Quinta, 14 de agosto de 2014

A natureza de Lélia

Casada há 50 anos com o fotógrafo e ambientalista mineiro mais famoso do mundo, Lélia Wanick Salgado é: densa, inteligente, companheira de vida, amor e profissão

Déa Januzzi - redacao@revistaecologico.com.br



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Lélia e Sebastião:

Lélia e Sebastião: "Voltar-se para o planeta é a única maneira de vivermos melhor" - Foto: Ricardo Beliel

Desde a abertura da exposição Gênesis, em Londres, no ano passado, meus olhos não se desgrudam dos paraísos ainda naturais resgatados pelo fotógrafo Sebastião Salgado. Depois de oito anos e 850 mil quilômetros percorridos a pé, ele mostrou que o planeta Terra ainda tem jeito. Da Antártica ao Ártico, as imagens capturadas por Salgado mostram animais, rios e paisagens intocadas.

Depois de maravilhar o mundo com as 245 fotos de Gênesis, Salgado desembarcou em Belo Horizonte, onde a exposição estará até 24 de agosto, no Palácio das Artes. Uma oportunidade única de conhecer o trabalho de alguém que faz da fotografia um estilo de vida, com coerência, ética e ideologia.

Além das fotos que brindam os olhares com locais que são verdadeiros inventários do mundo, uma pessoa sempre despertou a minha curiosidade, pois, nas suas entrevistas, o fotógrafo mineiro mais famoso da atualidade sempre a cita como parte integrante do seu sucesso: Lélia Wanick, de 66 anos, sua esposa, é uma companheira e tanto.

Foi difícil chegar até ela, que preside o Instituto Terra, em Aimorés, na divisa de Minas com o Espírito Santo, cuja missão é regenerar o ecossistema, promover a educação ambiental e conseguir o desenvolvimento sustentável da região.

Mexi e remexi até que o celular tocou, fruto do apoio que recebi do ex-ministro de Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, amigo pessoal do casal. Era a própria Lélia marcando um encontro na cafeteria do Palácio das Artes para a entrevista. Cheguei quase uma hora antes e fui repassando as informações sobre Lélia, perguntando para mim mesma: “Quem é essa mulher que dirige, em Paris, o escritório Amazonas Images, com vista para o canal Saint-Martin? Que organiza as exposições internacionais do marido, desenha e edita os livros com suas fotos extraordinárias? Que se formou em Arquitetura e Urbanismo na capital francesa?”

Não ouse, por exemplo, perguntar a Lélia se ela é esposa de Sebastião Salgado, pois  responderá prontamente: “Ele é que é meu marido”. Nem use o velho ditado “atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Desse fardo, Lélia já se livrou. Os dois estão juntos há cinco décadas, um ao lado do outro, desde que nascem as ideias, nas conversas iniciais dos projetos, passando pelo planejamento, elaboração de textos, livros, catálogos e viagens, até o momento consagrado em que Tião, como ela o chama, revela em cliques o dom e o talento de ser quem ele é. Curadora das exposições do marido, ela admite que hoje “a gente não sabe mais quem é quem e quem inventou o quê. Nos ajudamos mutuamente”, pontua.

Foto: Marcos Takamatsu

Na verdade, tudo o que diz respeito ao trabalho do fotógrafo passa pelo crivo de Lélia. Como definiu o ex-ministro José Carlos, “mulheres como Lélia não estão por detrás, mas ao lado, como uma parelha que sonha e realiza junto. Como os pássaros que não voam com uma asa só. Um sempre precisa e conta com o outro”.

Lélia acompanha o marido em boa parte das suas viagens. Alça voos altos com ele, pousa junto em terras intocadas e até faz ninho para que ele se recolha quando necessário, como aconteceu depois da realização do trabalho Êxodos. De 1994 a 1999, Sebastião Salgado viajou para várias partes do mundo e viu coisas que o deixaram muito triste. Ele caiu em depressão, pois sofreu uma carga psicológica brutal ao retratar o triste trânsito dos refugiados sobre o planeta. Chegou até a pensar em abandonar a fotografia, tamanha a descrença no ser humano e nas coisas horríveis que ele é capaz de fazer contra a sua própria espécie.

Nesse momento, a natureza de Lélia fez com que o pássaro ferido ressurgisse das cinzas, com uma nova e exemplar ideia: a de recuperar os sete mil hectares da Fazenda Bulcão, em Aimorés, no Vale do Rio Doce, onde o marido nasceu e passou a infância, e que estavam completamente degradados.

A VIDA DE VOLTA

O Instituto Terra, hoje referência internacional, nasceu para reflorestar a Mata Atlântica e devolver à natureza o que décadas de degradação ecológica destruiu. Juntos, Sebastião e Lélia mobilizaram parceiros, captaram recursos e fundaram, em abril de 1998, a organização ambiental dedicada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Juntos, eles plantaram mais de dois milhões de novas árvores. Não só promoveram a regeneração de todo o antigo bioma, como ele também se recuperou, floresceu e voou para o projeto Gênesis, que lhe custou 32 viagens e oito anos de trabalho, para descobrir autênticos santuários praticamente intocados – e reafirmar a sua crença no ser humano.

