Terça, 02 de fevereiro de 2010

Marina Silva

A Inflexão Civilizatória

Ana Elizabeth Diniz - redacao@revistaecologico.com.br



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Marina Silva: Falou mais proatividade do Brasil em Compenhague<br> - Foto: Martim D'Ávila

Marina Silva: Falou mais proatividade do Brasil em Compenhague
- Foto: Martim D'Ávila

“O Brasil levou metas para a 15ª Conferência das Partes (COP 15), em Copenhague, mas perdemos a proatividade. Fomos muito modestos em nossas convicções”. O desabafo foi feito pela senadora e presidenciável Marina Silva (PV-AC), três dias após o término do encontro internacional, durante a palestra “Os desafios para a construção de um Brasil sustentável”, ministrada em Belo Horizonte, durante o 2º ADVB MG Prefácio Brasil, promovido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil em Minas Gerais.

Marina começou sua vida política em 1984, quando fundou com Chico Mendes a CUT no Acre. Vinte e seis anos depois, com uma trajetória pessoal e ambiental respeitada em todo o mundo, a ex-seringueira foi escolhida pelo jornal britânico The Guardian, em 2007, como uma das 50 pessoas em condições de ajudar salvar o planeta. Seu segundo mandato no Senado Federal vai até 31 de janeiro de 2011.

Integrante titular das Comissões de Meio Ambiente e Constituição e Justiça, presidente dos fóruns das Águas das Américas e Mundial das Águas, nos últimos cinco anos do governo Lula, Marina trabalhou com políticas estruturantes baseadas em quatro diretrizes: maior participação e controle social, fortalecimento do sistema nacional de meio ambiente, transversalidade nas ações do governo e desenvolvimento sustentável. Confira a seguir, suas ideias e pensamentos:

Revista Ecológico - Que tipo de diálogo antecedeu a COP 15?

MARINA SILVA - Às vésperas da reunião, tivemos um esforço muito grande da sociedade brasileira no sentido de os governantes brasileiros se conscientizarem que não poderíamos ir para lá com a mesma visão atrasada e conservadora que sempre tivemos, de que os países ricos já destruíram suas florestas, que se desenvolveram explorando e comprometendo os recursos naturais e que também temos o direito de fazer o mesmo.

Mas esse não é um raciocínio justo, lógico?

Aparentemente sim, mas não se sustenta do ponto de vista ético. Uma coisa é termos destruído a biodiversidade, as florestas e feito uso de uma série de energias fósseis, como carvão, petróleo e gás, quando não sabíamos que eles afetavam o planeta. Hoje, sabemos o que está acontecendo e não podemos continuar reivindicando o direito de cometer o mesmo erro. Há um provérbio que diz: ‘Sábios são aqueles que aprendem com os erros dos outros e, estúpidos, os não aprendem nem com os seus próprios erros’. A humanidade já está errando muito, porque não sabe lidar com a base natural do nosso desenvolvimento.

Como assim?

Por que o Brasil é uma potência agrícola? Porque tem terra fértil, chuva e sol em abundância. Por que outros países não são? Porque os custos de produção são tão altos que, se forem fazer os investimentos necessários pra conseguir a mesma produtividade, não serão competitivos. Estudo recente diz que já estamos reduzindo a produção agrícola de várias regiões, em função da grande perda de biodiversidade, principalmente, de algumas espécies de inseto responsáveis pelos processos de polinização. Achamos que podemos destruir a natureza impunemente e que nada vai nos acontecer. A natureza presta serviços ambientais ao homem. Os insetos fazem seu trabalho, polinizam o que plantamos e não contabilizamos esse serviço em nossas colheitas. Só fazemos isso quando elas se tornam escassas.

Isso ocorre por causa da abundância da natureza?

Há um conceito chamado ‘a maldição da fartura’. Ele foi cunhado pelo escritor cristão norte-americano Felipe Janssen. Segundo ele, quando temos alguma coisa em abundância, ela se torna uma maldição, porque ninguém se importa mais com ela. Temos água em abundância na Amazônia, mas a maior parte das cidades joga seus esgotos in natura naquele mar de água. Essa é a tragédia dos comuns: ninguém se importa com o rio que passa na frente da sua casa e nem com o ar que respiramos. Se eles são de todos, para que eu vou me incomodar? Esse é um processo suicida. Estamos diante de uma crise sem precedentes do esgotamento dos recursos naturais na nossa casa comum, que é o planeta Terra.

