiam na Pedagogia Waldorf – que busca integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos alunos.

O ambiente da escola encanta à primeira vista. Situado em uma casa branca rodeada por uma Área de Proteção Ambiental (APA), o espaço atende atualmente 130 alunos dos ensinos infantil e fundamental. E só nos remete à ideia de uma escola tradicional quando cruzamos com as crianças e adolescentes e ouvimos de uma delas algo sobre uma lição que será feita em alemão. Ou ainda, quando durante o recreio os meninos disputam uma partida de futebol. No resto, tudo destoa dos prédios de muros altos e das estruturas iguais das escolas que comumente encontramos pela vida.

O Instituto Educacional Ouro Verde é uma associação sem fins lucrativos, criada por um grupo de pessoas que inclui pais na busca de um ensino mais integrado para os filhos. A escola foi fundada há dois anos e não apenas segue o modelo pedagógico desenvolvido pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner. Também se orienta pelos princípios da gestão participativa dos pais e da chamada “escola verde”, cujos conceitos de agricultura, resíduos e alimentação seguem uma lógica sustentável.

Em pouco mais de oito mil metros quadrados, os estudantes aprendem disciplinas tradicionais, como matemática, português e física, conforme diretrizes do Ministério da Educação (MEC), intercaladas de forma interdisciplinar a aulas de marcenaria, modelagem, astronomia e agricultura biodinâmica, entre outras. 

Modelagem: aula artesanal conta com a participação de alunos e pais

Aula de plantar

O professor de agricultura, Gustavo Passos, é quem ministra as aulas sobre como produzir hortas seguindo os preceitos da agrofloresta, que agrega as culturas agrícolas às florestais. Nelas, os jovens literalmente colocam a mão na terra para plantar, adubar, colher e até mesmo fazer compostagem. Reunido no meio da mata com os estudantes, ele não apenas “os ensina a cuidar das plantas, mas pesquisar sobre os nomes das bacias hidrográficas e córregos que os rodeiam”. Mais. Instrui todos a plantar levando em consideração um hábito ancestral: respeitar as fases da lua e as constelações. Por meio dessa vivência, os alunos produzem, na sequência, relatórios com observações sobre a influência dos astros no cultivo das espécies.

Os conteúdos das disciplinas são dados de forma interdisciplinar e trabalhm o mesmo tema em diferentes aspectos 

Da escola para a mesa

Outra atividade que conquistou os estudantes do Instituto Educacional Ouro Verde é a oportunidade de levar o alimento que eles mesmos plantaram na horta da escola para ser preparado lá. Um bom exemplo é o trigo, que recentemente foi colhido e encaminhado para a cozinha para que os próprios alunos pudessem fazer massas e pães.

Esta prática está diretamente ligada ao projeto de reeducação alimentar que a escola chama de “ecologia da boca para dentro”, que visa conscientizar os alunos sobre os benefícios de uma alimentação saudável. Para se ter uma ideia, no cardápio não entra carne vermelha, mas apenas frango caipira, um dia, durante a semana.

Izabel Stewart, diretora de Meio Ambiente da escola, conta que o instituto busca constantemente fazer uma reflexão sobre o que se come.  “Servimos arroz integral e, de repente, um aluno chega contando que o intestino dele está funcionando melhor. Isso reflete o que nós pregamos aqui: de que seu corpo é o seu primeiro planeta!”, resume.

A presença dos pais no ambiente escolar também é recorrente. Existem oficinas artesanais feitas exclusivamente para eles, incluindo feirinhas, onde as peças produzidas são vendidas. Izabel, que também é mãe de duas alunas do instituto, conta que a presença dos pais se dá em conselhos participativos que discutem e determinam temas ligados à escola, além de contarem com o apoio deles em outras atividades. “Estamos construindo uma nova sala e os pais de um aluno que são arquitetos colaboraram com o projeto”, afirma ela, apontando um exemplo prático de gestão participativa e sustentável que está consolidando uma nova forma de educar.

Izabel Stewart: "No instituto nós pregamos que nosso corpo é nosso primeiro planeta!"

Pedagogia Waldorf

O plano pedagógico anual do Instituto Educacional Ouro Verde é elaborado no início de cada ano letivo. Um assunto pode ser trabalhado em sala de aula durante três ou quatro semanas, de acordo com o desenvolvimento de cada turma. Se o tema é Idade Média, por exemplo, esse conteúdo será amplificado em todas as matérias, de forma a ser moldado ao perfil de cada uma delas. A Pedagogia Waldorf prevê que um mesmo professor acompanhe a turma do primeiro até o oitavo ano. Ele ministrará exclusivamente os conteúdos até a quinta série. Do sexto ano em diante, o professor poderá contar com o apoio de novos professores para ministrar os demais conteúdos.

As avaliações e reprovações também são trabalhadas de forma diferenciada. Segundo a diretora pedagógica, Eliza Alves, no modelo Waldorf as avaliações são continuadas. “Ao contrário das instituições tradicionais, a nossa avaliação é feita quase que diariamente. A partir do momento que é dada a aula principal, fazemos uma recapitulação dos conteúdos ministrados no dia anterior. Isso funciona como uma sondagem. A todo o momento o professor convida o aluno a participar do conteúdo que ele está ministrando. Dessa forma, acreditamos que a construção da avaliação é feita desde a oralidade até o momento em que ele tem um trabalho de ditado, de redação, uma cópia de texto.”

A diretora também diz que os pais recebem boletins descritivos semestralmente até o quinto ano. E, trimestralmente, a partir do sexto ano - onde se registra todo o conteúdo dado e quais foram os avanços e deficiências do aluno em cada tema trabalhado. Dessa forma, Eliza explica que não existe o termo reprovação. “Como nós vamos destacando o que cada aluno alcança e não alcança, ele vai tendo um registro que fica para o instituto e para a Secretaria de Educação sobre suas conquistas. Para nós, isso não faz do aluno melhor ou pior que o outro. É um reconhecimento de aptidões”, conclui.

Esta forma de aprendizagem vem deixando os alunos satisfeitos. Lucas Schneider Gallo, de 13 anos, é estudante do sexto ano e conta que sempre estudou em escolas tradicionais, mas que, este ano, optou por frequentar o Instituto Educacional Ouro Verde. Quando perguntado sobre a principal diferença entre a antiga escola e a nova, ele respondeu rápido: “Senti muita diferença no jeito de os professores darem as aulas. Onde eu estudava, o professor apenas repassava a matéria e saía. Aqui, sinto que os professores são mais envolvidos com o aluno, o que deixa a aula mais interessante! Temos também mais liberdade para dar opinião. Não é só sentar e ouvir”, afirma. Lucas, que integra a Comissão de Meio Ambiente da escola, quer ser biólogo quando crescer. Também disse que quis estudar no instituto por “gostar da paisagem e da natureza, além de querer contribuir mais com o meio ambiente”. E completou: “A gente vê tanta gente desmatando. O ser humano não precisa disso, ele pode viver com pouco, sem precisar destruir tudo!”.

Lucas Gallo sonha em ser biólogo e contribuir para um mundo melhor 


Saiba mais:  

www.institutoouroverde.com.br

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