Sexta, 18 de março de 2016

A cabeça da Terra

Principal líder do movimento indígena dos anos 1970, Aílton Krenak lança livro que reúne entrevistas concedidas entre 1984 e 2013

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Aílton Krenak:

Aílton Krenak: "A natureza não é uma fonte inesgotável de recursos naturais" - Imagem: Vinícius Carvalho

Qualquer pessoa que estudar mais a fundo a vida e a obra do brasileiro-índio Aílton Krenak irá entender literal e verdadeiramente o sentido da palavra “líder”. Verá que liderar é um verbo que só faz sentido de ser conjugado se for para ajudar e unir os seres humanos. E, mais importante, tornar o mundo um lugar melhor – mais justo e igualitário – para se viver.

Não há como separar a vida de Aílton Krenak do movimento indígena brasileiro. Ele nasceu em 1953, no Vale do Rio Doce. Aos 17 anos, mudou-se com a família para o Paraná, onde alfabetizou-se e se tornou jornalista e produtor gráfico. A invasão e a destruição das terras indígenas pelo “povo branco” levou Krenak a se tornar um ativista de destaque nos anos 1980 e 1990, encabeçando a luta para que a Constituição brasileira contemplasse os direitos dos índios em sua totalidade. O discurso de Krenak no Congresso Nacional, em 1987, é histórico e também está registrado no livro (leia mais no box).

“Queríamos ser respeitados na nossa identidade. Que o índio continuasse a ser índio”, disse ele durante o lançamento do livro da série “Encontros” (Azougue Editorial), na capital mineira, que reúne entrevistas concedidas à imprensa entre 1984 e 2013. “A sociedade achava que tínhamos de evoluir quase que biologicamente para ter direitos humanos. Percebi isso e comecei a ‘espernear’.”

Mesmo com as conquistas da Constituição Federal de 1988, a luta de Krenak não havia terminado: a repressão ao índio e as ameaças ao povo e ao território continuaram. Nas décadas seguintes, atuou, com a participação de representantes de outras tribos, na criação de instituições para lutar pelo direitos e garantir melhores condições de vida para os indígenas, como a ONG Núcleo de Cultura Indígena, que ele mesmo fundou. E, ainda, o Centro de Pesquisa Indígena e a Embaixada dos Povos da Floresta, centro cultural localizado na capital paulista que reúne povos indígenas e extrativistas da Amazônia que atua divulgando a cultura e o conhecimento dos povos tradicionais.

O trabalho de Krenak foi reconhecido nacional e internacionalmente em várias ocasiões: em 1989, recebeu o “Prêmio de Direitos Humanos Lettelier-Moffit”, nos Estados Unidos. E, na Grécia, foi homenageado pela Fundação Aristóteles Onassis com o “Prêmio Homem e Sociedade”.

Para comemorar o lançamento de “Encontros”, a Ecológico reproduz, a seguir, alguns dos principais trechos da palestra do líder indígena durante sua passagem por BH. Confira:

Etnia krenak

“Na nossa língua, ‘kren’, é cabeça. ‘Nak’ é terra. O nome do meu povo é ‘cabeça da terra’. Estávamos aqui antes de ganharmos o apelido de ‘índio’. A nossa autoidentificação é que somos ‘burum’, gente. Como quem sempre escreveu a história eram os portugueses, eles diziam que tinham encontrado índios. Mas somos gente mesmo.”

“Esse nome – krenak – é o nome da minha tribo, de onde eu venho. E o nosso território é o Atu, aquele rio que, nos mapas, vocês conhecem como Rio Doce. Esse povo vive em uma região de Minas Gerais, que é o Médio Rio Doce e que chamamos de Uatu. Quando começaram a explorar essa região, passaram a chamá-la de Vale do Aço.”

“Não somos sedentários. Mesmo o Estado tendo criado uma reserva para nós, nós circulamos por outros lugares. Uma das nossas fontes de conflito com os nossos vizinhos – os brancos –, foi exatamente porque eles queriam que ficássemos confinados dentro da reserva.”

“Tanto os krenak quanto os maxacali, nas décadas de 1940, 1950 e 1960, foram retirados de seus territórios de origem e despejados em territórios distantes, pelo governo, como política de dissolução de da família indígena. Fizeram isso intencionalmente, para os índios acabarem.”

