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Quinta, 15 de outubro de 2015

Carta à re-presidenta

"Se a gente era da classe média B (e agora virou C), como é que os pobres da classe D (que era E) vão poder continuar a comer frango ou mandar fazer dentadura?"

Antonio Barreto * redacao@revistaecologico.com.br



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Senhora Re-presidenta,

Em primeiro lugar, me desculpe já chamar a senhora assim desse modo meio “de casa”, sabe? Mas é porque o meu pai me explicou que o “re” a gente só usa pra quem gosta muito, muito mesmo, de uma coisa que já fez e aí a gente bota o “re” na frente do nome... Por isso eu imagino que a senhora deve ter gostado pra dedéu de ter sido “presidenta” uma vez e agora virou “re-presidenta”, né? Deve ser que nem aquele tantão de re-deputados e re-senadores que têm aí em Brasília, é ou não é não? Só não entendo uma coisa: por que é que não chamam minha professora de re-professora, a diretora de re-diretora e o meu pai de re-pai ou re-jornalista e a minha mãe de re-mãe?

Bom, deixa pra lá. Depois a gente conversa mais sobre isso, tá? Olha, eu estou lhe escrevendo estas mal traçadas linhas porque o ambiente aqui em casa tá irado, muito pinel, parecendo mesmo coisa de maluco de hospício. Tudo por causa dum negócio que aquele outro re-presidente barbudo, antes da senhora, chamou de “marolinha”. E de um tal de “cinto apertado na classe média”. É o que escuto o tempo todo por aqui, sabe? Meu pai tá nervoso. Vive falando que vai arrancar do dicionário a página onde fica o verbo querer e o verbo comprar. E que aqui, agora, todo mundo tem que conjugar é o verbo vender. Ele proibiu também a palavra shopping e as palavras batatas fritas, que são as que eu mais adoro, sabe? Apesar disso, ele ainda tá tomando, devagarzinho, o restinho do seu uísque falsificado que sobrou. E mais: fumando o cotoco do seu último charuto cubano, que ele ganhou de um amigo que ia pra lá de férias, todo ano. Minha mãe, a única que vive rindo à toa (mas é de nervoso... e acho isso um perigão pras clientes dela, pois ela é manicure), disse que vai aproveitar pra fazer regime obrigatório e emagrecer 11 quilos, já que não tem outro jeito. Minha irmã tá uma arara porque não pode mais viajar pra Miami. Nem pagar a prestação do Palio de 80 vezes que comprou no ano passado. Diz também que se arrependeu de ter acreditado no programa do Flex, porque a gasolina agora tá pelos olhos da cara e muito misturada com álcool, o que tá fazendo o motor dela pifar e engasgar toda hora... sei lá, não entendo bem dessas coisas, sabe? Mas estou te falando assim mesmo porque, sabe?... é que a Carol também disse que não dá mais pra namorar aquele tênis Reebok que ela viu na vitrine. E tou morrendo de dó dela, porque ela é muito namoradeira. Sei que é meio difícil pra uma garota ficar namorando um tênis. Mas é bem possível disso acontecer, nesses casos de desespero da Carol, entendeu? Isso, porque a Carol é fogo na roupa! E quando ela se incendeia, sai dibaixo! Diz ela também que nem dá mais pra usar o perfume importado que a mamãe prometeu pra ela se passar de ano e terminar o namoro com o tal do Bigodão, um cara que só aparece aqui pra azucrinar o Vasco. O Vasco? É o nosso cachorro que não tem mais comida de cachorro. Agora só come o que sobra do almoço, quando sobra. Por isso ele tá muito triste, uivando pra gataria da vizinhança e querendo comer o Dólar, nosso peixinho flutuante do aquário.

Tem mais. Vó Biluca, coitada, fala que tudo é culpa da falta de religião. E desse tanto de mulher pelada que aparece na televisão. Vô Alcides jura que a TV virou coisa do diabo que anda solto por aí. Mas ele bem que adora ver a mulherada rebolando e tirando uma casca na galera, hehehe! E meu primo André? Pra senhora ver, ele nem conseguiu terminar a sua coleção de figurinhas da Copa e agora já tá obrigado a parar, também, a coleção de boné importado. Coitado! E o tio Bené? Esse tá cuspindo marimbondo porque não tem como pagar as prestações da van coreana, uma que ele financiou pra poder fazer transporte alternativo, ou algo assim... Diz que vai decretar uma tal de moratória até ver se o Banco do Brasil empresta um dinheirinho pra ele, mas com juros justos. Sei lá o que é isso. Mas deve ser muito sério, pois disse o tio Bené que o nome dele já foi cagado no SPC... Me desculpa o palavrão, saiu sem querer. Mas esse tal de SPC deve ser uma coisa muito séria mesmo, né? Pois nunca ouvi o tio Bené dizer um palavrão. Foi a primeira vez. E a tia Zilá? Essa, que é muito fervorosa com Deus, falou que tá preocupada é com os pobres. Tipo assim: se a gente que era da classe média B (e agora virou C), não consegue mais pagar as coisas, como é que os pobres da classe média D (que era E...) vão poder continuar a comer frango, iogurte e mandar fazer dentadura nova ou botar implante? E pediu pra falar também que dó mesmo ela tem é da sua empregada (a Bilurdes), que não tem mais como passar as férias no exterior, no Haiti, se não me engano... Ô, coitada! Disse que aquilo foi tudo culpa de um colega seu, um tal de Efeagacê, que também já foi re-presidente e coisital. É isso mesmo?

