Sexta, 18 de março de 2016

É o fim da picada!

Empresa Via 040, administradora da Rodovia BR-040, pretende cortar mais de 15 mil árvores entre o trevo de Ouro-Preto e Curvelo

Feliz Concolor - redacao@revistaecologico.com.br



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A tragédia das 15 mil árvores condenadas, inspirada na canção de Toni Tornado:

A tragédia das 15 mil árvores condenadas, inspirada na canção de Toni Tornado: "A gente também morre na BR-3" - Imagem: Sanakan Firmino

Alô, alô, meus leitores de antigamente! Vocês se lembram de mim, Felis Concolor? Essa veia onça parda, suçuarana, que costumava infernizar quem estivesse fora da lei da vida? Pois é. Como naquela canção do Roberto... “eu voltei! Agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar...”.

É verdade. Também conhecido como puma brasileiro, fui obrigado a voltar para conseguir confiar novamente na espécie humana, flagrada que fui outro dia mesmo, adivinha onde? Em plena Serra do Cipó, mais precisamente no Ermo das Gerais, logo depois da Lapinha, no município de Santana do Riacho. Tava subindo rumo ao Cruzeiro e ao Pico do Breu, em direção a Conceição do Mato Dentro, quando dois jovens ciclistas, Leandro Figueiredo e Paulo Henrique Moreira, me flagraram.

Os dois esportistas acharam que me assustei. Assustei, não. Apenas saí de cena, faminta. Contornei o rio e fui até o acampamento deles para ver se tinha sobrado algo de comer. E o que li numa edição já amarelada do jornal “O Tempo”, na porta da barraca? Que a empresa Via 040, nova administradora da Rodovia BR-040, já estava iniciando o corte de mais de 15 mil árvores frondosas nas margens e nos canteiros centrais, entre o trevo de Ouro-Preto e Curvelo, para implantar um novo deserto ao longo de... 145 quilômetros de distância entre os dois locais!

A alegação dada pela empresa, de uma ignorância e desamor profundo pelo meio ambiente e a natureza que nos resta, é pior que soneto antiecológico: “Para diminuir a gravidade dos acidentes e aumentar a segurança dos motoristas naquele trecho”. E, o fim da picada: com autorização dada pelo Ibama, cuja tradução é “Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis”.

Segundo a concessionária, o fim das árvores “irá permitir que sejam criadas áreas de escapes livres de obstáculos fixos aos motoristas”. E, assim, “que eles possam reduzir a velocidade dos carros ou mesmo retornar o controle da direção sem se chocar contra uma árvore, o que pode aumentar consideravelmente a gravidade de um acidente”.

Em sua defesa, essa tal de Via 040 disse ter se baseado em vários estudos sobre o tema, o que cabe a essa suçuarana aqui perguntar: será que ela ou o Ibama contaram quantos passarinhos não terão mais onde fazer seus ninhos e se reproduzir, tal como soltar seus cocôs com sementes, que caem no chão e fazem a natureza recriar a biodiversidade, naturalmente? E a custo zero, para todos nós?

Li também no jornal, e pasmei com o que disse o especialista em trânsito (e não na universalidade da vida) Silvestre de Andrade Filho (observem a ironia do nome dele - Silvestre): “O corte é algo praticado na engenharia mundial, em outros países, e faz parte do manual de segurança da engenharia”. Parece que ele não sabe que, há muito, já existe a “engenharia ambiental”, e ela é irreversível, se quisermos sobreviver neste planeta. Ele continuou: “A retirada das árvores não elimina um acidente, mas minimiza muito o impacto da batida. É uma medida válida”, ajudou a sentenciar.

Nessa visão surrealista, ele, a Via 040 e o Ibama encarnam o mesmo pensamento que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, nos anos 2000, que criou polêmica internacional ao propor o corte das árvores das florestas públicas para evitar incêndios em seu país. O plano e o manual de Bush também incluía a retirada das matas fechadas e de arbustos, para conter o avanço das chamas. Sem natureza, era a sua tese, o cidadão americano estaria salvo.

Bush, então presidente do país considerado um dos maiores poluidores do mundo, entrou para a história como o inimigo número um da humanidade, por se recusar a assinar o Protocolo de Kyoto contra o aquecimento global e defender sua outra tese maior, mais antropocêntrica impossível: a de o ser humano estar acima da natureza e ser mais importante que ela, vide o aceleramento das mudanças climáticas  que ele provocou. E a escola antiecológica e insustentável que ele continua fazendo.

Fica, então, a sugestão dessa onça veia. A Via 040 prestar-lhe uma paritária homenagem, colocando uma placa de asfalto e cimento, com a foto e o nome dele, quando da inauguração da futura rodovia sem árvores. Passarinho algum estará presente, nem irá defecar sementes nas nossas cabeças, o que na roça interior significa “sorte”. Apenas o asfalto mais quente e a natureza morta na paisagem ensolarada, monótona e sonolenta.

Azar nosso!

Olhem eu aí, em carne e osso, flagrada por dois jovens ciclistas na região do Ermo das Gerais, logo depois da Lapinha, distrito do município de Santana do Riacho, no Parque Nacional da Serra do Cipó, a 160 km de BH: “Eu voltei...” - Imagem: Paulo Henrique Moreira

Beagá sortuda

“Nos anos 1990, a Prefeitura de BH planejou uma reforma completa para a Avenida do Contorno. Tudo seria revisto e melhorado. Mas, ao ser examinado pelos órgãos ambientais, notou-se um problema sério: o projeto incluía o corte de centenas de árvores. O objetivo era alargar a pista para os carros, sacrificando os canteiros centrais.

Deu-se uma discussão em torno da escolha "árvores versus carros”. Ao fim, quase todas as árvores permaneceram. Boa parte delas, ipês."

Paulo André Barros

(*) Jornalista e geógrafo, colaborador da Arca Amaserra. Fonte: O Tempo

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