Segunda, 14 de maio de 2018

A mulher hídrica

Marília Melo, Diretora Geral do IGAM, fala à Ecológico sobre maternidade, a qualidade das águas de Minas e a escassez hídrica

Hiram Firmino e Luciano Lopes- redacao@revistaecologico.com.br



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A mulher política:

A mulher política:" Sou contra a privatização da água e do saneamento. Meu partido é o meio ambiente"

Geminiana com ascendente em escorpião, Marília Carvalho de Melo é uma mulher de fibra. Aos 39 anos, casada e mãe de três filhos, aprendeu a equilibrar maternidade e profissão sem perder o olhar romântico sobre a vida e o trabalho. Obstinada, de fala firme, politizada e onipresente nos eventos que tratam a questão da água - seja representando o Governo do Estado seja ouvindo o homem simples do campo e as comunidades atingidas por tragédias como a de Mariana -, seu rosto enigmático lembra a famosa “Monalisa”, de Leonardo Da Vinci. São unânimes a admiração e o respeito que Marília tem de seus pares.

Nesta entrevista à Revista Ecológico, a atual diretora-geral do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) defende que a responsabilidade pela preservação da água não é só do Estado, mas também das empresas e da sociedade. E é totalmente contra a privatização da água e do saneamento. “O acesso à água deve ser garantido a todos, independentemente da condição social”, ressalta ela, que também já foi subsecretária de Monitoramento e Fiscalização Ambiental do Igam e secretária-adjunta da Semad.

Que mistérios tem Marília? Confira:
 

De qual região de Minas é sua família?

Minha mãe, Ciomara, é de Nepomuceno, Sul de Minas, de onde saiu aos 15 anos para estudar em Belo Horizonte. Formou-se em engenharia química e trabalhou no Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec) até se aposentar. Meu pai, Marcos Túlio, é engenheiro civil como eu. E sempre teve grande sensibilidade em relação à questão ambiental, apesar de nunca ter trabalhado na área. Do casamento de minha mãe com meu pai sou filha única. Nasci em BH e tenho seis irmãos. Somos quatro filhos engenheiros. Meus pais contam que, desde pequena, já dizia que seria engenheira. A primeira palavra que falei, ainda bebê, foi “água”.

 

Como se deu o ingresso na área ambiental, mais precisamente na gestão hídrica? 

Quando entrei nessa área estava no quinto período de engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e acreditava que iria trabalhar com obras. Depois de um estágio, vi que não era o que eu queria. Naquela época, Willer Pos [ex-presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e ex-diretor do Igam] estava voltando dos Estados Unidos, depois de um doutorado, e começou a trabalhar na UFMG. Lá, ficou sabendo de um processo seletivo para estudantes, por meio de bolsa científica, para trabalhar no Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental. E sugeriu à minha mãe, de quem era amigo, que eu me inscrevesse. Participei da seleção e fui aprovada. Foi assim que tudo começou. Lá se vão mais de 16 anos trabalhando com água.

 

Como foi a sua trajetória profissional?

Minha mãe sempre trabalhou com meio ambiente no Cetec, pois coordenava o Laboratório de Medições Ambientais. Ela e o Willer tiveram papel determinante na minha trajetória profissional. Foi ele quem me convidou, em 2002, para trabalhar no Igam, na época em que era o diretor-geral. Logo depois, fui aprovada em concurso público. Quando entrei, fui trabalhar na área de Outorga. Depois de um ano, comecei a fazer mestrado em Recursos Hídricos, com foco em qualidade da água. Defendi meu mestrado em 2006 e, no ano seguinte, o então secretário estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, José Carlos Carvalho, me convidou para assumir a diretoria de Monitoramento e Fiscalização Ambiental do Igam. 

 

Que lembranças guarda dessa época?

Foi um momento muito bom para o Igam. Zé Carlos foi inspirador para todos nós, uma pessoa que sempre geriu aquela secretaria com o coração. Era a causa dele, assim como a do José Cláudio Junqueira, que assumiu a Feam. Eu me apaixonei pela área ambiental, que passou a ser minha causa também. Não dá para trabalhar com algo que você não ama ou não acredita.

