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Quinta, 15 de outubro de 2015

Cidades mais verdes

Importantes para o microclima de um município, as árvores são uma estratégia sustentável para amenizar impactos ambientais e a artificialidade do concreto, trazendo mais beleza e harmonia ao meio urbano

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Entenda por que este elemento da natureza é essencial para garantir a qualidade de vida nas cidades. E conheça também algumas das espécies mais utilizadas nos projetos paisagísticos - Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entenda por que este elemento da natureza é essencial para garantir a qualidade de vida nas cidades. E conheça também algumas das espécies mais utilizadas nos projetos paisagísticos - Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2050 mais de 70% da população mundial estará vivendo em cidades. Para isso, é fundamental que elas estejam cada vez mais preparadas para oferecer serviços básicos e, principalmente, ambientais, incluindo desde espaços verdes para lazer e contemplação da natureza até a preservação dos recursos naturais que garantam a sobrevivência das pessoas.

Nesse sentido, a implantação e o manejo da arborização nas cidades vem se tornando um aliado importante para a melhoria do microclima. E contribuem para que zonas urbanas não se tornem ilhas de calor – quando as atividades humanas, a grande quantidade de construções e a baixa densidade de material que possa refletir os raios solares nesses locais colaboram para o aumento da temperatura.

As árvores são um bem público. E para realizar seu plantio e manutenção correta é preciso planejamento. Para que uma árvore possa se desenvolver bem na cidade, uma vez que seu ciclo de vida pode ser reduzido por causa de características como forte insolação, solo alterado e iluminação artificial, deve-se avaliar boas condições para ela receber luz (energia solar), dióxido de carbono, água e minerais em quantidades necessárias. E, claro, avaliar o local de plantio tendo em vista o tamanho que cada espécie pode atingir, uma vez que o crescimento se dá de forma longitudinal (alongamento de ramos e raízes); e lateral, observando-se o aumento do diâmetro do tronco.

Segundo o “Manual de Arborização”, elaborado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) com coordenação da Fundação Biodiversitas, os aspectos biológicos e morfológicos são os primeiros a serem considerados. “Uma árvore é um vegetal lenhoso (que produz madeira), com ciclo de vida prolongado, tronco e copa bem definidos. Possui, no mínimo, cinco metros de altura, com diâmetro de tronco a partir de cinco centímetros à altura do peito e 1,30 m acima do solo”, define a cartilha.

Planejando a arborização

Imagem: Arolldo Costa Oliveira

Há vários parâmetros a serem seguidos para a seleção das espécies arbóreas que irão compor as áreas verdes (parques, praças e jardins) e a arborização viária (canteiros separadores de avenidas e passeios) de uma cidade. Para isso, considerar as árvores já existentes é o primeiro passo. Mesclar várias espécies é importantíssimo, mas há espaços, por exemplo, em que plantar um único tipo é mais indicado, pois isso facilita o planejamento de intervenções e dá efeito paisagístico. Entre as espécies mais utilizadas no paisagismo urbano estão o ipê- amarelo (Handroanthus serratifolius), a tipuana (tipuana tipu) e a quaresmeira (Tibouchina granulosa).

“Sempre que possível”, informa a cartilha, “deve-se privilegiar espécies que produzam copas expressivas, proporcionando conforto ambiental às áreas; diversificadas, considerando diferentes épocas de floração e frutificação, o que favorecerá a paisagem e a presença da fauna; optar por espécies nativas da flora brasileira; com folhagens que criem sombreamento excessivo; e resistentes a pragas e doenças”.

Deve-se evitar, ainda, o plantio de árvores de baixa resistência, porte excessivamente grande em passeios e que contenham flores e frutos venenosos. Não é recomendado plantar também perto de sacadas e varandas e da rede elétrica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a área verde por habitante em uma cidade deve ser de 12 m2. Para termos centros urbanos ecologicamente mais harmônicos e com suas árvores preservadas, é importante também que os órgãos públicos de planejamento e de meio ambiente atendam corretamente à legislação específica, elaborando projetos paisagísticos adequados. Realizem vistorias periódicas nas espécies arbóreas existentes, removendo os exemplares com risco de queda ou doentes, e ainda façam a irrigação e as técnicas necessárias para a correta manutenção do solo, garantindo assim a saúde da vegetação.

A população também pode ajudar. É papel de todos preservar o meio ambiente urbano para garantir mais qualidade de vida e continuarmos vivendo em harmonia com a natureza!

 

Imagem: Everson Bressan/Fotos Públicas

Por que plantar árvores nas cidades?

Elas contribuem para a estabilidade do clima.

Trazem conforto térmico associado à umidade do ar e à sombra.

Melhoram a qualidade do ar.

Reduzem a poluição.

Melhoram a infiltração da água no solo, evitando erosões associadas ao escoamento superficial das águas das chuvas.

Contribuem para a proteção dos corpos d’água, do solo e o direcionamento do vento.

Contribuem para a conservação genética da flora nativa.

Concedem abrigo à fauna, equilibrando as cadeias alimentares e diminuindo pragas e agentes vetores de doenças.

Formam barreiras visuais e sonoras, proporcionando privacidade aos habitantes e ambientes.

Funcionam como elementos referenciais marcantes para a população.

Embelezam a cidade, proporcionando prazer estético e bem-estar psicológico.

Contribuem para a melhoria da saúde física e mental dos moradores.


Quanto vale uma árvore?

Considerando o grande potencial das árvores em minimizar os efeitos negativos que ocorrem no meio urbano, para atribuir um valor monetário a elas também é preciso levar em consideração quanto melhor ou pior estará o bem-estar da população com as alterações de bens e serviços ambientais que as árvores podem oferecer. Para isso, é preciso:

Avaliar o patrimônio que a cidade possui relativo à sua arborização.

