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Segunda, 11 de junho de 2018

A morte no campo

A cidade de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, ostenta o triste título de “capital nacional” do AUTOEXTERMÍNIO HUMANO. Investigação sobre a correlação de mortes com o uso de agrotóxicos na produção de fumo divide opiniões, mas SETOR segue INCÓLUME pela força da arrecadação de impostos

Neylor Aarão - redacao@revistaecologico.com.br



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O Brasil é campeão mundial em uso de agrotóxicos, muitos deles  já proibidos em outros países

O Brasil é campeão mundial em uso de agrotóxicos, muitos deles já proibidos em outros países

Venâncio Aires fica a cerca de 240 quilômetros de Porto Alegre (RS). É um município que se destaca internacionalmente pela produção de tabaco. Mas, infelizmente, exatamente em razão do cultivo local de fumo – considerado um dos melhores do mundo – tem sido palco de investigações sobre a correlação entre o uso de agrotóxicos e a ocorrência de mortes por suicídio ao redor de suas lavouras.

O Brasil é campeão mundial no consumo de agrotóxicos. De acordo com pesquisas da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e do Ministério da Saúde (Fundação Oswaldo Cruz), o brasileiro consome, em média, 7,3 litros de defensivos por ano. Em alguns estados, esse volume chega a quase 9 litros/ano.

Os glifosatos e os organofosforados são os dois tipos de pesticidas mais consumidos no país, sobretudo na indústria do tabaco, apesar de já terem sido banidos em diversos outros países. O consumo de agrotóxicos está ligado à ocorrência de diversas doenças, tais como problemas neurológicos, motores e mentais, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, puberdade precoce, má formação fetal, aborto, Parkinson, endometriose, atrofia de testículos e cânceres.

O fumicultor Régis Heinen explica que, 15 dias após o plantio, é colocada a primeira dose de salitre em cada novo pezinho que surge. Entre 30 e 40 dias depois, é aplicada a segunda dose, fase em que a planta atinge cerca de meio metro de altura.

A floração ocorre em torno de 70 dias após o plantio, etapa em que é preciso tirar a flor e aplicar o agrotóxico. “Cada folha produz um broto. A gente corta bem em cima do botão inicial e aplica o agrotóxico (líquido) pé por pé, para não crescer a brotação. Logo em seguida, vem a colheita, quando vamos fazendo as apanhadas das folhas, em etapas, conforme o fumo vai ficando maduro”, explica.

Planta mística

O engenheiro agrônomo e florestal Sebastião Pinheiro lembra que o cultivo do fumo é uma das mais intrigantes e instigantes colheitas desenvolvidas pela humanidade. É uma planta mística, usada pelos indígenas para introspecção e conexão com os deuses. “Com a descoberta da América, por Cristóvão Colombo, as sementes do fumo ganharam o mundo”. No Brasil, essa lavoura começou a se desenvolver a partir da Bahia. Não por acaso, todas as armas [brasões/símbolos nacionais] têm um ramo de fumo florido, expressão do progresso e da riqueza do país.

“O tabaco produzido em Venâncio Aires é o melhor do mundo. Mas há interesses de que a região pare de produzir, por causa da concorrência com o fumo de países como China e Estados Unidos, que não são tão bons quanto o nosso”, alerta a vereadora Ana Cláudia Teixeira.

O fumicultor Romeu Heinen conta que planta fumo desde os 8 anos de idade. Os filhos ajudarem os pais na lavoura é uma tradição antiga. “Naquele tempo, era diferente e as crianças podiam ajudar. De manhã eu ia para a escola e, à tarde, pegava no serviço. A gente fazia de 10 a 15 arrobas, conforme o clima e o ritmo da produção”, relembra.

Morte “casada”

Presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Iro Schünke dá alguns números relativos à safra 2015, cuja produção totalizou 60 mil toneladas nos três estados do Sul: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. “Ela rendeu pouco mais de US$ 5 bilhões aos 156 mil produtores que temos no campo.”

O produtor é quem assume todos os riscos, inclusive o da colheita. A classificação da qualidade do tabaco produzido é feita pela [indústria] fumageira e, nessa relação, o produtor geralmente sai perdendo. Em toda a região de Venâncio Aires é fácil perceber a desarticulação dos produtores. Tudo funciona na base do cada um por si.