 

Você teve seu primeiro filho em 2006. Como concilia trabalho e maternidade?

Trabalhava tanto que me perguntava se teria ou não filhos. Ser mãe é algo que exige muita dedicação. Mas sempre tive vontade de viver a maternidade e hoje tenho três filhos. A minha história com o primeiro, Vitor, é muito interessante. Logo depois que ele nasceu, o Adriano Magalhães foi nomeado para a Semad. Na posse dele, eu estava de férias com meu marido e minha família em Itaúnas (ES). No meu segundo dia lá, o Adriano me ligou, pedindo para que eu voltasse e assumisse a Subsecretaria de Fiscalização, que estava sendo criada e trazia um grande desafio: organizar a fiscalização integrada (Igam, Feam e IEF) no Estado.

 

Qual era a proposta?

Estruturar uma nova forma de fiscalizar. O que me incomodava era o fato de termos uma fiscalização sem base técnica para direcionar o trabalho. Implementamos uma metodologia que é usada até hoje, na qual reunimos todos os dados gerados pelo Sisema (monitoramento da qualidade da água, cobertura vegetal, inventário de áreas degradadas, monitoramento de poluição do ar, etc.) e identificamos as áreas que requerem atenção urgente.

 

E o Vitor, ele te acompanhava nas viagens de trabalho?

O pediatra dele falava que eu era uma “mãe-caracol”, que levava a casa nas costas. Quando viajava, ia acompanhada da babá dele e de um monte de malas. Gosto muito da minha profissão, mas queria tanto viver a maternidade que o Vitor teve de me acompanhar durante um ano e oito meses em viagens de trabalho, porque eu o amamentava. Ele conheceu o Brasil comigo. Nessa época também assumi a coordenação da Câmara Técnica de Outorga do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos e tinha muita viagem fora. E o Vitor sempre comigo. Foi meu companheirinho.

Recebeu algum conselho especial antes de assumir a diretoria do Igam?

Meu padrasto, Jorge, sempre me alertou que eu não deveria ser burocrata de estado, ficar só batendo carimbo. Disse que eu tinha de continuar estudando, pensando diferente. E eu me obrigo a isso. Em 2010, comecei meu doutorado. Quando assumi o Igam, em 2013, percebi que eu precisava de formação gerencial e fui fazer especialização na Fundação Dom Cabral. Também sou professora  e já lecionei na UFMG, PUC e Kennedy. Atualmente coordeno um mestrado profissional em Recursos Hídricos na UninCor.
 

Quando estava grávida de seu segundo filho, Jorge, você foi nomeada secretária-adjunta de Meio Ambiente na gestão de Sávio Souza Cruz (2015). Quanto tempo ficou no cargo?

Quase um ano. Fui nomeada em março, acumulando também o cargo de diretora-geral do Igam. Quando recebi o convite, avisei ao novo secretário que estava grávida, prevendo o empecilho que seria ter de me afastar do trabalho quando ele mais precisaria de mim. Fiquei surpresa com sua reação: ‘Qual o problema disso?’. Agradeço a ele essa sensibilidade e respeito por um momento que era importante para mim. Meu filho Jorge [que recebeu este nome em homenagem ao padrasto dela] nasceu em 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Como estava em licença-maternidade, consegui concluir meu doutorado no fim do ano.

 

E o terceiro filho?

Nasceu em 2017. Foi o Vitor quem escolheu o nome: Rafael. Fui ler sobre o seu significado e descobri que, segundo está na Bíblia, Rafael foi o único anjo que veio para a Terra como ser humano. Quando ele se materializou, chamou-se Azarias. E Vitor tem o mesmo nome do meu avô materno, Vitor Azarias de Carvalho. Coincidências da vida?

 

Ele também teve de acompanhá-la nas viagens a trabalho?

Eu estava em nova licença-maternidade quando o nosso atual secretário, Germano Vieira, me convidou para reassumir a diretoria-geral do Igam, no início deste ano, pois tinha voltado para a subsecretaria de Fiscalização e Controle Ambiental no final da gestão do Sávio. A “mãe-caracol” voltou novamente (risos). Levei Rafael e a babá para Brasília (DF), onde participei do Fórum Mundial da Água. Foi a primeira viagem dele.

