Terça, 05 de janeiro de 2010

Serra Negra cinematográfica

Parque rico em espécies da Mata Atlântica, Cerrado e Campos Rupestres abriga 78 nascentes que alimentam as bacias dos rios Jequitinhonha e Araçuaí

Ana Elizabeth Diniz - redacao@revistaecologico.com.br



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Parque ainda enfrenta o desafio de equilibrar a ocupação humana com a conservação de sua rica biodiversidade: beleza ameaçada - Foto: Marcos Takamatsu

Parque ainda enfrenta o desafio de equilibrar a ocupação humana com a conservação de sua rica biodiversidade: beleza ameaçada - Foto: Marcos Takamatsu

Itamarandiba, pedra corrida, pedra miúda rolando sem vida.” Esse trecho da música de Milton Nascimento e Fernando Brant entrega a origem indígena do nome dessa cidade, que no passado se chamava São João Batista. Encravada no Alto do Vale do Jequitinhonha, nos limites da Serra do Espinhaço, Reserva da Biosfera, ela abriga o Parque Estadual Serra Negra, criado em 1998 e administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF). Vista contra o Sol, a serra se torna negra, daí o nome do parque, que fica a 32 quilômetros do Centro de Itamarandiba.

O acesso ao topo da serra só é feito em veículo tracionado, até certo ponto. Depois, o jeito é caminhar e ir descobrindo a beleza da Mata Atlântica pontilhada pelas embaúbas, que denunciam que a mata está se recompondo da agressão sofrida no passado pela ação humana.

A presença do homem é a marca e também o grande problema desse parque. “Temos aqui 138 propriedades particulares, em torno de 550 pessoas não contempladas pela regularização fundiária, que ainda está em andamento. Grande parte sobrevive da pecuária e da lavoura. Essas famílias vivem em constante estado de alerta. Temem acordar, um dia, e dar de cara com a notícia de que suas terras agora pertencem ao Estado. Estamos fazendo um trabalho com elas, na tentativa de regularizar as propriedades, enquanto aguardamos a ação indenizatória do governo”, explica Alberto Souza de Araújo, gerente da unidade.

AMBIENTE ATLÂNTICO

A caminhada pelo parque vai revelando fragmentos de Cerrado e Campos Rupestres repletos de canelas-de-ema. As cachoeiras são protegidas por samambaiaçus e árvores de grande porte, como cedro, braúna, peroba, jacarandá e vinhático, típicas de ambiente Atlântico. Orquídeas, bromélias, pássaros, teiús, micos e esquilos também vão surgindo pelo caminho.

A água brota por todo lado. São 78 nascentes e 23 cachoeiras. A mais alta e deslumbrante é a do Divino, com 20 metros de altura. Ainda está bem preservada, porque fica a 53 quilômetros do centro da cidade. Pausa providencial para refresco em um dia de calor intenso.

A região da Serra Negra tem importância vital para as regiões do Alto e Médio Jequitinhonha, pois inclui inúmeras nascentes de cursos d’água, vertentes para a bacia dos rios Jequitinhonha e Araçuaí e alguns tributários do Rio Doce. Ao longo das nascentes, córregos e rios que banham a serra ainda podem ser observados matas de galeria e remanescentes florestais importantes para a manutenção da fauna e flora locais.

O guarda-parque Gilberto Alves Rocha, nascido na região, diz que é possível ver espécies raras no local, com um filhote de lobo-guará, jaguatirica e caititu. “Temos problemas com os moradores, que se sentem incomodados com as restrições ambientais impostas e ainda não atentaram para a importância da preservação dessa unidade, que tem tantas belezas.”

CINTURÃO VERDE

Do alto da Serra Negra, a 1.564 metros de altitude, a vista não alcança todo o parque, mas é possível vislumbrar o cinturão verde que vai serpenteando ao longe. Riqueza de fauna e flora a serem preservadas. “O parque ainda não tem infra-estrutura para receber visitantes. Só depois da implementação do Plano de Manejo é que vamos definir quais são obras prioritárias, entre elas a construção de um centro administrativo, portaria, melhoria das trilhas e acesso, tudo em harmonia com a preservação das nascentes”, informa Alberto.

O monitor ambiental Wanderley Pimenta Lopes faz coro e ressalta que o parque tem grande potencial turístico, mas precisa se estruturar melhor e resolver rapidamente a questão da regularização fundiária. “Não temos como proibir os proprietários de terra de criar gado. Aos poucos, vamos conscientizando-os e orientando-os a buscar formas mais sustentáveis de produção e subsistência.”

Serra Negra é um oásis verde em meio a uma região em que a atividade carvoeira é intensa. Uma tentativa legal e imprescindível de preservar biomas tão ricos quanto as águas que brotam límpidas por toda parte.

FIQUE POR DENTRO

Área do parque: 13.654 hectares.

Onde: Itamarandiba, alto do Vale do Jequitinhonha.

Distância: 480 quilômetros de Belo Horizonte.

Acesso:  A partir de BH, pegue a BR-040 e depois a BR-135, em direção à Curvelo. Então, siga pela BR-259, em direção a Diamantina. A partir daí, pegue a MG-367 e, depois, MG-451, até chegar a Itamarandiba. Outra opção é, a partir de Diamantina, pegar a MG-367 e, depois de Couto de Magalhães, seguir no sentido São Gonçalo do Rio Preto e pegar a MG- 214 (estrada de terra), passando por Senador Modestino Gonçalves.

Clima: Tropical de altitude, com temperatura média anual de 20°C.

Funcionamento: fechado ao público.

Informações: (38) 3521-1715.


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