Como assim? O homem se sente superior à natureza?

Não queremos que árvore alguma tenha valor ou importância internacional maior ou menor do que o nosso povo. O que precisamos fazer, como humanidade causadora e vítima do aquecimento, é uma releitura da relação homem-natureza. Para isso, precisamos provar antes ao mundo que somos capazes de fazer essa releitura: valorizando-nos como verdadeiros guardiões da Floresta Amazônica, seja ela brasileira, venezuelana, colombiana, equatoriana ou peruana.

O que o Brasil levou para a COP 15?

Metas. Cientistas, ONGs, representantes de governo e do Congresso, o próprio Ministério do Meio Ambiente e 22 grandes empresas brasileiras se reuniram em São Paulo para dizer: ‘Queremos que o Brasil assuma metas’. E há duas formas de se mobilizar: pelo coração ou pela razão, ou ainda pelas duas coisas. Empresas como a Vale Doce e outras perceberam que daqui a pouco o carbono vai ser precificado. Todo produto trará indicação sobre sua constituição, mas vai indicar também a quantidade de carbono emitida para produzi-lo. E isso terá um custo. Vamos começar a precificar o carbono do aço, da madeira, da soja, da carne e isso vai ser ‘ruim’ para os negócios. Se o governo continuar com essa posição retrógrada, daqui a 20 anos vamos perder competitividade. O Brasil levou uma proposta generosa da sociedade e fez a diferença. Porque em terra de cego que tem um olho é rei.

Que balanço que a senhora faz da conferência?

Todo mundo saiu de fininho da reunião de Copenhague, porque o que estava em jogo era uma guerra muito maior do que o controle de poços de petróleo. O que estava em jogo era e é a defesa da vida em processo de destruição, que se agrava paulatinamente e quase ninguém percebe. Nem a foto oficial dos chefes de Estado foi feita. Todos se comportaram como convidados. Queriam tirar o microfone da lapela e voltar achando que faturaram politicamente. Quando se depararam com um problema muito maior do que imaginaram, cada um voltou silenciosamente para casa, deixando os cidadãos do mundo inteiro perplexos diante da impotência que seus líderes demonstraram para resolver um problema dessa magnitude.

Qual foi ‘o nosso problema’?

Eu disse inúmeras vezes que o Brasil deveria ser proativo junto ao G-77 e aos ricos, apresentando duas propostas: assumir metas e colaborar com o fundo de políticas de curto prazo. Se há algo que funciona é o constrangimento ético. Quando a Europa colocou US$ 10 bilhões na mesa, para começar a negociação e ajudar os países vulneráveis e as ilhas, sugeri que o Brasil colocasse um US$ 1 bilhão. Isso representava 10% do que a Europa estava colocando sobre a mesa. Se um país emergente pode dar 10% do que eles estão oferecendo, é porque eles podem dar muito mais. Infelizmente, esse gesto simbólico não foi compreendido e o Brasil ficou numa posição reativa. ‘Não vamos contribuir, quem tem de contribuir são eles’. Perdemos a proatividade.

Por quê?

Fomos muito modestos. Sempre repito uma frase de um pensador cristão: ‘O problema da humanidade é que, aos poucos, ela foi deslocando a modéstia para o lugar errado, para o terreno da convicção, aonde nunca deveria ter chegado’. Não podemos ser modestos em nossas convicções. O Brasil é uma potência ambiental, mas não podemos ficar iludidos com a ideia de que já somos ‘gigantes pela própria natureza’ e que isso basta. Vamos ser gigantes também por aquilo que pensamos, fazemos e somos capazes de propor. Não há um modelo a ser copiado. Tudo é uma construção histórica. Estamos vivendo uma espécie de Armagedon ambiental. Ou todos se mobilizam ou seremos derrotados.

Qual é o maior desafio para a construção de um Brasil sustentável?