Conhecer essa mulher incomum é um aprendizado. Eles têm dois filhos: Juliano, de 40 anos, que mora em Berlim, Alemanha, e acaba de receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, com o longa-metragem de 100 minutos sobre o trabalho do pai, intitulado Sal da Terra. O segundo, Rodrigo, de 34 anos, é artista plástico, músico e ensinou Lélia a ser mãe de um filho com síndrome de Down.

Ela confessa que teve até de fazer terapia, “para conseguir manter a cabeça em cima do pescoço, pois é muito difícil ter um filho que não vai ser igual à maioria. E que a gente nem sabe o que ele vai ser. Mas hoje sinto orgulho ao ver o Rodrigo independente. Ele é a grande vitória da minha vida, pois o que estava destinado a ser uma catástrofe virou uma dádiva”.

A Fazenda Bulcão antes, sem árvores, com a Mata Atlântica devastada para criação de gado...  

...E hoje, após a recuperação ambiental administrada por Lélia: a volta do verde, da água e dos animais - Fotos: Sebastião Salgado

Lélia conta como foi o início de tudo.  Natural de Vitória (ES) e caçula de oito irmãos foi lá que ela conheceu o marido, quando cursava a Aliança Francesa. Mais do que um companheiro para a vida, encontrou nele, na época um estudante de Economia, a pessoa certa para dividir seus sonhos. Lélia queria viajar pelo mundo. Tião também. Casaram-se muito jovens e, quando ela completou 22 anos, seguiram para Paris. “Viemos estudar, mas não tínhamos bolsa de estudo, o começo foi difícil. Eu era muito nova, meus pais tinham acabado de morrer. Foi um golpe muito duro. Larguei meu país, sem pai nem mãe, e vim para um lugar que não conhecia. Mas a gente queria viajar.”

E é assim até hoje. “No ano passado, saímos de férias num roteiro que incluía Bali. Depois embarquei para Genebra, na Suíça, para visitar meu neto Flávio, de 17 anos, filho de Juliano. A seguir, voltei à Fazenda Bulcão, onde Tião foi criado. Há 15 anos, fundamos o Instituto Terra, que presido, para continuar a recuperar a Mata Atlântica que havia ali. O foco agora é reaver as nascentes do Rio Doce, o maior curso d’água do Sudeste do país. Trabalho para 30 anos.”     

      

PERNA DE CORDEIRO

Lélia gosta de cozinhar e ri quando dizem que o melhor restaurante de Paris é a residência do casal, onde os dois recebem amigos do mundo todo. O prato que ela mais gosta de fazer é perna de cordeiro. Mas se define como uma mulher simples. “Não sou nada sofisticada.” Enquanto fala, ela pede licença, retira uma lixa da bolsa e começa a retocar as unhas sem esmalte. “Não uso esmalte porque sou alérgica e as minhas unhas são muito quebradiças.” Lélia parou de fumar há cinco anos, por causa de uma tosse crônica, mas não se importa de que fumem do lado dela.

Uma das atitudes que Lélia mais detesta é ver mulheres sendo tratadas com falta de respeito. E tirou do seu vocabulário a palavra homem para definir o ser humano. Também não concorda quando dizem que o homem é o maior produtor de lixo do planeta. “E as mulheres, não são? Até porque a palavra homem não quer dizer nem 50% da população masculina. A gente não diz homem para uma criança, mas menino. Nem para um masculino mais velho, que vira senhor. Para mim, ser humano engloba os dois gêneros, todas as idades e todas as raças.”

Aprendo com Lélia que “amizade é a melhor coisa que existe: amigo é aquele que te aceita como você é e o contrário também. É aquele que a gente pode ficar longe muito tempo e quando volta a se encontrar ainda fala a mesma linguagem”.  Sobre o casamento que já dura 50 anos, ela diz que “é construído todos os dias, porque tanto eu quanto ele temos defeitos e qualidades”. Mas garante que eles são sócios em tudo, “até nas  ideias”. 

CIDADÃ DO MUNDO

Envelhecer para ela é “natural. Só o tempo está passando, mas a gente continua igual. Só não envelhece quem morre antes”.  E olha que Lélia vive viajando! Esteve de passagem por Belo Horizonte para o lançamento da exposição Gênesis. Foi para Foz do Iguaçu (PR). Deu uma chegadinha em Paris e já deve estar voltando para remontar a exposição no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre. Ou pode estar em Estocolmo, na Suécia, daqui a algumas horas e voltar para Aimorés, no interior de Minas, onde recebeu o título de “Cidadã Honorária”. Tudo isso em homenagem ao planeta.

Se as fotos de Sebastião Salgado, como ela mesma define, são “uma orgia da beleza”, Lélia é parte dessa natureza humana preservada, em toda a sua plenitude. Ela é firme e soberana, como a floresta que ajudou a replantar na Fazenda Bulcão.


Acompanhe a reportagem completa:  

A natureza de Lélia

Instituto Terra

Exortação à vida, segundo o casal

Lélia, segundo Sebastião

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