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Segunda, 14 de maio de 2018

Minas mais protegida

Propostas de novas Unidades de Conservação anunciadas pelo Governo de Minas irão garantir a proteção integral de quase 56 mil hectares de matas do Estado



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A criação da UC em Botumirim abrange desde cachoeiras e trilhas naturais ainda 100% preservadas: o que uma espécie de rolinha em extinção não faz?

A criação da UC em Botumirim abrange desde cachoeiras e trilhas naturais ainda 100% preservadas: o que uma espécie de rolinha em extinção não faz?

Em tempos de crise hídrica e mudanças climáticas, adotar e desenvolver iniciativas que garantam a preservação do meio ambiente é essencial para garantir um futuro mais sustentável para o ser humano e o planeta.

Foi o que aconteceu às vésperas do “Dia Mundial da Água”, durante encontro com ambientalistas e conselheiros da Revista Ecológico, quando o governador Fernando Pimentel pré-anunciou e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad-MG) agora comprovou: a proposta em andamento de criação de seis Unidades de Conservação (UCs) em regiões de Minas Gerais onde a devastação e a falta d’água são mais críticas.

As unidades somam 55.962 hectares, uma área equivalente a 52 mil campos de futebol, e estão localizadas na Região Metropolitana da BH, Zona da Mata, Norte de Minas, Alto Paranaíba e Quadrilátero Ferrífero.

A proposta de criação de uma das primeiras UCs – o Parque Estadual do Botumirim –, no Norte do Estado, foi debatida junto à população dos municípios de Botumirim e Bocaiúva nos dias 13 e 14 deste mês. Mais de 200 pessoas, incluindo moradores, autoridades e representantes de entidades de classe, participaram das reuniões de consulta pública. Na ocasião, técnicos do Instituto Estadual de Florestas (IEF) apresentaram detalhes sobre a área demarcada para a criação da UC.

“Será criado um grupo de trabalho, com integrantes do IEF e moradores das duas cidades, para tratar de aspectos da regularização fundiária da área e a revisão dos limites do parque”, afirmou Paulo Fernandes Scheid, gerente de criação de Unidades de Conservação do IEF. O local é composto, em sua maioria, por campos rupestres, e tem fauna e flora riquíssima.

Segundo Scheid, o IEF agora irá avaliar as sugestões e críticas da comunidade e o material será incorporado aos estudos técnicos feitos pela equipe do instituto. Na sequência, o documento final será encaminhado ao governador para posterior publicação oficial, consolidando a criação da UC, que tem área proposta de 36.188 hectares e preserva um rico patrimônio arqueológico histórico e pré-histórico, com destaque para os grafismos rupestres.

O parque (leia mais a seguir) guarda ainda nascentes de importantes rios da região do Vale do Jequitinhonha, fundamentais para o abastecimento hídrico da população e das práticas agropecuárias de subsistência. E abriga uma ave raríssima e altamente vulnerável, a rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) (foto superior à esquerda). Dada como extinta pela ciência, ela foi avistada recentemente na região, fato que reforça ainda mais a necessidade de criação da UC.

A seguir, a Ecológico apresenta com exclusividade quais são e onde estão localizadas as áreas verdes propostas pelo governo estadual:

 

(*) Com informações de Emerson Gomes/Ascom/Sisema.


1. Parque Estadual de Botumirim

Região: Norte de Minas/Serra do Espinhaço

Área: 36.188 hectares

Campos rupestres com flora riquíssima, endêmica (Drosera graminifolia e Drosera tomentosa) e com a presença de espécies ameaçadas de extinção (Richterago hatschbachii e Pitcairnia bradei), consideradas de grande relevância para conservação;

Destaca-se a ocorrência de Schefflera botumirensis, espécie arbustiva endêmica do Estado de Minas Gerais e de ocorrência restrita à região da Serra da Canastra em Botumirim;

A ocorrência de pequizeiros, árvores que possuem status especial na legislação ambiental mineira, devido a sua importância ecológica e econômica, do ponto de vista de utilização por populações extrativistas;

Há o registro de duas espécies endêmicas e consideradas raras de aves, o capacetinho-oco-de-pau (Poospiza cinerea), e a bandoleta (Cysnagra hirundinacea), além da ocorrência da espécie Conopophaga lineata (chupa-dente), considerada em perigo de extinção, conforme os critérios da IUC;Botumirim foi considerada em 2006 pela SAVE Brasil/BirdLife como uma das áreas importantes para conservação de aves no mundo, sendo denominada IBA – MG 07;

De acordo com a DN COPAM nº 147/2010, estão na categoria de ameaça algumas espécies da mastofauna que possuem ocorrência na área proposta para criação da UC, como o lobo-guará, o catitu e a lontra;

As áreas de interesse à incorporação ao Parque Estadual de Botumirim estão inseridas em região estratégica de conectividade com outras áreas de interesse ambiental, fazendo parte do planejamento de ordenamento territorial para fins de criação de corredores ecológicos;

O potencial espeleológico pela ocorrência de cavidades naturais, as quais carecem de aprofundamento de estudos científicos em relação às suas características cársticas e bioespeleológicas.