Ó. Só pra senhora ter uma ideia, o papai tá uma pilha tão grande que já ameaçou cortar a assinatura da TV a cabo, da internet banda larga e do jornal. Disse que quer virar bicho do mato, ripi... cabeludo, ignorante. Ou avestruz... Não entendi bem. Papai aí re-falou que não suporta mais ver tanta propaganda mentirosa do governo. Que não aguenta mais trabalhar seis meses do ano só pra pagar imposto e que o impostômetro já passou dos três zilhões. E que não sabe como me declarar nos abatimentos do Imposto de Renda, pois eu não tenho renda nenhuma de dependente. Eu bem que podia estar trabalhando, que nem ele, quando tinha a minha idade. Ele era engraxate, vendedor de alface e padeirinho... E naquele tempo não tinha o Estatuto da Criança, né? Então eu fico me perguntando: como vou fazer pra engraxar tênis? Todo mundo só usa tênis, não é? E tênis não leva graxa. Como vou vender alface? O sacolão ali da esquina já vende. Tem até alface de japonês lá. Umas azuis, outras roxas. E como vou virar padeirinho? Até já pesquisei na internet pra ver se tem curso de padeiro lá, mas não achei. Aí, um belo dia, pedi pro meu pai me ensinar. E olha o que ele disse: “Se vira, seu estorvo!”. Estorvo? Depois ele falou outra coisa esquisita: “Ah, comé que a Ana Maria deixou você escapulir naquela pócula?”. Ana Maria é minha mãe, que agora também só fala outra palavra esquisita: litigioso. Isso deve ser coisa de intelectual. Meu pai é um intelectual, saca? Desses de oclinhos... Minha mãe também: era psicóloga, antes de virar manicure. Mas papai tá mais arara mesmo é porque um amigo dele do governo não avisou que o dólar ia subir. Ou ia descer. Na época daquele outro presidente doido de Alagoas (um que foi impixado, é isso mesmo?), o amigo dele avisou. E o papai salvou sua poupança das garras da ministra Zélica. Nessa confusão toda só tem um tio que tá alegre da vida, o tio Bidu. Isso porque ele tem um amigo que é amigo de um amigo dele, que é amigo de um político importante de Brasília. Que por sua vez é ligado com um tal de Senhor Mensalão e outro tal de Senhor Petrolão... não entendi bem. Mas deve ser gente muito influente mesmo, pois o tio Bidu não está nem aí pra nada. Ufs!

Finalizando, senhora re-presidenta, só queria lhe pedir mais uma coisa que pra mim é fundamental. Não sei mais viver sem shopping e, principalmente, sem batatas fritas. Por favor, manda abaixar o preço dos produtos importados, como as batatas fritas da China! Em troca eu prometo que, quando chegar a hora e eu já estiver na idade de votar, eu voto na senhora! Ou em quem a senhora mandar votar. Mesmo que a senhora não tenha mais nenhum partido, viu? Um abraço do Birica, que é o meu apelido aqui de casa. Mas pode me chamar de Biribinha, que é o meu outro apelido lá da escola. Aliás, pra agradar a senhora, vou confessar uma coisa. Mas fica só entre nós, viu? (Porque senão a turma da escola cai de gozação em cima de mim...) Pssssssssssiu! Chega o ouvido aqui: quando eu crescer, também quero ser um re-presidento... Dá pra senhora me dar umas dicas de como é que se faz pra chegar até aí? Obrigado, desde já, pela sua ajuda. E prometo que, quando eu for re-presidento, eu respondo as suas cartas, viu?


(*) Autor de “A Noite é um Circo sem Lona” (Editora RHJ). 

antonioba@uol.com.br | facebook.com/antonio.barreto.12139 

 

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