Estabelecer multas por danos causados às árvores.

Estabelecer indenizações, deduções e/ou isenção de impostos e taxas como resultados de ações punitivas ou compensatórias.

Estimar um seguro, seja da própria árvore ou da propriedade relacionada com a presença da árvore no imóvel.

Mensurar os benefícios e custos dos programas de arborização na busca de recursos orçamentários.

Valorizar um imóvel, com consequente aumento do patrimônio real de seu proprietário, do corretor e dos envolvidos.


Fique por dentro

Cidades mais arborizadas

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No Censo de 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elaborou um ranking com os índices de arborização em todas as cidades brasileiras. Para isso, os agentes observaram a quantidade de árvores na rua (quadra) onde estava o domicílio e, se existissem, se elas estavam próximas
à residência:

Das quinze cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes, Goiânia ocupou a primeira posição, com 89,5% das ruas arborizadas. Na sequência estão Campinas (SP), com 88,4%; Belo Horizonte (MG), com 83%; Porto Alegre (RS), com 82,9%; e Curitiba, com 76,4%. Na lanterna do ranking, ficaram Manaus (AM), com 25,1%; e Belém (PA), com 22,4%.

Entre as cidades com menos de um milhão de habitantes com maior percentual de domicílios com árvore por perto estão Victor Graeff (RS), com 99,8%; Vitória Brasil (SP), com 99,6%, Almirante Tamandaré do Sul (RS) e Alvorada do Sul (PR), com 99,7% e Analândia (SP) com 99,6%.

Paraná é o estado brasileiro com cidades com maior índice de arborização: são 146 municípios com mais de 95% de ruas arborizadas. A média do estado (77,1%) também superou a nacional (67,4%).


Fontes/pesquisa bibliográfica

“Manual de Arborização”, Cemig/Fundação Biodiversitas; BBC; Revista Nature; “Características das Ilhas de Calor em Cidade de Porte Médio: Exemplos de Presidente Prudente (Brasil) e Rennes (França)”, de Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim, Vincent Dubreuil, Hervé Quenol e João Lima Sant’Ana Neto/ Universidade Estadual de Londrina.

Saiba mais

Três perguntas para Benedito Abbud, arquiteto paisagista, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela USP

Que avaliação o senhor faz dos projetos paisagísticos das cidades brasileiras hoje?

O ideal é que as cidades tenham mais parques lineares e sejam planejadas contemplando calçadas mais largas, onde se possa plantar mais árvores e arbustos. Atuo em muitas cidades contemporâneas brasileiras, como São Paulo, com o objetivo de garimpar espaços e oportunidades para implantar projetos de paisagismo com vegetação mais exuberante. É muito importante resgatar a proximidade das pessoas com a natureza, em especial no caso dos habitantes de centros urbanos fortemente adensados, onde o aumento da presença do verde pode proporcionar mais sombra, mais beleza e uma série de benefícios socioambientais - como melhora da qualidade do ar, conforto térmico e acústico, além de proporcionar lindos visuais na paisagem urbana. Em meus novos projetos, procuro adotar soluções para minimizar os efeitos das ilhas de calor nas cidades. Os muros, por exemplo, podem receber jardins verticais e as coberturas, por sua vez, telhados verdes.

 

Como a arborização urbana pode contribuir para uma temperatura mais amena?

Nesse sentido, ela é fundamental, porque 90% das cidades brasileiras são de clima predominantemente quente. Por outro lado, há uma questão cultural que precisa ser transformada. Em diversas cidades brasileiras, muitas localizadas no interior, as pessoas ainda acham que plantar árvore pode ser sinônimo de “sujar o quintal”. Esquecem de lembrar que folhas que caem no chão fazem parte de um processo da natureza. Muitas dessas pessoas, inclusive, adoram ir a Paris contemplar as lindas alamedas de árvores que existem na Cidade Luz. Gostaria de ressaltar que a arborização é fundamental porque traz vários benefícios: estabiliza a temperatura, nutre o solo com água regulando o ciclo hídrico, e consequentemente, das chuvas, melhora a umidade e diminui a poluição por partículas, como poeira. Os jardins verticais também são uma boa opção. Neste caso, existem diversos tipos de soluções, desde as mais acessíveis, como trepadeiras (falsa-vinha e unha-de-gato), até sistemas que envolvem tecnologia mais avançada. Também há a questão estética que a arborização proporciona: ela harmoniza a paisagem urbana, traz flores, beleza para a cidade. E isso gera dignidade, pois todo mundo gosta de morar em um lugar bonito.

 

De que forma as pessoas podem colaborar para a manutenção de um urbanismo mais sustentável?

Plantando mais árvores, preservando o verde.  É preciso ter natureza nas cidades e as escolas têm um papel importante nisso. Recentemente, fizemos um levantamento da vegetação municipal em São Paulo e existem locais em que há pouquíssimas árvores, o que resulta em muita aridez. E descobrimos que nesses pontos da cidade, geralmente, tem uma instituição de ensino perto, que fez o plantio dessas poucas árvores que lá existem exatamente para celebrar uma data ecológica, tal como o “Dia da Árvore”. As pessoas precisam seguir esse exemplo, plantar nos quintais, que ainda são pouco usados. Principalmente frutíferas, que atraem pássaros, dão sombras e frutos. Outra dica é estimular as crianças a adotarem uma árvore, plantando-a em casa e dando seu nome a ela. Aí você cria uma identidade forte com a natureza, em que se pode cuidar e ajudar o meio ambiente a se desenvolver. Isso só traz benefício para todos.

Saiba mais:

www.beneditoabbud.com.br

 

 

 

 

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