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Terça, 06 de outubro de 2015

Néctar da vida

Déa Januzzi * - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Josch13/Domínio Público

Imagem: Josch13/Domínio Público

Ela tem uma estranha mania: não pode receber rosas vermelhas de presente. Começa a coçar o corpo todo, fica toda empolada. A língua engrossa, as mãos se agitam. Ela, então, tira pétala por pétala, despedaça a rosa com fervor, quase em êxtase, e come uma por uma, como se degustasse um pão com manteiga.

A mania de comer rosas começou no dia em que o pai dela morreu. No velório, para fugir da dor que começava na ponta dos pés, subia pelo estômago, invadia o coração e arrepiava os cabelos, ela fixava os olhos nas corbelhas de rosas, até ver nuvens de pétalas. Sem olhar para os lados nem para frente, ela se perdia entre o mar de rosas vermelhas e a agonia de ter perdido o pai. Sem entender a ânsia de voar até as rosas, ela se escondeu atrás de uma corbelha e puxou a primeira rosa. Esgueirando-se dos presentes no velório, ela foi se esconder no banheiro com uma rosa inteira. Sem entender bem, começou a devorá-la, pétala por pétala, com uma fome nova, dessas que deixam um buraco no estômago e na alma.

Comeu a rosa inteira, num ritual de deixar qualquer um boquiaberto. Farta de rosa, saiu do banheiro plena, perfumada, adocicada, sem aquela angústia que adormecia todas as partes do corpo dela. A rosa foi um bálsamo, como se depois de devorá-la tivesse trapaceado a morte e a dor. Conseguiu sobreviver, então, até o final, com aquela sensação de que as rosas queriam dizer algo mais. Seguiu o féretro. Viu cada rosa descer sobre a sepultura, em sinal de despedida, de amor, de respeito. Os olhos pingaram de dor, os gritos cortaram o ar, pois não existe nenhum adeus pior do que o da morte.

Dias depois, ela continuava com aquele estranho desejo de comer as rosas que recebia de presente, em aniversários, datas importantes. Não importava de onde e de quem viessem as rosas. Ela adorava recebê-las, em sinal de amor, de comemoração, de felicitações, de bem-querer. As rosas são como chocolates, servem de presente quando não se sabe o que oferecer ao outro. Não são personalizadas. Parecem ser a melhor opção para agradar alguém que não se conhece.

Uma flor roubada pode dizer mais do que mil palavras. É melhor do que cartão, é como beijo roubado, surpreendente. Quem sabe do outro, se está de dieta ou não, se prefere um convite para jantar no japonês, se é a presença que agrada mais do que o próprio presente, ninguém sabe como presentear pessoas que não são íntimas. Vem sempre esse negócio de flor e chocolate, como se todas as mulheres agradassem desses presentes tão impessoais.

Mas ela quer dizer que há muito tempo não come rosas. Passou boa parte da vida devorando pétalas para espantar a dor de ter perdido o pai, mas hoje só come flor em dias muitos especiais, como o “Dia Internacional da Mulher”, em que as flores surgem do nada, só para marcar uma data. Aí, ela pensa, olha para a rosa e tem vontade de devorar uma por uma, para deixar de sentir tanta dor escondida no peito. 

Aí, tudo volta. Ela lembra que a dor é vermelha e tem cheiro de flor. Ela sente no corpo toda a dor de ter perdido o pai em meio a tantas rosas. E devora, sem pensar, cada pétala, como se pudesse sugar o néctar da vida.

 

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