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O homem é o câncer do planeta. Mas pode deixar de ser"

Luciano Lopes e Fernanda Mann (*) - redacao@revistaecologico.com.br



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ERNST GÖTSCH:

ERNST GÖTSCH: "O planeta é um macroorganismo. Suas relações são baseadas unilateralmente no amor incondicional e na cooperação"

Quando visitou o Brasil pela primeira vez, nos anos 1960, o pesquisador e agricultor suíço Ernst Götsch ficou encantado com a natureza exuberante do nosso país. E também impressionado pela forma como ela vinha sendo destruída pelas monoculturas.

Na época, Ernst já trabalhava com melhoramento genético vegetal no renomado Instituto Zurique-Reckenhol, na capital suíça, e depois passou também a desenvolver sistemas agroflorestais.

Depois de morar na Costa Rica, mudou-se para o Brasil no início dos anos 1980, quando adquiriu uma fazenda – que recebeu o nome de “Fugidos da Terra Seca” – no município de Piraí do Norte, sul da Bahia. O solo pobre da região, arrasado pelo desmatamento e pela criação de gado, era o cenário perfeito para implantar os sistemas que desenvolvera.

Deu certo.

A iniciativa do suíço mudou a paisagem local, trazendo a Mata Atlântica de volta. Hoje, nos mais de 500 hectares da propriedade [350 deles foram transformados em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e 120 em Reserva Legal (RL)], floresta e agricultura convivem em harmonia. Quatorze córregos, antes secos, renasceram no solo revegetado e fizeram Ernst mudar o nome da fazenda para “Olhos D’Água”.

Aos 70 anos, o agricultor também é o criador do conceito de “agricultura sintrópica”, conjunto de técnicas e práticas que conciliam produção agrícola e recuperação de áreas degradadas. Por meio do estabelecimento de áreas altamente produtivas e independentes de insumos externos, garante ele, há naturalmente a oferta de serviços ecossistêmicos, regulando o clima, favorecendo o solo e o ciclo da água.

Com jeito simples e sorriso marcante, o pesquisador afirmou, em depoimento à Ecológico, durante sua participação no “Seminário Internacional sobre Mudança Climática e Biodiversidade”, realizado no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), que o ser humano tem de parar de interferir  de forma desarmoniosa nos ecossistemas.

“O homem é o câncer do planeta. Só pensa em como pode se aproveitar das coisas. E nunca o que pode fazer para ser útil dentro do sistema”, ressalta.

E deixou uma mensagem: “As pessoas podem fazer o que quiserem, mas devem respeitar apenas uma lei: a do macroorganismo, que é a Terra”.

Confira a entrevista:  

Qual é a diferença entre agrofloresta e agricultura sintrópica?

Na agrofloresta, plantam-se elementos arbóreos com herbáceas, como a banana, o mamão, etc. Já agricultura sintrópica é um conceito que passeia pelos princípios da ética e do funcionamento da vida do planeta. Ela é baseada em técnicas que usam a sucessão natural como ferramenta para implantação e manutenção de cada passo. A agricultura sintrópica não se trata apenas de rotação ou consórcios. Entendemos a lógica sintrópica que rege a vida no planeta e sincronizamos nossos plantios a essa lógica, reestabelecendo ecossistemas ao mesmo tempo em que produzimos.

Sintropicamente, como se dá as relações entre as espécies?

O planeta é um macroorganismo. As relações são baseadas unilateralmente no amor incondicional e na cooperação. E não na concorrência ou competição fria, que é como o homem acredita ser. Se ele age dessa forma, chega ao ponto em que estamos hoje: não há interação entre as pessoas, porque ninguém quer ser explorado. E esse ato de recusa acaba causando escassez de alimento e água, conflitos, guerras, falência e morte. A aplicação dos princípios incondicionais da cooperação faz com que todos os que interagem entre si sejam prósperos e abundantes. A abundância é o fundamento, a precondição para a paz.

De que forma o princípio da cooperação está presente em seu trabalho diário?

Sou um agricultor apaixonado e trabalho com companheiros fiéis. Eles não fingem, não mentem, amam o que fazem. É maravilhoso estar com eles.

Significa então que cada indivíduo é importante no todo...

Sim. Em um macroorganismo, qualquer interação desarmoniosa entre as partes que o constituem provoca modificações no ambiente. O que estamos enfrentando hoje é resultado disso. Os impactos ao ambiente e as alterações provocadas nele aumentam e se agravam de forma exponencial. Nos últimos 10 mil anos, temos convivido com essa realidade primeiro localmente e depois globalmente. O resultado é um colapso da civilização, com falta de água, comida e guerras.

Como a agricultura sintrópica pode contribuir para mudar essa realidade?

Quando se sente ameaçado, explorado, o ser humano prontamente reage, não aceita. Isso também acontece com as plantas e os animais. Como agricultor, quero que o resultado das minhas interações seja benéfico, para assim ter efeitos unilateralmente positivos para todas as espécies. Quando você olha uma delas como inimiga, a coisa muda...

Está se referindo às pragas e doenças que atingem as plantações?

Sim. Quer uma comparação? Combatê-las é a mesma coisa que pegar uma metralhadora e matar bombeiros que vêm para apagar um fogo na sua casa. Estimular a interação entre integrantes de um sistema “imunológico” e depois eliminá-los não é inteligente. A meu ver, as pragas otimizam os processos da vida na natureza e se proliferam porque têm uma tarefa a realizar: a de seleção e equilíbrio natural.

Pode citar um exemplo prático?