“Alguns países preferem o fumo que é mais forte. Nesse caso, a firma já tem uma semente de acordo para atender. Hoje em dia não tem como a gente fazer a semente, como antigamente. Ela é muito cara, um kit de semente custa muito dinheiro”, explica o fumicultor Inácio Frey.

Rogério Heinen, também fumicultor, completa: “O Sebastião Pinheiro já tinha dito que íamos ver um pacotinho de semente ser comercializado a peso de ouro, mas a gente não acreditava. Como? Se bastava ir ali na roça e tirar a semente? Essa ideia de comprar semente não passava pela nossa cabeça. Mas hoje isso é real, estamos pagando por ela.”

A prática de “venda casada” também é comum na região. Geralmente, a mesma empresa que compra o fumo vende a semente e o agrotóxico ao produtor, por meio de financiamento. “A gente não é obrigado a vender o produto para eles, mas a preferência é levar na mesma empresa. Alguns conseguem pagar os insumos antecipadamente, mas são poucos.”

 “O fumo daqui é um monopólio de grandes empresas. Elas monopolizam o crédito via Banco do Brasil. Não é o agricultor que pede o crédito, é a fumageira. O crédito sai no nome da empresa e ela repassa ao agricultor, que só pode usar adubo e agrotóxico vendido por ela. E o que a empresa faz? Compra num atacado, na Alemanha, vende no varejo aqui e fica com a margem de lucro. Essa é a realidade”, aponta o engenheiro Sebastião Pinheiro.

Ainda segundo ele, o uso de uma molécula química como “arma” se deu pela primeira vez na Bélgica, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), pelos alemães. “Terminada a guerra, eles desviaram a arma química para uso do agricultor. É algo absurdo.”

Para muitos, o que realmente sustenta a indústria do agrotóxico, não apenas em Venâncio Aires, mas em milhares de cidades Brasil afora, são as políticas públicas e de interesse econômico. Atualmente, de 50 agrotóxicos proibidos na Europa, 22 são consumidos livremente no Brasil, movimentando mais de R$ 30 bilhões por ano.

Marilise Mesquita, professora em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) dá uma dimensão da pressão exercida pelas empresas fumageiras sobre os produtores da região de Venâncio Aires. Segundo ela, não é uma escolha do produtor usar agrotóxico somente diante da ocorrência de pragas.

 “O agrotóxico faz parte do pacote tecnológico. O produtor é obrigado a comprar e usar. Na maioria dos casos, a produção é feita em minifúndios, aproveitando terrenos em volta das casas dos agricultores. As pessoas convivem com esses insumos químicos o tempo inteiro.”

Triste conexão

Conforme dados do Ministério da Saúde, das 20 cidades com maior número de suicídios no país, dez são gaúchas. Venâncio Aires lidera a lista, com cerca de 40 casos para cada 100 mil habitantes. Esse índice é bem superior à média nacional, estimada em quatro casos para cada 100 mil habitantes.

A conexão entre suicídio e plantadores de fumo é apontada em diversos estudos científicos. Um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul registrava, em 1996, que 80% dos suicídios ocorridos em Venâncio Aires, a maior produtora de tabaco do estado, eram cometidos por agricultores.

Esse mesmo estudo indicava aumento nos casos de suicídios, quando o uso de agrotóxicos era intensificado. Segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), o uso de agrotóxicos, como os organofosforados, aumenta as chances de depressão dos agricultores, por atingir o sistema nervoso central via inalação.

Em 2014, 20% de 100 fumicultores entrevistados sofriam de depressão. O quadro depressivo por exposição aos venenos, somado a fatores sociais e culturais, pode evoluir, levando muitos deles ao suicídio.

“Quando você trabalha como agricultor e usa uma série de inseticidas que afetam o hipotálamo (cérebro), você já tem propensão à depressão. O efeito pode tardar por até 20, 30 anos e deixa sequelas. Então, um produtor que trabalha e se vê diante de negociações em que o preço do fumo cai muito, já volta para casa deprimido e busca um jeito de se matar”, afirma Sebastião Pinheiro.

