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Terça, 06 de outubro de 2015

Mil-em-rama

Planta tem efeito analgésico e também é conhecida como novalgina

Marcos Guião * redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Marcos Guião

Imagem: Marcos Guião

Viver na roça muitas vezes significa se tornar um faz-tudo em pequenos reparos do dia a dia. Numa dessas, resolvi lixar um antigo móvel na esperança de melhorar sua aparência. Consegui uma lixadeira elétrica emprestada e lá fui dar jeito na coisa transvestido de marceneiro. Num demorou minutos e tomei uma ralapada por riba do dedo indicador da mão esquerda, que me deixou sem assunto e descabeceado com a tanteira da dor.

Quando olhei, a pele tinha sumido e, no lugar, tava branco. Era o osso! Mas quase imediatamente deu de brotar uma mina de sangue ardido que queimava feito brasa. Tive de interromper a faina e saí na busca de recurso para estancar meu sofrimento.

Ao passar ao lado da horta, já colhi um maço das folhas de mil-em-rama (Achilleia millefolium), piquei miúdo, despejei dentro de um pilão e soquei.

Aos poucos foi brotando o sumo, que aumentei com um tiquim de água filtrada. Numa gamelinha à parte, coloquei uma colher de argila, abrindo no meio como se fosse fazer uma massa de pedreiro. Despejei ali o sumo da planta, misturei bem até virar uma pasta homogênea e maleável, envolvendo meu dedo naquela mistura. Ufh! Que alívio... A queimação aos poucos foi desaparecendo com a friagem da argila e a ação analgésica da mil-em-rama, também chamada de mil-folhas e de novalgina, devido justamente a essa propriedade de aliviar os quadros de dor. Me deitei na rede da varanda e fiquei remoendo as muitas vezes em que usei esta planta nos casos de dor intensa.

Certa vez, meu filhote Chico saiu pelo quintal com uma varinha cutucando tudo que via, até se dar numa touceira de bromélia. Deu uma varada numa delas e de lá saiu uma ruma daqueles marimbondos da bunda amarela, que lhe aplicaram meia dúzia de doloridas pregadas. Berrando, Chico veio pelo quintal me mostrando o braço cheio de calombos avermelhados enquanto grossas lágrimas desciam pelo rosto e ele tentava me falar alguma coisa ininteligível.

Imediatamente compreendi a situação, e o conduzi até a touceira de mil-em-rama, onde arranquei umas folhas, levei até a boca, mastiguei e despejei aquela pasta por cima dos calombos. Aos poucos, ele foi sossegando o choro. E, me olhando com a “seriedade” de seus oito anos, disse: “Pai, temos de plantar a mil-em-rama lá na escola! Meus colegas machucam demais...”.

De outra feita, uma moça da capital se arranchou numa pequena casa da vizinhança por uns meses, trazendo consigo sua filhinha de uns três anos, menina linda de cabelos ruivos cacheados, aparentada com um anjinho barroco. Sem maldade no olhar e encantada em suas descobertas, logo nos primeiros dias levou a mão numa colorida lagarta de fogo. De repente, a mãe entrou lá em casa em polvorosa com a criança aos prantos. Mais uma vez lancei mão da mil-em-rama e quase imediatamente a garotinha cessou o choro, enquanto olhava maravilhada para a pasta esverdeada em seus dedos. Pois é assim, no simples do remédio está o alívio.

Inté a próxima lua! 

* Jornalista e consultor em plantas medicinais.

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