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Segunda, 21 de maio de 2018

Tuberculose

A tuberculose é uma doença causada pelo Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, que atinge preferencialmente os pulmões. No passado era conhecida também por tísica, e os pacientes acometidos, como héticos, ou hécticos.

Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br



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Atualmente, é grande o arsenal de medicamentos apropriados, e seguramente o paciente se cura com o tratamento, mesmo que este tenha que ser mantido por vários meses. Isso
permitiu a redução da incidência da tuberculose no Brasil.

Atualmente, é grande o arsenal de medicamentos apropriados, e seguramente o paciente se cura com o tratamento, mesmo que este tenha que ser mantido por vários meses. Isso permitiu a redução da incidência da tuberculose no Brasil.

A tuberculose é uma doença causada pelo Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, que atinge preferencialmente os pulmões. No passado era conhecida também por tísica, e os pacientes acometidos, como héticos, ou hécticos. Foi um grande flagelo para a humanidade e por muitos séculos vitimou incontável número de pessoas. A queda da mortalidade pela tuberculose ocorreu mesmo antes do tratamento específico, pois a melhoria das condições de vida a partir do início dos anos de 1900 diminuiu a propagação da doença, assim como prolongou a vida daqueles que sofriam do mal. Além disso, ocorreu também um processo de seleção natural ao longo de milênios, ou seja, indivíduos mais suscetíveis morriam, geralmente precocemente, e assim tendiam a não deixar descendentes, que poderiam herdar menor capacidade de resistência à bactéria.

Na época em que não havia tratamento para essa infecção também não havia o estigma atual. Uma boa solução para a inevitabilidade do mal era considerá-lo, por algum aspecto, belo, já que atingia a todos, ricos e pobres. Com efeito, nos anos de 1800 existiu a moda elegante do perfil esquio, da cútis pálida, das olheiras profundas e do ar soturno. E, lógico, uma tosse constante fazia parte do quadro.

Por um período, acreditou-se que o clima de montanhas curava a tuberculose. Ficaram famosos os sanatórios nos Alpes suíços, para onde eram encaminhados os enfermos de situação econômica privilegiada. No Brasil, cidades de clima frio eram também muito procuradas. Belo Horizonte, à época de sua fundação, em 1897, com seu clima ameno e situada a mais de 800 metros de altitude, tinha fama de ser um local propício para a sobrevida dos tuberculosos. E os médicos sempre estiveram entre os grupos de risco de adquirir o mal, pois convivem de perto com doentes contagiantes. Foi assim que a nova capital mineira recebeu grandes clínicos e cirurgiões, vindos de vários estados brasileiros, que escolheram a diminuta cidade para trabalhar. Esse foi um dos motivos da criação da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, já em 1911, por ilustres médicos, quase todos tuberculosos.

Até mesmo o famoso compositor Noel Rosa morou na jovem cidade, entre os anos de 1934 e 1935, numa frustrada tentativa de curar sua tuberculose, adquirida na zona boêmia carioca. De Belo Horizonte, escreveu para seu médico, Edgar Graça Mello, que residia no Rio de Janeiro:

Já apresento melhoras pois levanto muito cedo e deitar às nove horas para mim é um brinquedo. A injeção me tortura e muito medo me mete mas minha temperatura não passa de trinta e sete. [...] Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro pois não há material para o exame de escarro [...]

Guimarães Rosa viveu numa época em que o tratamento consistia apenas em repouso, alimentação reforçada, resguardo contravento pelas costas e ares de montanha. O tratamento específico começou a partir da década de 1940, com o emprego da estreptomicina, um dos primeiros antibióticos utilizados em seres humanos. Atualmente é grande o arsenal de medicamentos apropriados, e seguramente o paciente se cura com o tratamento, mesmo que este tenha que ser mantido por vários meses. Isso permitiu a redução da incidência da tuberculose no Brasil, porém ainda estamos longe da resolução do problema.

No conto Corpo Fechado, do livro Sagarana, Guimarães Rosa faz referência à tuberculose, inicialmente referindo-se à doença em animais, no caso um pangaré raquítico da raça Tordilho, que os ciganos queriam vender como se fosse sadio: Depois, vieram pra mim, e me ofereceram dois cavalinhos: um pica-pau assim héctico, tordilho, e um matungo ruço, passarinheiro e de duas crinas...

No conto Campo Geral, do livro Manuelzão e Miguilim, o garoto Miguilim se preocupa se estaria sofrendo de tuberculose e busca apoio na cozinheira Rosa, há tempos agregada à sua casa, como uma autêntica pessoa da família.

Miguilim pergunta a Rosa:

- “Rosa, que coisa é a gente ficar héctico?”

- “Menino, fala nisso não. Héctico é tísico, essas doenças, derrói no bofe, pessoa vai minguando magra, não esbarra de tossir, chega cospe sangue...”

Miguilim deserteia para a tulha, atontava.

