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Quarta, 14 de outubro de 2015

Cultivando a esperança

A Ecológico revisita a experiência hídrica de Itaipu Binacional, recém-adotada em Minas e já em estudo para o Sistema Cantareira, em São Paulo

Hiram Firmino - De Foz do Iguaçu (PR) redacao@revistaecologico.com.br



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O corredor de biodiversidade em maio às culturas de Snata Maria (PR): a volta do verde e da água - Imagens: Alexandre Marchetti

O corredor de biodiversidade em maio às culturas de Snata Maria (PR): a volta do verde e da água - Imagens: Alexandre Marchetti

Meia dúzia de anos depois, voltamos a Foz do Iguaçu, na região oeste do Paraná. Fomos conferir os resultados do programa “Cultivando Água Boa”, recém-eleito, com o prêmio “Water for Life 2015”, da ONU Água, a melhor prática de gestão de recursos hídricos do mundo. E que será homenageado hors concours  no Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza 2015.

A visita integrou o “I Encontro de Experiências Pioneiras e Inovadoras de Iniciativas Sociais na Gestão da Água – Criando uma Rede Global”, que reuniu autoridades e representantes de 18 países, com 11 outros projetos também premiados pela ONU ao longo da “Década da Água”, em busca de uma rede mundial de soluções a serem compartilhadas. E,  assim, fazer frente à crise hídrica planetária.

Ao final do encontro, a esperança se fez presente com o “Cultivando Água Boa”, um conjunto de 20 subprogramas, que já acontece em 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná – Parte 3, abrangendo um território de 800 mil hectares e um milhão de habitantes, situados no entorno do reservatório de Itaipu.

Ao todo, são 217 microbacias hidrográficas que contam com diversas ações e técnicas para a proteção e recuperação de suas nascentes e cursos d’água, com iniciativas voltadas a novos meios de produção agrícola e animal,  consumo, conservação da biodiversidade e educação ambiental. Além de atenção especial a segmentos socialmente vulneráveis como indígenas, agricultores familiares, pescadores e catadores de materiais.

Uma esperança, enfim, que pode e está sendo reaplicada em outros países e estados brasileiros, a exemplo de Minas e São Paulo (leia mais a seguir), como um modelo simples, inclusivo e possível de sustentabilidade hídrica para o mundo, vasto mundo, também poetizado por Carlos Drummond de Andrade.

Acompanhe!

Começando pelo corredor

Observado por  Nelton Friedrich ao fundo, o cacique Daniel dá as boas vindas à diretora do “Programa Década da Água”, da ONU, Josefina Maestu: parceria mundial

É terça-feira, 15 de setembro, oito dias antes da entrada da primavera. Faz um calorão danado na próspera e fervente Foz do Iguaçu. A van que leva os jornalistas para conhecer um ecológico “corredor de biodiversidade” implantado no município vizinho de Santa Maria, com 22 mil habitantes, passa ao lado do Parque Nacional das Cataratas do Iguaçu, a maravilha da natureza mais molhada do mundo, com um total de 183 mil hectares de florestas resilientes. Do lado brasileiro, são 123 mil hectares de árvores e cursos d’água preservados, a maior reserva de Mata Atlântica do sul do país.

A van deixa o asfalto e segue por estradas de terra nada convencionais. Todas elas também são ecologicamente preparadas; mais altas que o chão, para reter a água da chuva e evitar erosão nas suas margens e terrenos afora. As plantações também são diferentes. Não se vê mais um só trator arando o solo sagrado da natureza ali. Mas, sim, as palhas todas do milho já colhido deixadas no chão, também modelado sobre curvas de nível. É para manter a umidade, aumentar e preservar os nutrientes orgânicos naturais. Uma prática chamada de cultivo direto.