 

Como você lida com os gargalos de trabalhar no setor público?

Meu pai me ensinou que nem sempre as coisas caminham na velocidade que a gente quer e que nem sempre vamos chegar ao objetivo que queremos. Mas se conseguirmos dar passos importantes rumo ao que acreditamos - um meio ambiente ecologicamente equilibrado - já é compensador. O meu partido é o meio ambiente, é a água. Passei do governo do PSDB para o do PT em cargos que já ocupava. Tenho minhas bases ideológicas independentemente de qualquer partido político. Acredito na gestão de recursos hídricos, na gestão ambiental, na prestação de um serviço público de qualidade, de responder à sociedade com o que ela espera da gente. Geralmente temos a tendência de achar que a nossa causa é mais importante que a dos outros, mas meio ambiente e recursos hídricos ainda não são entendidos nos governos, de maneira geral, como prioridade. E sim como final de linha de política pública, quando deveria ser começo. Se você investe R$ 1 em saneamento básico, por exemplo, isso retorna quatro vezes mais para a área de saúde.

 

O avanço é lento, mas sem retrocessos?

Em alguns momentos, a gente dá dois passos para trás para poder dar três para frente. Governar, às vezes, é isso. São forças contraditórias que precisam ser administradas com muito planejamento. O ex-secretário José Carlos Carvalho dizia que bom gestor é aquele que faz alguma coisa independentemente das dificuldades.

 

Qual a situação da qualidade das águas em Minas Gerais hoje?

Lançamos recentemente o “Mapa de Qualidade da Água” e inovamos na avaliação dos dados: fizemos uma análise estatística que apontou onde há tendências de melhora, piora ou manutenção. Atualmente monitoramos aproximadamente 600 pontos no estado. As bacias hidrográficas mais críticas (Velhas e Paraopeba) são aquelas onde há maior concentração populacional. A bacia do Verde Grande, no entorno de Montes Claros, Norte de Minas, e a do Mucuri, no Leste, infelizmente também vivem essa situação. Já os rios Paranaíba e Jequitinhonha, por exemplo, apresentaram qualidade de água melhor. Na maioria dos pontos monitorados, a tendência é de manutenção da qualidade de água, o que é bom. Dos 115 pontos que apresentaram tendência definitiva, 74 indicaram melhora da qualidade do recurso hídrico.

 

Como Minas pode reverter o cenário de piora?

Apesar da riqueza ambiental que ainda temos, não podemos deixar a degradação avançar. É preciso recuperar as áreas degradadas, investir em saneamento e ações efetivas de fortalecimento do binômio floresta-água. Belo Horizonte é a única região metropolitana do país que ainda se abastece de águas do seu próprio território. Isso é um privilégio. Ainda temos uma grande oportunidade, pois temos áreas muito preservadas no entorno da capital e no Quadrilátero Ferrífero que são importantes produtoras de água. Algo que Rio e São Paulo não têm, e cada dia vão mais longe para captar água.

Minas está preparada para enfrentar a crise hídrica?

Estamos vivendo uma mudança no comportamento hidrológico. Não me sinto à vontade para falar em mudanças climáticas, porque não sou especialista nisso. Mas a  alteração no ciclo hídrico, na dinâmica do clima e no regime pluvial está trazendo uma série de impactos para a natureza e a sociedade. Desde 2011 há um declínio do índice de chuvas no estado, que repercute na vazão dos rios. Esse é um fator de escassez hídrica, mas não é o único. A culpa da dificuldade da gestão de água que vivemos é histórica. A escassez começa com o processo de degradação da qualidade da água. Uma vez poluída, ela não está disponível para uso. E a água limpa disponível que temos não está em quantidade necessária para nos atender. Estamos potencializando essa escassez hídrica por causa da superexplotação de água subterrânea. Ela diminui a vazão dos rios e rebaixa o nível do lençol freático.

 

Então é preciso repensar o atual modelo de gestão de água?