Ser brasileiro

“O Brasil diz que é formado por índios, negros e brancos. Mas a vida inteira ele tenta apagar da ‘foto’ os dois parentes que não são os brancos. Então, que família mais perversa é essa? Brasileiros somos todos, inclusive os índios.”

Luta constitucional

“Quando comecei a perceber a potência que havia na Constituição Brasileira, que diz respeito à nossa formação como uma nação pluriétnica e racial, e vivendo esse dilema do nosso mito de origem, pensei: ‘Tenho uma percepção da nossa história indígena e quero contribuir para que os outros, meus parentes, irmãos, se toquem de que podemos ser muitos mais do que a nossa história permite que sejamos’.”

“O índio era visto como uma parte da população brasileira que ia se diluir culturalmente, fisicamente. E desaparecer na Constituição como um fenômeno natural. Minha entrada no bonde foi quando comecei a dizer que não éramos gente em estado de evolução [para conseguir representação jurídica].”

“Se estávamos em uma sociedade que, no século XX, achava que ainda tinha uma parte da população que tinha que evoluir quase que biologicamente para ter direitos humanos, é porque estávamos em uma sociedade meio retardada. Percebi isso cedo e comecei a espernear.”

“Estávamos definidos pelo Código Civil Brasileiro e pelas Constituições anteriores como relativamente capazes do ponto de vista jurídico. E essa situação de capacidade relativa jurídica é que nos colocava numa situação que não era vantajosa, assim como as mulheres e os doentes mentais.”

“Teve uma época em que o jornalista Hiram Firmino teve que ‘apanhar’ para que tirassem as algemas daqueles que eram considerados doidos.Uma coisa que o Brasil fazia era achar, naquela época, que os índios eram incapazes de brigar por si mesmos - eles também prendiam qualquer pessoa que eles achavam que era doida. O nosso Código Civil achava que os índios, as mulheres, os doidos deveriam ser assistidos juridicamente. Isso denunciava que nós, até recentemente, éramos considerados uma sociedade atrasada, no sentido de se perceber como plural.”

“Na Constituinte de 1988, liderei um movimento indígena que tinha vários povos, como os Xavantes, Ianomamis, Guaranis, Pataxós, os karajás, da Ilha do Bananal, os terenas, do Mato Grosso, os índios do Nordeste, xucuru-pariri, quiriri, pancaradu, os caingangue, do Sul do Brasil. Todos eles se sentiram ameaçados pela política do estado brasileiro. E, na década de 1980,  com 26 anos, já estava engajado no movimento.”

“Organizamos uma união das nações indígenas, com todos esses povos reunidos em um conselho de tribos. E foi representando esse conselho que fizemos uma intervenção na Constituinte de 88, reivindicando os direitos aos nossos territórios, e sinalizando povos que não estávamos ali temporariamente e depois virar branco. Não temos interesse nenhuma nessa perspectiva. Queríamos ser respeitados na nossa identidade. Que o povo indígena continue sendo índio. Que meus tataranetos possam sentar aqui e falar ‘eu sou Krenak’, contar a história de seus antepassados com orgulho.”

"A grande diferença entre o pensamento dos índios e o dos brancos é que estes acham que o meio ambiente é um almoxarifado em que se tira coisas."

Meio ambiente

“Se você for a uma nascente e se abastecer de água ali, é preciso ter certeza que, passadas cinco, seis gerações, a sétima também poderá ir àquele lugar e beber água com a mesma qualidade.”

“A natureza não é uma fonte inesgotável de recursos naturais.”

“Se perguntarmos para alguém o que é meio ambiente, cada um vai falar uma coisa. Quando o Brasil foi deixando de ser um país de economia agrícola e começou a acabar com nossas nascentes e percebeu que as florestas estavam sendo desmatadas – e, mais recentemente, começou a ver a crise de abastecimento de água e agravamento do clima -, é que se percebeu que existia uma coisa chamada meio ambiente.”

“Na cultura da maioria dos povos indígenas, a percepção de que o vento mudou é desde que o camarada nasceu. Meio ambiente, de povos que sempre viveram colados na natureza, é uma experiência mais do ambiente integrado a todo o ciclo da vida do que apenas à ideia do recurso natural. A grande diferença que existe entre o pensamento dos índios e o pensamento dos brancos é que estes acham que o ambiente é recurso natural, como se fosse um almoxarifado em que se tira as coisas. Para o índio, é um lugar que tem de se pisar suavemente, porque está cheio de outras presenças.”