Quem nos recebe efusivamente, em meio às outras lavouras plantadas a colorir a paisagem, é o coordenador do “Programa Cultivando Água Boa”, Nelton Friedrich:

- “Estão vendo esse corredor ecológico que conseguimos implantar aqui, fruto do convencimento junto aos proprietários da terra, hoje nossos parceiros? Ele tem 200 metros de largura, em média, e se une a outros corredores, perfazendo uma linha reta de vida, fauna e flora com 1,34 mil quilômetros de extensão. Equivalente a irmos e voltarmos de Vitória, no Espírito Santo. Isso significa religar a fauna e flora do Parque Nacional das Cataratas até Ilha Grande, no litoral fluminense. Religar as matas ciliares do reservatório implantadas na década de 1970, durante a construção da hidrelétrica de Itaipu, até o que resta de vida natural no Morro do Diabo, em São Paulo.”

Nelton continua lembrando o poder único e agregador da água:

- “Estamos falando de biopolítica. A gente só consegue isso tocando, de maneira convincente, as mentes e os corações das pessoas envolvidas. Não há outro caminho. Elas têm de compreender que salvar ou fazer rebrotar um filete de água em suas propriedades faz parte de uma nova cultura de paz no planeta. Paz para água e água para a paz.”

O prefeito de Santa Terezinha, Cláudio Eberhard, já no seu terceiro mandato, fala do desafio persistente que é mudar a cultura local e o comportamento dos fazendeiros para que eles assimilassem a importância socioambiental do corredor de biodiversidade. E, assim, cedessem parte de suas propriedades para o replantio de árvores e a recuperação conjunta das suas microbacias:

- Só temos de agradecer. Em particular, aos nossos jovens que, há 20 anos eram crianças e nos ajudaram a replantar as árvores hoje também já crescidas e cumprindo sua função ecológica. Nosso município já recolhe e recicla 90% das embalagens de agrotóxicos. Nossos resíduos sólidos não passam mais nas mãos de atravessadores, que escravizavam a população. Graças a Itaipu, aqui nós os abolimos. Quarenta famílias, e não mais a prefeitura, através da associação local de catadores, é quem separa e recicla todo o lixo da cidade. Temos água potável saindo 100% de nossas torneiras. Isso, quando até pouco tempo, mais de 80% dos nossos poços rasos estavam contaminados. Enfim, não podemos desistir nunca da esperança. Santa Maria também aposta e cultiva a cultura da sustentabilidade.

Quem mais faz perguntas técnicas, não à-toa, são os representantes de países africanos. Simples, eles também são os que mais sorriem, como os representantes da ONU, satisfeitos com as respostas ali praticadas. De volta à van, fomos conhecer outras experiências bem-sucedidas.

Cultivando sustentabilidade

A "COP-21" do seu Arruda, mostrando o antes e o depois de sua propriedade: "Eu fiz o verde e as águas voltarem"

O calor só aumenta. Estamos chegando à propriedade de produção orgânica de Luis Antonio Arruda, o seu Arruda, como é mais conhecido, onde vamos almoçar comida natural. Ele e outros 175 pequenos assentados rurais são assistidos pela Associação dos Produtores Rurais de São Miguel do Iguaçu (Aprosmi). Na contramão do uso dos agrotóxicos em larga e criminosa escala, 35% de todos os alimentos que produzem, do mel à merenda que é servida nas 22 escolas da região, são totalmente orgânicos. Não fazem mal à saúde humana e ainda são subsidiados, via prefeituras, pelo Ministério do Desenvolvimento Social, através da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ou seja, os pequenos agricultores familiares são remunerados e estimulados a prosseguir na luta desigual contra os grandes ruralistas, mecanizados e munidos de biocidas químicos.

O que também faz mal comer está denunciado pelas nutricionistas e professoras locais numa mesa ao lado. São vários produtos primários e manufaturados que, mesmo condenados pelos médicos, a maioria da população brasileira, incluindo as escolas e seus alunos, ainda consome. Entre eles, doces, salgados, refrigerantes e outras guloseimas.