Sim. A água, como toda a natureza, tem uma capacidade fenomenal de se reestruturar e autorregular. Se você fechar todos os poços tubulares que estão explotando água, independentemente do local, logo depois o nível do lençol freático e de vazão dos rios se restabelece. A quantidade de água no planeta é a mesma desde que o mundo é mundo. O que provoca a diminuição de sua quantidade é o excesso, muitas vezes desnecessário, de uso.

 

Por que as pessoas ainda não entendem efetivamente a importância da conservação da água em suas vidas?

É preciso compreender que a água traz um histórico, é uma radiografia do território por onde ela passa. É um dos maiores indicadores da qualidade ambiental de uma região. Quando se afirma que há mais ferro na água do Quadrilátero Ferrífero do que aqui é porque isso é uma condição natural de lá.

 

Você pode dar um exemplo de município mineiro que se destaca no enfrentamento da escassez hídrica?

Extrema, que fica no sudoeste de Minas. Acompanho a experiência da cidade com a produção e cuidado com suas águas desde 2002. A disponibilidade hídrica e a qualidade do recurso aumentaram muito lá. E eles fizeram isso basicamente por meio da restauração florestal, plantando árvores e cercando nascentes e mananciais.

 

É contra a privatização da água?

Sim, e do saneamento também. O acesso à água deve ser garantido a todos, independentemente da condição social. Vários países que privatizaram o saneamento estão voltando atrás. No Brasil já existe uma marginalização desses serviços. E, com isso, a situação pode piorar ainda mais.

 

Em relação ao Rio Doce, como está o acompanhamento da recuperação do rio?

A Bacia do Doce é hoje a mais monitorada no estado, em razão do acidente de 2015 e da necessidade de se acompanhar a sua recuperação. O Igam está atuando muito nessa linha de monitoramento e avaliação de qualidade da água. A Semad está tratando a questão da recuperação de maneira mais ampla. O impacto sobre a qualidade da água é inegável, mesmo já apresentando em alguns locais índices próximos aos de antes do acidente e levantando em consideração que a bacia já estava degradada. O nosso monitoramento é físico-químico e já identificamos que a turbidez diminuiu.

 

Qual é a sua visão sobre o trabalho que está sendo feito pela Fundação Renova?

De que há muitas ações em curso, mas a velocidade que elas acontecem deveria ser maior. A Fundação tem orçamento garantido. A responsabilidade dela de recuperação da Bacia do Doce é triplicada, principalmente porque têm todas as condições para fazer o trabalho. Em termos de resultados práticos, nesses dois anos, temos pouca coisa ainda. A instituição está em um momento de organização de planejamento de execução, e o Igam estará atuando mais forte nas ações de recuperação da bacia.

 

O saneamento faz parte desse pacote?

Faz e está avançando. O governo, inclusive, anunciou um repasse de R$ 390 milhões, por meio de recursos a serem disponibilizados pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), para municípios da região do Rio Doce afetados pelo rompimento da barragem da Samarco. O dinheiro será utilizado para aplicação em saneamento e destinação final de resíduos sólidos.

 

A água também é uma fonte de ensinamento. Qual a principal lição que você aprendeu trabalhando com a questão hídrica?

Primeiro, que a água tem a capacidade de se reestruturar. Isso é lindo. Outra coisa é o respeito. A água tem seu caminho. Não adianta querermos interrompê-lo. Não adianta construir uma cidade no caminho de um rio e achar que o problema é dele. A água é um elemento muito forte.

 

Você tem esperança em uma mudança de atitude do ser humano em relação ao cuidado com a água?

Tenho esperança sim. Mas, infelizmente, na nossa história moderna, as pessoas só se mobilizam no caos, na dor. Temos 75% de água no corpo, ela é parte de nossas emoções. E os problemas hídricos só serão resolvidos se a busca pelas soluções for movida pelo coração, e não pela razão. É preciso vermos a água não como mercadoria, mas como algo sagrado. Como mulher, sou pragmática em muitas coisas, mas não consigo ter um olhar que não seja romântico com a questão hídrica. A partir do momento que traduzirmos para a sociedade que meio ambiente é tão importante quanto saúde e segurança pública, e que é preciso romper com o modelo de desenvolvimento que vivemos, aí estaremos evoluindo para um padrão de vida realmente melhor.

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