“Meio ambiente pode ser qualquer lugar, um depósito onde se tira minério, água, floresta, se exaure todo. Essa visão de recursos naturais, do qual foi consagrado o meio ambiente, é equivocada. Tentaram consertar isso com a expressão desenvolvimento sustentável, mas os recursos naturais devem ser renováveis. Para o povo índigena, não há nada de sustentável naquilo que chamamos de economia, porque esse termo supõe que se vai saquear a terra. Se você tira e não põe, não é sustentável.”

“A natureza foi sendo configurada como um lugar perigoso para as crianças. Quando pequenos, a gente nem sabia andar direito, mas já se misturava a ela, entrando nos córregos, cachoeiras, brincando com os animais...”

“Se somos capazes de nos desfazer da paisagem, a ponto de daqui há gerações nossos tataranetos não terem a oportunidade de vê-la, como é que podemos dizer que estamos sendo sustentáveis? Que sustentabilidade há nisso? Pode-se, por exemplo, roubar o que é imaterial, porque ele não conta? O que é espírito, o que dá sentido à vida, que é subjetivo, que só poetas e índios enxergam, se pode tirar?”

“O meio ambiente que devemos pensar é a nossa casa comum. Não podemos desfazer de uma parte de nossa casa porque o sentido de comum nos obriga a cuidar dela. Não é a casa que a mãe cuida, cozinha, depois todo mundo suja e vai embora. É preciso cuidar da água, da floresta...”

“Fiquei impressionado com o tanto de consciência ambiental que ‘surtou’ alguns de nossos governos estaduais e municipais de que é importante conservar a água. Eles estavam o tempo todo transformando os nossos rios em esgoto. E depois fazem campanhas para não abrirmos a torneira, tipo se você ver uma gota, recolha e guarde...”

Sustentabilidade

“Hoje, é de uma convicção absoluta que o meio ambiente tem valor. Toda empresa bacana agora faz relatório de sustentabilidade, principalmente se ela for usuária e transformadora de matéria-prima visível que vira mercadoria. Ela tem de fazer propaganda para dizer que é sustentável, que se pode comprar carro, geladeira, porque para fazer aquilo não foi preciso tirar nada de lugar nenhum. Parece que são mágicos. É como se não tivessem depredando as montanhas, exaurindo os rios, o subsolo, mas têm relatórios de sustentabilidade.”

Em uma entrevista recente, Aílton Krenak afirmou que mais de 250 indígenas foram assassinados nos dez primeiros anos do governo Lula/Dilma

Mário Juruna

“Muitos de vocês, principalmente os que têm a minha idade, se lembram do Mário Juruna, um xavante que saiu do Mato Grosso, comprou um gravador e gravava fitas e falas das autoridades. Um dia, ele gravou uma fala do então ministro do Interior, Mário Andreazza, e percebeu que ele se contradisse, que era mentiroso. Naquela época, dizer que um ministro era mentiroso ainda não era moda.”

“Mário Juruna não falava português e saiu da aldeia xavante depois de ter liderado, como chefe e guerreiro, a resistência dela contra a entrada dos gaúchos e dos catarinenses que estavam derrubando o Cerrado para promover esse campos de monocultura. Toda aquela extensão de florestas foi território indígena até o início do século XX. Quando os brancos entraram nas terras dos xavantes para tomá-las, o Juruna liderou uma resistência contra essa ocupação e ele aprendeu a falar português brigando com os brancos. Ele não teve professor, falava um português muito peculiar. Conseguiu se eleger deputado pelo Rio de Janeiro e viram que ele tinha potência mobilizadora.”

“O primeiro discurso que Juruna fez no Congresso foi no idioma da tribo dele. E a presidência da casa cortou o microfone e disse que ele não podia falar línguas estranhas no Congresso, mas sim o português. O jeito do Juruna se comportar era uma flagrante contestação da babaquice que estava no Brasil naquele momento. Ele fez   o discurso em xavante, sua língua materna, e exigiu que fosse registrado porque isso era maravilhoso, já que os integrantes do Congresso não sabiam falar a mesma língua que ele.”

História

“Se eu fosse escrever a história, seria como o poema ‘Erro de Português’, de Oswald de Andrade: ‘Quando português chegou/debaixo de uma bruta chuva/vestiu o índio./Que pena!/Fosse uma manhã de sol/o índio tinha despido o português’.”