Estamos vivendo uma crise ambiental sem precedentes. Conforme 95% dos integrantes do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), já estamos sentindo os efeitos das mudanças climáticas ocorridas em função da ação humana, desencadeada a partir da Revolução Industrial. A elevação da temperatura em mais de 1,5 grau nos levará a prejuízos irreversíveis, como a perda de biodiversidade e elevação dos níveis dos mares. Isso sem falar na redução de cerca de 20% do PIB mundial e de consequências sociais e culturais, como a perda dramática de florestas mundiais, das quais dependem 25 milhões de pessoas, que delas tiram sua subsistência material e seu sentido de ser, ou seja, sua cosmovisão. Se ultrapassarmos esse ponto crítico do nível de equilíbrio do planeta, poderemos, segundo os cientistas, comprometer toda a vida na Terra e inviabilizarmos a coisa mais preciosa que temos. É isso que está sendo dito com todas as letras por milhares de cientistas em todo o mundo. O que está em jogo é a vida de bilhões de seres humanos e todas as demais formas de vida. E não se vê a mesma mobilização que se viu quando ocorreu a crise do sistema financeiro.

Empresas e governos não estão investindo como deviam?

Não sou contra o socorro que foi oferecido às instituições financeiras e governos. Ele era necessário, senão teria sido muito pior. Fomos capazes de mobilizar US$ 14 trilhões para salvar o sistema financeiro e, segundo o Banco Mundial, para resolver a crise climática seriam necessários US$ 450 bilhões. Em Copenhague, essa cifra foi estimada em US$ 250 bilhões, para investimentos de médio e longo prazo. Infelizmente, nem esses recursos ficaram asseguradas pela cúpula da COP 15. Segundo o IPCC, já temos um saldo de emissão de gás carbônico em torno de 1.800 bilhões de toneladas, o que representa uma emissão média global de, no máximo, 18 bilhões de toneladas por ano. Já estamos emitindo 45 gigatoneladas por ano e podemos chegar ao fim de 2010 com uma emissão anual de 50 gigatoneladas. Mas, esse número precisa cair para 18 gigatoneladas. Se continuarmos nesse ritmo, chegaremos ao fim do século com uma elevação de temperatura que simplesmente vai inviabilizar a vida na Terra.

Qual é a perspectiva, então, para o século 21?

Teremos de resolver a seguinte equação: como desenvolver protegendo e como proteger e desenvolver. Não temos como abrir mão do desenvolvimento e precisaremos prover as condições de acesso à saúde, educação, entretenimento, educação, habitação, segurança, conhecimento e inovação tecnológica. Tudo isso é necessário para que possamos ter qualidade de vida. Mas como vamos conseguir tudo isso, desassociando esses benefícios do uso predatório dos recursos naturais? A psicopedagoga Nádia Bossa, do Rio Grande do Sul, diz que a realidade responde na língua em que é perguntada. Logo, é poliglota. Nós é que às vezes somos monoglotas, porque perguntamos sempre na mesma língua para uma realidade que é moldada por várias línguas. Se perguntarmos à realidade e à natureza como crescer e desenvolver na língua dos séculos 19 e 20, a resposta será uma só: usando de forma intensa os recursos naturais e, no caso do Brasil, modelos baseados na agricultura extensiva. Mas, ainda bem que a língua se transforma morfologicamente.

Há outra solução? Vislumbra um futuro melhor, redentor?

Se conseguirmos criar novas palavras e se perguntarmos na língua do século 21, a resposta será: para continuarmos crescendo teremos de lançar mão de outros referencias energéticos, como a eólica, solar, biomassa e hidroeletricidade. É outra a resposta. Na língua do século 21, já sabemos que os recursos são finitos e que estamos no vermelho, uma vez que cerca de 30% dos limites ‘de consumo’ do planeta já foram ultrapassados. Portanto, se mantivermos a mesma forma de produzir e consumir, inviabilizaremos nossa sobrevivência em um futuro bem próximo. Frei Leonardo Boff diz que ‘ético é tudo aquilo que promove e sustenta a vida na terra’. Se formos capazes de comungar com esses princípios e tivermos uma visão antecipatória de mundo e país, seremos capazes de criar, sim, as bases materiais, políticas, sociais e culturais para fazermos a inflexão civilizatória. Já estamos fazendo a mudança que queremos ver no futuro.

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