Antes de entrar no sítio do seu Arruda, fomos recebidos por indígenas de uma das cinco comunidades da etnia guarani com alta vulnerabilidade social no oeste do Paraná. Elas também são apoiadas pelo “Cultivando Água Boa”. Cada visitante recebe um colar de sementes, ouve e é envolvido pelo seu cantar e dançar de boas-vindas.

Segundo Nelton, quando o programa começou na região, as poucas comunidades avá-guarani ali existentes estavam ameaçadas de extinção, pelo alto índice de mortalidade infantil. Somente na comunidade Ocoy havia 35 crianças subnutridas, uma delas no CTI por fome crônica: “O maior indicador que temos é que, antes ameaçadas de extermínio, essas famílias assistidas hoje têm seis filhos em média. E, claro, nenhum caso mais de subnutrição. Pelo contrário, até frequentar casas de reza e escolas bilíngues elas têm direito, além de outros benefícios médico-sociais e de inclusão cultural.

 

Desfile verde

O desfile de bons resultados tem início. Graças a um arranjo produtivo local, os agricultores, adeptos da agricultura familiar, também foram estimulados a se apostarem na fitoterapia. Por isso já plantam, colhem, consomem e vendem uma média de 40 tipos diferentes de plantas medicinais no mercado de São Paulo. Outros 87 tipos são produzidos, como matrizes nem tanto comerciais, no horto de Itaipu. São remédios advindos diretamente da natureza, indicados para os casos de hipertensão, diabetes, tabagismo, cárie, depressão e outras patologias.

Para quem não sabe, o segundo agrupamento humano que mais comete suicídio hoje no Brasil, depois dos índios, é formado principalmente por jovens que trabalham no campo. Contaminados pelos agrotóxicos que aplicam, eles têm o seu sistema nervoso central afetado de maneira irreversível, o que depois aparece na forma de depressão continuada, levando-os ao autoextermínio.

As professoras, nutricionistas e técnicos agrícolas que assistem as comunidades locais exaltam com fé: “Essa é a diferença. Por  meio das plantas medicinais e de outros saberes culturais, aqui nós tratamos a pessoa e não a doença. A fitoterapia é preventiva, mais barata e acessível. O capim-limão brasiliense é tido como campeão nessa disputa inglória com os remédios alopáticos da indústria farmacêutica convencional. E, asseguram os profissionais, previne até 78% de diferentes tipos de câncer”.

Milagre dos peixes

Os pesqueiros de tilápia e pacus: emprego e renda nas águas públicas de Itaipu

O próximo testemunho é dado pelo pescador Estevão Martins, de 48 anos, morador de Foz: “Hoje eu não pesco mais. Eu produzo peixes nas águas públicas de Itaipu, em vez de retirá-los da natureza. Isso me honra muito. Ser um produtor responsável, sustentável. Saber que vou deixar para os meus filhos algo melhor que tive na vida, em termos de opções de trabalho, consciência ecológica e qualidade de vida”.

Estevão também pesca uma esperança ampliada. Ele tem dois filhos, um formado em desenvolvimento rural. E outra em comunicação e marketing. O destino tradicional deles seria deixar a roça, o campo improdutivo e pouco assistido, dar adeus à família e tentar a sorte na cidade. Mas eles não vão mais seguir este roteiro da história agrária brasileira.

Graças ao sucesso de criação e vendas de peixes, tilápias e pacus, conseguido pelo pai, eles resolveram aplicar seus conhecimentos no próprio negócio da família, ajudando-o se tornar uma empresa de fato no chamado mercado mais saudável de carne branca.