Espiritualidade

“Há uma banalização da vida. Se nós achamos que podemos tratar a água, o ar que nós respiramos, os alimentos, a terra de onde os suprimos, todas essas bênçãos que temos na nossa vida de uma maneira superficial, também estaremos tratando a nossa existência superficialmente. Só vamos levar um susto e mudar quando estivermos perto de ter uma tragédia.”

“Quanta gente foi convencida de que quando uma pessoa está doente deve enfiá-la em um hospital? Isso porque as pessoas não querem admitir que a gente nasce, passa um tempo aqui na Terra e, com muita sorte, fica velho e morre. Parece que querem contar às crianças que morrer é chato. Então, cultivam essa ideia da espiritualidade como um recurso auxiliar para não aceitar que somos como as folhas das árvores, que florescem, ficam bonitas e depois caem e viram adubo na terra. Somos assim.”

“Não é simpático lembrar que as pessoas morrem, por isso se fica despistando todo mundo. Quando uma avó, por exemplo, está com 93 anos e adoece, correm com elas para um hospital, porque não suportam ficar junto com ela. Aí dizem que ‘todo mundo trabalha’. Com a criança é a mesma coisa. São duas categorias de gente que se põem em algum lugar. Aí fica aquele pessoal achando que sempre terá saúde, correndo... Essa turma bacana não se preocupa com espiritualidade. Isso é para quem vai morrer.”

“Não consigo comentar espiritualidade se antes não ver o que estamos fazendo com nós mesmos, com nossas crianças, nossas cidades, o tipo de alimento que estamos nos permitindo consumir, achando que está tudo bem. Espiritualidade não é uma subjetividade que só os poetas têm. Espiritualidade é algo que também deve dizer a respeito de andar, comer, dormir, se relacionar com as pessoas, porque senão se cria truques, assim como os relatórios de sustentabilidade das empresas têm.”

Transcendência

“Todos os seres humanos são naturalmente têm uma transcendência que nos põe além da mediocridade. Quando dormimos, o nosso espírito sonha. E é por isso que conseguimos acordar no outro dia e andar. Na minha tribo, temos essa coisa de perguntar para o outro com o que ele sonhou. Sonho é importante. Dependendo do que se sonhou, se tem material para decidir sobre o que você vai fazer durante o dia. Agora, se você não tem tempo de contar o que sonhou, saberá muito pouco sobre o que terá de fazer na vida.”

“Viver é uma experiência que pode ser muito mais compensadora do que viver sem saber o que está comendo, fazendo, dormindo, sonhando. Talvez isso implica em renunciar algumas coisas que a vida moderna fez com que acreditássemos que é importante, que não conseguimos viver sem.”

Memórias

“Nesse livro, tem um texto que se chama ‘Rio da Memória’. Foi um depoimento longo que dei para o Museu da Pessoa, que valoriza muito a oralidade, a contação de histórias. Os meus amigos me provocaram para puxar essas memórias. Lembro que as primeiras, que mais me animam e dão conforto ao espírito, é de quando tínhamos toda a coragem do mundo e passávamos balaio nos pequenos córregos para pegar peixinhos. Essa coragem de estar ali colado na natureza, sem o medo de ter qualquer coisa.”

Ecologia

“Em nenhuma língua índigena que conheço existe a palavra ecologia. Tenho a impressão de que a única cultura capaz de criar um termo dessesmé aquela que é bem predatória. Uma cultura que convive com a natureza e as diferentes paisagens de forma não precisa de uma ciência assim. Se for para viver com a natureza, não se precisa de tanto aparato.”


Discurso histórico no Congresso

Imagem: Reprodução

“Espero não agredir, com a minha manifestação, o protocolo desta casa. Mas acredito que os senhores não poderão ficar omissos, alheios, a mais esta agressão movida pelo poder econômico, pela ganância, pela ignorância do que significa ser um povo indígena. Temos um jeito de pensar, de viver. Temos condições fundamentais para a manifestação da nossa tradição, da nossa vida, da nossa cultura, que nunca colocaram em risco a existência dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais a dos seres humanos. Nenhum dos senhores poderia apontar atos da gente indígena do Brasil que colocaram em risco seja a vida seja o patrimônio de qualquer pessoa, grupo humano, nesse país. Hoje, somos alvo de uma agressão que pretende atingir, na essência, a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, aqueles que não têm dinheiro para manter uma campanha incessante de difamação. Que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão. Um povo que não deve ser identificado como inimigo dos interesses do Brasil e que coloca em risco qualquer forma de desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Os senhores são testemunhas disso.”

 

 

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