“Sei de pelo menos três casos de morte por enforcamento. O pior é que era gente conhecida: antigos colegas de aula, de jogo de futebol... Isso mexeu muito com a gente”, relata o fumicultor Rogério Heinen.

A vereadora Ana Cláudia Teixeira diz se sentir chocada cada vez que se lembra de casos de suicídios ocorridos em Venâncio Aires. “Eu me lembro de fotografia de pessoas enforcadas que tinham os joelhos dobrados numa altura em que poderiam colocar os pés no chão a qualquer momento, ou seja, a decisão de se matar era algo forte demais.”

Para o psiquiatra Ricardo Nogueira, uma das possíveis explicações para a elevada ocorrência de suicídios em Venâncio Aires é o fato de os produtores de fumo não usarem equipamentos de proteção individual (EPIs), tais como luvas e óculos, durante a aplicação de agrotóxicos. “Os organofosforados, usados como secantes do fumo, são depressores do sistema nervoso central e levam ao suicídio.”

Água contaminada

A correlação entre o uso de agrotóxicos e suicídios, no entanto, é contestada pelo presidente do SindiTabaco, Iro Schünke. “Hoje não se usa mais agrotóxicos que ficam depositados no solo”, diz. Questionado sobre o risco de contaminação de água e solo, Schünke afirma: “Eu diria que é muito difícil isso ocorrer. A menos que dê uma chuvarada bem na hora da aplicação. O período de tempo que o agrotóxico fica perigoso é de um dia. Aí, não é permitida a reentrada na cultura. Tanto que é posta uma plaquinha para ninguém entrar no dia da aplicação, só no outro dia.”

Constatações feitas em campo, no entanto, pelo professor Fernando Mainardi, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, contradizem a fala de Schünke. “Há presença de agrotóxico na lavoura e em volta das casas e na água subterrânea de poços.” O mesmo acontece nos rios.

“Mesmo com vazão baixa, em época mais seca e depois que o fumo já havia sido colhido foi constatada a concentração de agrotóxicos. Ou seja, o produto não tinha sido aplicado tão recentemente assim”, avalia.

“Vale salientar que, em uma das propriedades, amostras de água coletadas num poço que abastecia a família continham traços de quatro tipos de agrotóxico. Em outros dois poços foi constada a presença de pelo menos um tipo de defensivo”, ressalta a professora Marilise Mesquita, que ainda completa:

“Pessoas de todas as faixas etárias – de crianças a adultos idosos – ingerem agrotóxico a todo tempo, no chimarrão, na comida... Não é um produto que se degrada com facilidade, ele permanece.”

Situação difícil

De acordo com a vereadora Ana Cláudia Teixeira, todos os estudos feitos pelas empresas da indústria de tabaco revelam que houve aumento tanto da fiscalização nas lavouras quanto do uso de EPIs. “Como é, então, que o número de suicídios aumentou?”, questiona ela, afirmando não ter conhecimento sobre iniciativas ou estudos, por parte das empresas fumageiras, voltados para a redução do uso de agrotóxicos nos cultivos da região.

Mas tudo indica que a solução efetiva desse dilema envolve questões econômicas, sobretudo no que se refere aos impostos arrecadados pelo município de Venâncio Aires. Para a vereadora, essa é, sem dúvida, uma questão que ainda paira no ar. “Talvez tenham medo de mexer com essa indústria... Não é brincadeira. É muito difícil falar sobre isso aqui.”

Outros subterfúgios para não constar o problema, de fato, também são apontados pelo psiquiatra Ricardo Nogueira.

“Há um boicote”, garante. Segundo o médico, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) coordenou um projeto chamado Estudo da Síndrome da Depressão Rural. Tudo corria bem até que os recursos destinados ao projeto serem cortados, assim que a pesquisa começou a comprovar a correlação entre agrotóxicos versus suicídios no campo.

Depois de tudo o que vi e ouvi em Venâncio Aires concluí que, quando falamos de falamos de depressão, estamos falando de um problema de saúde. Mas pode haver prevenção e há tratamento. Precisamos combater o uso exagerado de agrotóxicos que, na realidade, é a causa disso tudo.

Na próxima edição, confira o quarto episódio da série sobre o desmatamento na Amazônia.

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