Recado final

O agricultor politizado mostrando suas técnicas alternativas: "Hoje eu sou um homem-andorinha atuando no coletivo"

A última mensagem é dada, de forma emocionante, pelo seu Arruda. Ele fez curso de agricultura orgânica, conhece e também não aplica mais agrotóxicos em sua pequena propriedade de 4,7 hectares. Quando a adquiriu, em 2003, quase não havia nada, nem de natureza nem de plantação. Graças à assistência técnica conseguida via Itaipu, a sua vida mudou. Hoje ele ganha quase R$ 20 mil por mês, graças à multiplicidade do que faz: planta e vende hortaliças e frutas. Produz, congela e comercializa sucos de 40 tipos diferentes de frutas preservando 100% das colheitas. Ainda fornece refeições típicas e saudáveis da região a quem visita o programa, como representante voluntário do turismo rural receptivo.

- “Já fui chamado de louco pelos meus vizinhos, por ter aderido ao programa de Itaipu. Eles diziam que não ia dar certo eu mexer com plantação de produtos orgânicos, sem usar veneno e seguir técnicas alternativas. Até hoje não entendem porque virei um próspero sitiante, não tenho falta d’água nem preciso de mais espaço para plantar o que consigo. Tenho orgulho e amor no que faço. E minha propriedade fica cheia de visitantes de todas as partes do Brasil e do mundo que vêm aqui para aprender com o que fazemos. Hoje eu sou como o ‘Cultivando Água Boa’, um homem-andorinha atuando no coletivo.”

- Como assim? - pergunto.

- “É o que sempre o pessoal de Itaipu nos dizia no início do programa. Que uma só andorinha não faz verão. Mas um conjunto associado delas, sim. Eu mesmo tive muita dificuldade, no início, para colocar na minha mente que é possível fazer uma agricultura diferente, ecológica, que não agrida o meio ambiente, que respeitando e protegendo a natureza, o troco de Deus é certo.”

A revolta de seu Arruda, ele não consegue esconder, é quanto a alguns vizinhos seus, que ainda não aderiram ao programa e continuam isolados numa prática antiga, aplicando agrotóxicos em suas propriedades:

- “Não acho isso certo não. Quem tinha de fazer uma barreira de árvores para evitar a chegada do veneno pelos ventos aqui nas nossas plantações livres de produtos químicos, tinha de ser eles, e não nós.”

Politizado e crítico, ele agora nos convida para conhecer o que ele ama e gosta de mostrar: a sua agricultura ecológica, onde, em se plantando junto ou separado, toda e qualquer espécie de legumes, frutas ou flores prospera a olhos vistos, sem necessidade de veneno. Andar no seu sítio é o mesmo que andar num jardim agrícola improvisado de tudo. E de propósito.

Ele vai mostrando e explicando, pelo trajeto: é cravo-de-defunto entremeando os pés de goiabeira, para evitar o surgimento de uma praga que aprodece suas raízes. É feijão guandu plantado nos pés de uva, em parreirais já secas, intencionalmente para as futuras ramagens subirem nelas. São bananeiras plantadas entremeadamente para dar sombra ao cultivo de palmito. É todo tipo de folhas secas não recolhidas. Mas deixadas igualmente no chão para manter a umidade e se transformar em adubo orgânico natural. São pés de mamonas, cujos talos e folhas são usados para combater as formigas. E por aí afora, embelezado por um roseiral também misturado e lindíssimo. A descontinuidade feia e nada estética dos canteiros tem o propósito de confundir a visualização dos insetos.

- “Tão vendo esse pé de caqui-chocolate aqui? Vocês não vão acreditar. Uma árvore como esta me dá uma receita de R$ 300 ao ano. Posso reclamar de quê se a natureza é nosso maior doutor e parceiro?”

Nem tudo, porém, é alegria na vida desse homem-propaganda de Itaipu. No final da visita ao seu diversificado e frutificado pomar, seu Arrudas arranca uma ramagem de Santa Bárbara, uma espécie vegetal que tanto fornece madeira e lenha na roça, quanto produz uma substância repelente natural, que espanta a praga chamada “vaquinha do feijoeiro”. Ele a mostra, com pesar, pra gente. As folhas já estão retorcidas nas pontas. É como se algo estranho as fizesse encolher em si mesmas.