De fato, quando não havia tratamento, a infecção provocava cavernas pulmonares, por isso o emprego da expressão “derrói no bofe”. E, como referido, o emagrecimento era progressivo, a tosse persistente e os escarros sanguinolentos. Na sequência do texto anterior são descritos mais detalhes sobre a tuberculose e também sobre o personagem seo Deográcias, misto de professor, conselheiro e raizeiro, o único alfabetizado e com maiores conhecimentos terapêuticos no remoto Mutum, o pedacinho de sertão onde moravam:

Miguilim corria, tinha uma dor de um lado. Esbarrava, nem conseguia ânimo de tomar respiração. Não queria aluir do lugar – a dor devia de ir embora. Assim instante assim, comecinho dela, ela estava só querendo vindo pousando – então num átimo não podia também desistir de nele pousar, e ir embora? Ia. Mas não adiantava, ele sabia, deu descordo. Já estava héctico. Então, ia morrer, mesmo, o remédio de seo Deográcias não adiantava.

No mesmo conto Campo Geral, mais uma citação de “héctico” e a descrição do emagrecimento extremo, da falta de recursos nas brenhas onde moravam Miguilim e sua família, do risco de uma simples febre complicar para um mal maior e da opção pelo tratamento à base das plantas medicinais disponíveis. Isso tudo, pela peculiar interpretação de uma criança, e junto com palavras inventadas e traduções literais de expressões sertanejas, que infelizmente estão se perdendo ao longo dos tempos, por desuso, e de uma maneira que somente Guimarães Rosa foi capaz de reportar com tamanha perfeição:

- Miguiliiim!...

A Chica gritava dessa forma, feito ela fosse dona dele.

- ... Miguilim, vem depressa, Mamãe, Papai tá te chamando! Seo Deográcias vai te olhar...

Seo Deográcias ria com os dentes desarranjados de fechados, parecia careta cã, e sujo amarelal brotava por toda a cara dele, um espim de uma barba. – “A-há, seu Miguilim, hum... Chega aqui.” Tirava a camisinha.

- “Ahã... Ahã... Está se vendo, o estado deste menino não é p’ra nada-não-senhor, a gente pode se guiar quantas costelinhas Deus deu a ele... Rumo que meu, eu digo: cautelas! Ignorância de curandeiro é que mata, seu Nhô Berno. Um que desvê, descuidou, há- de-o! Entrou nele a febre. E, é o que digo: p’ra passar a héctico é só facilitar de beirinha, o caso aí maleja... Muito menino se desacude é assim. Mas, tem susto não: com ervas que sei, vai ser em pé um pau, garantia que dou, boto bom!...”

Ainda no Manuelzão e Miguilim, no conto Buriti, como valia de tudo para se tentar a cura do mal, é relatada mais uma forma esdrúxula de tratamento para a famigerada tuberculose:

Ela, acontece que tinha mesmo encomendado os caramujos, que a gente acha deles, demais, nas vargens veredantes. Por um divertimento? A crer. Se diz que caracol comido é remédio para tísico. Nojo! O caracol gosmando... Diz-se também que ela é hética. Nome dela é dona Dionéia...

Novas referências sobre a doença aparecem no livro Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo relata comovido o sofrimento de uma criança submetida a castigos cotidianos: O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos.

Em outro trecho do Grande Sertão: Veredas, por meio de uma comparação com o quadro clínico da tuberculose em bovinos, são descritos os sintomas que apresentava um jagunço do bando de Riobaldo: A tosse de um garrote entisicado. De fato, a tuberculose não é uma doença exclusiva dos seres humanos, que, aliás, adquiriram a infecção de auroques domesticados há cerca de dez mil anos. Os auroques eram os ancestrais selvagens do nosso gado de corte e de leite, que pastavam pelas pradarias da Europa e da Ásia. Como resultado do convívio íntimo entre animais e homens, podemos adquirir doenças de animais. Atualmente, a principal bactéria que provoca a tuberculose bovina é o Mycobacterium bovis, e tudo indica que os dois agentes infecciosos, o M. tuberculosis e o M. bovis, tiveram origem comum. Também nos animais a doença determina emagrecimento e tosse, o que era do conhecimento de Guimarães Rosa.

Um fato histórico de interesse é que nas Américas não existia o auroque e, portanto, o boi e a vaca foram trazidos pelos europeus. Com eles – gado e homens – veio também a tuberculose, que dizimou boa parte da população dos índios que aqui habitavam. Nossos nativos eram muito mais sensíveis à doença do que os colonizadores, que pelos cerca de dez milênios anteriores de contato, ao longo de várias gerações, eram parcialmente resistentes. O que ocorreu então, a partir do ano de 1500, foi um verdadeiro genocídio das tribos indígenas americanas, que foram dizimadas por várias doenças, dentre elas a tuberculose.

Guimarães Rosa, no livro No Urubuquaquá, no Pinhém, no conto O Recado do Morro, criou um personagem, seo Alquiste, que tem todas as características do naturalista dinamarquês Peter Lund. Era míope, louro, pele muito branca e se interessava por todos os detalhes da natureza, como plantas, bichos, pedras e grutas. Nesse conto, Rosa deixa explícito tal vínculo, ao se referir à gruta do Maquiné, que identifica como próxima a Cordisburgo, como uma lapa “lundiana”.

De fato, Peter Lund veio da Dinamarca para o Brasil por medo da tuberculose, que tinha vitimado vários de seus familiares. Tornou-se o pai da paleontologia brasileira, e suas atividades nessa área científica principiaram na gruta do Maquiné, situada a cinco quilômetros de Cordisburgo. Isso ocorreu no ano de 1835, quando a pequena vila ainda tinha o nome de Vista Alegre.

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