Segunda, 11 de junho de 2018

Lágrima-de-nossa-senhora

Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br



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CONTA-DE-LÁGRIMA -Coix lacryma-jobi L.

CONTA-DE-LÁGRIMA -Coix lacryma-jobi L.

Durante viagem à região do Norte de Minas, reencontrei um casal de amigos agricultores e raizeiros dos mais bão. Valdeir é miúdo, tem pele e olhos claros, mãos calejadas e uma fé inquebrantável no Criador e na ação das plantas. Toca sua vida num rincão nas berolas do Rio São Lamberto arrodeado pelos filhos e netos ao lado da Cléo, sua companheira tamém miudica e dotada de uma paciência construída nas lidas da vida, além de grande conhecedora das raizadas. Os dois juntos formam um par dos mais graciosos de se ver e conviver.

No proseio de nosso reencontro, acabou por sair um convite pra experimentar o tempero da Cléo lá na roça. Num me fiz de rogado e na hora marcada tomei rumo já sentindo um oco na barriga, mas antes de sentar na mesa tive de cumprir um longo ritual. O quintal deles tem de um... tudo. Galinhas correm soltas cabriolando umas atrás das outras ao redor de um tanque criatório de peixe, além de algumas poucas vaquinhas cederem o leite pra feitura de requeijão afamado na feira de sábado.

Saindo dos bichos e entrando na horta, enormes pés de alface convivem com a hortelã, a sete-dores e mais uma infinidade de plantas medicinais, numa miscelânea alimentar e curativa. Mas dei reparo mesmo foi numa touceira disposta na berola da cerca e arrodeando: distingui que era conta-de-lágrima (Coix lacryma-jobi L.), também conhecida como lágrima-de-Nossa-Senhora, planta que anda sumida dos roçados. Esse nome é derivado da prática popular de usar as sementes na fazeção de rosários, terços e até de instrumentos musicais. As folhas têm serventia no tratamento de inchaço das pernas, queimação de urina e infecção urinária.

A conversa se esticou mais um tiquim, mas a fome montada acabou fazendo a gente voltar pra casa e devorar quitutes e delícias que só se esbarra na roça. Ao final do dia voltei pra cidade um tanto letárgico pela comilança e a conversa amistosa do encontro, mas eu ainda tava encafifado com a conta-de-lágrima. Fui escarafunchar e se dei com revelações deveras importantes nesses tempos atuais de busca de novas opções alimentares, as tais Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).

Ela tem parentesco afastado com o milho e, nos antigamente, os povos andinos faziam farinha de suas sementes para produção de pães, mingau, biscoitos e bolos. Principalmente os idosos e doentes em convalescência podem se beneficiar do grande valor nutritivo dessa farinha, pois é rica em proteínas e gorduras. Ainda pasmado com a descoberta, agora em diante fico aqui pensando em como processar de maneira artesanal essa farinhada, qual seria o ponto de coleta dos frutos e por aí vai. Alguém aí já fez isso? Se souber, avise.

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.

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