O agricultor ainda lembra, com mais tristeza nos olhos, do “24D”. Trata-se de um esfoliante químico semelhante ao “agente laranja” que os Estados Unidos lançaram nas florestas do Vietnã, para fazer murchar as folhas das árvores e os vietcongues serem vistos e mortos depois, com bombas de napalm.

Seu Arruda abraça o tronco de um cedro gigante que produz muita sombra e alivia o calor escaldante. Ele faz as contas de si mesmo, da sua idade e de seu destino no planeta:

- “Eu já estou com 45 anos, o que significa que terei mais 15 anos de saúde pela frente para tocar essa minha propriedade de maneira sustentável. Até lá, como tenho constatado ano a ano, o clima só vai piorar, haja vista que as boas chuvas que continuam ocorrendo ainda muito regular aqui, já não encharcam o solo como antigamente. É muito sol secando a terra, aumentando e acelerando a infiltração da água.”

- Qual é o seu sonho, então?

- “É poder plantar mais árvores para dar mais sombra na minha propriedade e melhorar a umidade natural. E, assim, com mais conforto e qualidade de vida, meus descendentes poderem assistir e enfrentar melhor as mudanças climáticas, esse tal de aquecimento global.”

A visita termina. Estamos deixando a propriedade de seu Arruda. Ele tem razão. A cortina de árvores, principalmente pinus, que ele implantou na divisa de seus terrenos com os vizinhos que aplicam agrotóxicos, pouco impede a chegada destrutiva deles pelo ar.

- “Esse veneno não é meu! Tá certo isso? Por que a bancada ruralista não olha isso, estuda uma solução qualquer pra gente, lá em Brasília?”

A van retoma a estrada até um mirante panorâmico no município de Itaipulândia, de onde se avista o grande e maior reservatório do mundo. Ali, debaixo da estátua gigantesca de Nossa Senhora Aparecida, é possível vislumbrar a quantidade de terrenos cultivados de maneira ecologicamente correta, margeados por faixas de florestas nativas ou plantadas que os protege e faz a água brotar novamente.

De volta a Foz, a memória de seu Arrudas, reclamando do veneno no campo, não me sai da cabeça. Nem a canção “The Monsanto Years”, de Neil Young, que a Ecológico reproduz na página 94. Os versos que mais doem são:

“Seu próprio filho doente cresce perto das culturas envenenado enquanto eles trabalham./ Não me importa agora quando a Bíblia diz que há muito tempo./ Dai-nos o nosso pão de cada dia e não nos deixe com a Monsanto./ As sementes da vida não são o que antes eram./ A Mãe Natureza e Deus não as possui mais”

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Recado do mundo

Rede de boas práticas da ONU impulsiona a nova “Década da Água”

A necessidade de renovar e ampliar os esforços para a preservação dos recursos hídricos foi um dos principais pontos relatados pelas autoridades internacionais presentes (foto). Embora tenha havido avanços durante a “Década Internacional para a Ação Água, Fonte de Vida”, ou simplesmente “Década da Água (2005-2015)”, várias das metas estabelecidas não foram alcançadas. “Conseguimos, por exemplo, reduzir pela metade o número de pessoas que não têm acesso à água potável. O contingente atual é de 750 milhões. Mas falhamos na meta de serviços sanitários. Nada menos que 2,5 bilhões de pessoas ainda não contam com eles no planeta”, afirmou o representante do Ministério das Relações Exteriores do Tadjiquistão, Idibek Kalandarov.

O Tadjiquistão é integrante do G77, formado pelas 77 nações mais pobres do planeta, e foi o propositor da “Década da Água”. Entre as principais dificuldades encontradas no período estão a pouca coordenação entre os governos e a falta de transferência tecnológica dos países mais desenvolvidos para os em desenvolvimento.