Quando temos uma inflamação, há um aumento de glóbulos brancos. Combatê-los com antibióticos não resolve o caso. Trará alívio por um determinado tempo, mas não eliminará a causa da inflamação. Se fizermos isso de forma contínua, surge a doença crônica. O sistema entra em colapso e morre. Isso tem muito a ver com a agricultura.

Por que o ser humano ainda reluta em se ver como parte de um macrossistema?

Ele é o câncer do planeta. De certa forma, o ser humano se comporta de modo ensimesmado e alheio ao exterior, fechando-se em seu próprio mundo. Só pensa em como pode se aproveitar das coisas. E nunca o que pode fazer para ser útil dentro do sistema. E mais: apenas o homem e seus animais domesticados vivem do princípio do imperativo categórico, que é quando o ser humano eleva suas crenças ao status de lei universal. Isso significa agir quando quer, da forma que quer e apenas em benefício de si mesmo. Resumindo: você tem de agir de modo que aquilo que você faz para o próximo seja o mesmo que você espera receber.

O senhor já afirmou que, se uma árvore não estiver mais cumprindo sua função ecológica em um sistema, ela deve ser suprimida. Poderia explicar melhor essa questão?

A maioria das pessoas desconhece as funções da natureza. Sobre a questão das árvores, faço a poda para tentar criar ecossistemas naturais parecidos com os originais. Antigamente, por todo o Brasil havia florestas. Desde os Pampas, no Rio Grande do Sul, até o Cerrado. Aliás, se você pensar em noções de biodiversidade e proteção o próprio nome, “cerrado”, é contraditório para um bioma, correto? [O termo cerrado significa “fechado”, “coberto”, como o bioma era originalmente]. Biodiversidade é algo muito importante. Ano passado, plantei milhares de sementes de mirtáceas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Elas estavam crescendo bem. Poucas semanas depois, botaram fogo na região e as mirtáceas viraram cinzas. O parque foi um dos poucos locais em que vi exemplares grandes dessa espécie, algumas com flores de dez centímetros. Apesar disso, ainda tem quem pense que cerrado é savana...

Qual é a diferença?

Quem chama cerrado de savana provavelmente nunca viu uma. Na savana, há muitos herbívoros e os antílopes são bem maiores do que os do cerrado. É o caso dos hipopótamos, das zebras e dos elefantes, que são essenciais para o manejo da floresta. Na savana, as girafas é quem podam as árvores!

A maioria dos cientistas afirma que o senhor tem uma visão mais teleológica (finalidade das coisas) do que teológica (manifestação divina) do meio ambiente. Concorda com eles?

Acredito que cada indivíduo, de cada espécie e de todas as gerações, está preparado para cumprir suas funções movido pelo prazer interno, uma força única que lhe dá energia para realizar tais tarefas. Quando isso acontece, seu trabalho não é mais “o suor do seu rosto”, é algo gratificante, prazeroso. É como chegar ao fim de um excelente dia de trabalho, feliz da vida, deitar-se na cama e dizer: “Poxa, hoje foi um dia bom!”. É assim que deveríamos chegar ao fim de nossas vidas, com a boa sensação de que cumprimos nossa missão. Mas isso geralmente não acontece.

Por quê?

Antes de chegar à chamada terceira idade, as pessoas ficam rancorosas e com medo de morrer. E muitas vezes acabam não fazendo o que devem ou é preciso. Se você cumpriu o seu papel, sairá de cena, porque o planeta e a natureza precisam seguir em frente. Outro fato importante é que cada ser que aparece na Terra automaticamente transforma seu metabolismo para se adaptar. E é o macroorganismo que define para onde você vai.

Mas o ser humano continua arrogante...

Infelizmente. Não consegue enxergar que não é a espécie mais inteligente que habita o planeta. É preciso descer desse falso pedestal! Se observarmos nosso comportamento como espécie, veremos o quanto somos ignorantes. Hoje, temos milhares de pesquisas e estudos louváveis de descoberta e descrição das espécies existentes na Terra. Mas ainda não foi possível mapear todas. Parte das que sobreviveram está mapeada. Mas, e aquelas que destruímos sem nem mesmo conhecê-las?

Em sua visão, há alguma lei ecológica universal que reja todas as outras e, indiscutivelmente, deva ser respeitada?

Sim. A lei da Terra, do macroorganismo, do qual somos parte. É ele quem define como devemos pensar e agir para fazer a vida continuar no planeta. Já pensou se tivéssemos de respeitar apenas as próprias leis que criamos? Leis não podem ser dadas em nome apenas da economia e do dinheiro. Não somos deuses do Olimpo para criarmos as nossas próprias leis.

O que fazer, então, para que a natureza siga seu ciclo harmonioso e o ser humano tenha sua sobrevivência assegurada?

As pessoas podem fazer o que quiserem, mas devem respeitar apenas uma lei: a do macroorganismo. Não temos outro lugar conhecido para viver no universo. Essa nossa relação desarmoniosa com a Terra induz modificações, tornando nossa presença inoportuna. Criamos civilizações que só sabem devastar florestas e exaurir os recursos naturais. E não se dão conta de que, no final, não é a natureza que vai desaparecer. Mas sim o homem.

Reflexões de Enerst

“O paraíso é o lugar onde você cumpre a sua função e é feliz por isso.”

“E se nós melhorássemos as condições que damos às plantas em vez de ficar tentando buscar características genéticas nelas que as façam suportar nossos maus-tratos?”

“Complementar à entropia, a sintropia caminha do simples para o complexo, no sentido do aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada.

* Colaboração: Dayana Andrade e Felipe Pasini.

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