2.Parque Estadual de Rio Manso

Região: Região Metropolitana BH (Colar Metropolitano)

Área: 8.962 hectares

A área de conservação possui grande parte de sua extensão coberta pela vegetação natural da região, com pouca ou quase nenhuma modificação antrópica;

Presença de espécies raras, endêmicas ou ameaçadas de extinção. Essas espécies são possivelmente as que desapareceriam primeiro caso as modificações em seus hábitats continuassem. Assim, elas devem ser consideradas como prioritárias para a conservação;

Representatividade da região ecológica natural;

Complementaridade ao atual Sistema Nacional de Unidades de Conservação. A unidade de conservação proposta contribuirá para a conservação de ecossistemas/paisagens ainda não protegidas dentro da região ecológica natural;

Diversidade de ecossistemas e de espécies ocorrentes;

Área consolidada e disponível para implantação de uma unidade de conservação;

Elevado grau das pressões humanas sobre a área, principalmente da mineração e agricultura;

Grande biodiversidade, presença de espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção, sendo essa uma área constituída de uns dos principais remanescentes da região.

 

3. Refúgio de Vida Silvestre Alto Araguari

Região: Alto Paranaíba

Área: 6.037 hectares

Presença de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade do Cerrado e do Pantanal, indicadas na 2ª avaliação (MMA, 2014)

Proteger um trecho do Rio Araguari como rio de fluxo livre, em uma região de alta susceptibilidade à erosão, reduzindo os riscos à qualidade da água;

Manter a fisiografia de um trecho do rio Araguari, essencial para espécies de peixes migradoras, reofílicas e ameaçadas de extinção;

Proteger pelo menos 11 territórios comprovados do pato-mergulhão, ou 9% da população global da espécie considerada criticamente em perigo de extinção em Minas Gerais;

Proteger as matas ciliares e de galeria, essenciais para nidificação e refúgio para o pato-mergulhão;

Favorecer a proteção da Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra da Canastra, considerado uma área prioritária de extrema importância biológica em Minas Gerais;

Proteger mais de 600 hectares de vegetação ciliar que seriam inundados por sete PCHs, em uma região cuja cobertura vegetal já foi fortemente alterada;

Formar um corredor de biodiversidade envolvendo o PARNA Serra da Canastra e o REVIS Alto Araguari aqui proposto;

Ampliar a representatividade dos ecossistemas de água doce no Sistema Estadual de Unidades de Conservação;

Estimular a revitalização do distrito de Desemboque, importante marco da históriae cultura da região.

4. Parque Estadual Fazenda Boa Esperança

Região: Região Metropolitana BH (Colar Metropolitano)

Área: 318 hectares

O estudo técnico encontra-se em fase de elaboração, visando levantar as características da área e apresentar as justificativas para criação da Unidade de Conservação.

 

5. Monumento Natural Jardim Botânico de Ouro Preto

Região: Quadrilátero Ferrífero

Área: 172 hectares

A região tem sítios arqueológicos de grande potencial turístico;

Os aspectos ambientais, arqueológicos, históricos e culturais viabilizam a inserção da UC Jardim Botânico no roteiro turístico da cidade;

A área do Jardim Botânico possui capacidade de atuar como um corredor ecológico, consolidando a conectividade entre as unidades de conservação circunvizinhas;

Potencializar o fluxo gênico e a movimentação da biota, fortalecendo a conservação da flora e fauna regional e protegendo espécies ameaçadas de extinção;

A região do Jardim Botânico possui um grande potencial hídrico, garantindo a continuidade e a qualidade das fontes de captação de água superficial nesse local;

É importante manancial para o abastecimento público de Ouro Preto;

Os fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual possuem um bom estado de conservação.

6. Parque Estadual Serra

Negra da Mantiqueira

Região: Zona da Mata

Área: 4.285 hectares

A região está entre as áreas prioritárias para conservação da biodiversidade, tanto na avaliação Nacional quanto na Estadual;

Possui papel importante na produção de água, uma vez que faz parte do complexo serrano da Mantiqueira; 

A área contribuirá para a manutenção da variabilidade genética da fauna/flora dos ecossistemas da região; 

Contenção das degradações e ameaças pela mineração, monoculturas e turismo desordenado; 

Guarda o maior remanescente de fragmento da floresta atlântica (mata úmida de altitude) continua da região do Circuito Serras de Ibitipoca; 

Ocorrência de espécies raras, endêmicas, novas e ameaçadas de extinção; 

Possibilidade de aumentar a geração de emprego e renda através do turismo ecológico sustentável, uma vez que esta atividade vem sendo desenvolvida na área sem nenhum controle e sem os estudos de impacto; 

Criar alternativa de expansão turística no circuito Serras do Ibitipoca; 

Quase inexistência de moradores no perímetro proposto para instituição da UC; 

Atração e promoção de eventos culturais, sociais e ambientais; 

Planejamento da expansão urbana sobre áreas rurais.

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