Segundo ele, a nova temática da “Década” deverá ser “Água para o desenvolvimento sustentável”, o que contribuirá, também, para colocar ênfase no cumprimento do item 6 dos “Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, definidos na Conferência Rio+20, que é assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos.

Nesse contexto, disse, a criação de uma rede das melhores práticas globais de gestão de água será um instrumento de “importância fundamental”.

A opinião é compartilhada por Leo Saldanha, representante do Environment Support Group, de Bangalore, Índia. Ele representa uma das 11 iniciativas premiadas pela ONU e que vem viabilizando a proteção de lagos no sul do país. “As soluções que receberam o prêmio 'Water for Life' podem parecer simples, mas carregam profunda sabedoria ecológica.”

Para Blanca Jiménez Cisneros, vice-presidente da ONU Água, mecanismo de coordenação do tema dentro das 30 organizações que compõem o sistema da Organização das Nações Unidas, a rede que está sendo criada terá como princípio facilitar a participação das pessoas de várias formas, como indivíduos, instituições e ONGs.

“É importante que as pessoas tenham conhecimento sobre a problemática global da água, mas é somente se elas assumirem responsabilidades e atuarem localmente é que esses problemas serão tratados. Se tomarmos, por exemplo, a questão das mudanças climáticas, aqueles que estão provocando os desequilíbrios não são os mesmos que estão sofrendo as consequências. Então, é preciso identificar e envolver os responsáveis”, completou Blanca.

Perguntada sobre como, então, é possível envolver as pessoas, que muitas vezes esperam uma solução por parte dos governos ou agências internacionais, ela respondeu que os comunicadores e meios de comunicação têm um papel fundamental nesse processo. “As pessoas que criam esses bons projetos de gestão da água têm um enfoque técnico. Os políticos, muitas vezes, não têm credibilidade. Então, muito do trabalho da rede será focado na comunicação das boas práticas.”

 

S.O.S Cantareira

Como Minas, governo paulista também deverá adotar o programa

O Reservatório de Itaipu com as matas ciliares de volta e preservadas: é possível!

Durante o evento, o diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, confirmou que o programa “Cultivando Água Boa” (CAB) também deverá ser adotado pelo governo do estado de São Paulo para proteger os reservatórios do Sistema Cantareira. A proposta foi feita após uma conversa com o secretário de Recursos Hídricos de São Paulo e o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, como uma estratégia importante para combater a escassez de água que acomete os paulistanos.

“O Benedito já conhece o CAB e afirmou que irá acertar uma cooperação com Itaipu para levar a iniciativa para lá. Evidentemente, ainda há um caminho a ser percorrido para se firmar essa cooperação e para se criar uma articulação com os programas e recursos que já existem”, afirmou Andreu.

 “O CAB é uma experiência única em termos de resultados, que são muito consistentes. É claro que, para ser aplicado na Cantareira, que tem as margens bastante devastadas, tem que se ter em vista um horizonte de longo prazo. Não é porque hoje se plantam algumas mudas para recuperar as matas ciliares que se deve esperar um aumento do nível dos reservatórios amanhã. Mas é um trabalho complexo que certamente passará pela proteção das nascentes”, disse Andreu.

Para ele, um dos pontos fortes do programa está na gestão compartilhada e no envolvimento das comunidades na condução das ações. “Não adianta os órgãos reguladores dizerem o que a sociedade tem que fazer. É a sociedade, como no CAB, que tem que dizer o que precisa ser feito”, completou.

Na opinião do diretor da ANA, as demais hidrelétricas no país deveriam seguir o exemplo de Itaipu, que reflorestou todo o redor do seu reservatório, trazendo a biodiversidade de volta: “Infelizmente, em sua maioria, elas ainda mantêm suas margens degradadas, sem matas ciliares nem replantio de árvores”.

 

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