Quarta, 18 de abril de 2018

Frutos de um mesmo amor



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Água e natureza não dependem de nós, humanos. Nós é que dependemos delas.

Água e natureza não dependem de nós, humanos. Nós é que dependemos delas.

Uma reflexão ecumênica para reavivar a esperança e a gratidão pela existência de todas as formas de vida. Movidos por esses e outros bons sentimentos, num palco decorado com arranjos de gérberas brancas – símbolo da beleza e da energia positiva da natureza –,  representantes de diferentes crenças se reuniram para dialogar sobre “Água e Espiritualidade”.

 Num tocante encontro do sagrado com a vida, a plateia se emocionou com a bênção da água, enquanto o adocicado cheiro de manjericão tomava conta do auditório lotado. Foram inúmeras as mensagens positivas e também marcantes os alertas sobre a urgência de reconexão com a água, com a natureza e com a teia que sustenta a existência humana no planeta.

Respeito, cuidado, cooperação e ética foram alguns dos valores citados e, não por acaso, cada vez mais esquecidos em tempos de rotinas marcadas pelos excessos da tecnologia e pela impessoalidade dos aparatos eletrônicos.

“Compartilhar saberes é ampliar horizontes. Revigora nosso elo com o sagrado, tendo a natureza como algo divino e, a água, como a grande fonte da vida. A água é um ser de confluência, elemento vital que nos une ao universo”, pontuou a mediadora do painel, a primeira-dama do Distrito Federal, Márcia Rollemberg, explicando que o encontro teve como inspiração a convergência e a fluidez das águas.

Invocando Deus como “O Clemente” e “O Misericordioso”, o presidente do Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil, Abdel Halim, disse que a água é um instrumento de purificação enviado por Deus. “Nem a terra nem os céus: o dono da água é o nosso Senhor e Criador. A humanidade deve se voltar para o caminho ensinado por Deus, pautado na ética, na moralidade, na boa conduta, na justiça e no bom caráter.”

Fundador do Ministério Sara Nossa Terra, o bispo Robson Rodovalho relembrou ensinamentos de Cristo. “Jesus é a água viva. Ela é um dos maiores milagres da natureza e o melhor símbolo da espiritualidade. Água é vida, é paz, é tudo de que precisamos.”

O antropólogo Roberto Crema, reitor da Unipaz, destacou a importância da integração das tradições espirituais e, sobretudo, da ciência com a consciência. “Da água depende a reconstrução do projeto humano. Para que haja uma transformação no mundo, o encontro com o sagrado precisa acontecer no interior de cada um de nós e se expandir na ecologia social e planetária.”

Respeito mútuo

Para Arismar Léon, representante da Associação Médico-Espírita do Distrito Federal, quando o homem alcançar o real entendimento de sua condição como ser espiritual numa vivência humana, dará a devida atenção ao próximo, ao planeta e a todos os elementos que o compõem, incluindo a água.

“Origem de todas as formas de vida, a água também é veículo do bom convívio social. Em nossa doutrina, a enxergamos ainda como remédio indispensável à saúde do corpo físico e espiritual. Esse encontro ecumênico confirma uma tendência do próximo milênio, levando o homem a se aproximar de seus semelhantes, num processo de crescimento, aprendizado, respeito mútuo e cooperação, em prol de um planeta melhor para todos”, afirmou.

Porta-voz das matrizes africanas, Rosy Mary, da Casa de Oxumaré, em Salvador (BA), lembrou a correlação entre a água e o feminino. “Todos viemos do útero, fomos gestados na água. Ela é importante principalmente para as mulheres, que lavam, cozinham e alimentam o mundo. Quando a água fica longe e escassa, são sempre as mulheres que vão buscá-la, são elas que enchem os potes. Que sejamos, mulheres e águas, mais respeitadas.”

Bendita e benfazeja

A encíclica “Laudato Si’”, do Papa Francisco, foi citada pelo secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Stein. Ele ressaltou duas palavras consideradas essenciais na relação homem-água: cuidado e cultivo.

“São Francisco chamava todos os seres de irmãos e irmãs, porque todos emanam de um mesmo amor, de um mesmo cuidado do Criador. Não podemos ver a água como uma criatura que nos serve e está sempre à nossa disposição. Tampouco ela pode servir de instrumento de dominação, ser sinônimo de mercadoria, de dinheiro. A água é bendita, é benfazeja, é preciosa e útil. Não pode ser poluída, negociada.”

Conselheira Nacional de Cultura Alimentar, a jovem Tainá Marajoara conclamou: “Vivemos tempos de escassez e contaminação, mas sabemos que há saídas. Temos de abrir nossos corações para os caminhos que nos levam à água limpa. À água limpa para as nossas sementes, para nossas florestas, para as nossas crianças e para todo o planeta”. E completou: “Sou filha de um povo que veio do fundo, do Marajó: a barreira entre o oceano e o Rio Amazonas. Ambos merecem cuidado, assim como cada um de nós, cada fruta, cada peixe e cada grão de areia”.

Que a água, a esperança e a gratidão continuem fluindo.

Abundantemente.

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