Segunda, 11 de junho de 2018

Apreciação e respeito

Jefferson Cardia Simões - Glaciólogo, vice-presidente do Comitê Científico Sobre Pesquisa Antártica (SCAR), professor do Instituto de Geociências da UFRGS e professor visitante do Climate Change Institute da Universidade do Maine (EUA)

Luciana Morais- redacao@revistaecologico.com.br



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O senhor já participou de mais de 22 expedições e liderou a missão que instalou, em 2012, o primeiro módulo científico brasileiro no interior da Antártica. Qual a importância das pesquisas feitas naquele continente para o Brasil?

As regiões polares são tão importantes quanto os trópicos no sistema ambiental global. A região Antártica tem papel essencial na circulação atmosférica e oceânica e no sistema climático terrestre. É uma das regiões mais sensíveis às variações climáticas, estando interligada com processos que ocorrem em latitudes menores, em especial com a atmosfera sul-americana e os oceanos circundantes. As massas de ar frias geradas sobre o Oceano Austral avançam sobre a América do Sul subtropical, produzindo eventos de baixa temperatura e geadas nos estados do sul do Brasil (as frentes frias que podem chegar até o sul da Amazônia). A sensibilidade da região às mudanças ambientais é enfatizada, por exemplo, pela carência planetária de ozônio estratosférico (o “buraco de ozônio”) que ainda atinge recordes sobre a Antártica; além disso, pequenas variações no volume do manto de gelo antártico (onde está 90% do gelo da Terra) afetam diretamente o nível do mar nas nossas praias.

Como colaborador do IPCC, qual a sua opinião sobre a correlação entre aquecimento global, derretimento de geleiras e aumento do nível do mar?

A ciência que eu faço, dos testemunhos de gelo – que tem a habilidade de reconstruir a história do clima e da química atmosférica em alto grau de detalhe –, mostra claramente o impacto do homem após a Revolução Industrial no sistema ambiental e como isso se intensificou nas últimas cinco décadas. Ainda hoje temos um rico acervo de monitoramento de geleiras, de mais de 130 anos, mostrando o rápido descongelamento concomitante ao aumento da temperatura atmosférica e mudanças na química dessa mesma atmosfera. Para mim e para 98% da comunidade científica, o componente antrópico é indubitável no aquecimento global.

Em 2004, o senhor se tornou o primeiro brasileiro a atravessar, por via terrestre, o manto de gelo da Antártica até o Polo Sul. O encantamento diante dos mistérios e belezas dos ambientes gelados supera o medo do imprevisto, a exposição às baixas temperaturas e o isolamento? Que sensações guarda de suas experiências em campo?

Apreciação e respeito à natureza: da experiência bela de poder viver neste planeta, da passagem momentânea do viver e, principalmente, da brevidade e da insignificância do nosso tempo aqui. A Antártica o torna humilde!

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