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“Lucro é ter sombra para trabalhar”



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Ela acredita na adoção de relações mais harmoniosas entre as pessoas e a natureza, na força do cooperativismo e trabalha para assegurar um presente e um futuro com mais segurança hídrica e alimentar para todos.

Foi amparada nessas convicções que a produtora rural Fátima Cabral, presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera), no Distrito Federal (DF), recebeu aplausos e emocionou participantes durante o painel “Agricultura e serviços ecossistêmicos: produtores rurais podem salvar rios e ainda lucrar?”.

Com sua fala franca e cadenciada, Fátima relatou experiências do dia a dia em sua propriedade de 40 hectares, a Chácara Pé na Terra. Ela trabalha com o marido e os três filhos. Produz alimentos em sistema de agrofloresta, por meio do plantio consorciado de culturas agrícolas com espécies arbóreas.

“Hoje, somos 45 produtores. Estamos numa região de grande importância para a segurança hídrica de cidades como Sobradinho e Planaltina. Acreditamos que cuidar da natureza dá lucro sim; e que nosso lucro é reflexo de um cuidado intensivo com a natureza e com a água, que é a nossa grande mãe.”

Para Fátima, o resgate do valor do agricultor é um dos mais valiosos diferenciais da Aprospera, que também atua em sintonia com outros programas de apoio à agricultura sustentável, como o Produtor de Água, da Agência Nacional de Águas (ANA). “O ofício do agricultor é a profissão mais importante do planeta. É o agricultor que alimenta o cientista, o médico e faz a comida chegar do campo às mesas”, ponderou.

Parte da solução

A maioria dos associados da Aprospera vive na região do Assentamento Oziel Alves III, bem como dos núcleos rurais Pipiripau e Taquara, na divisa com Goiás. As ações de manejo e de cuidado hídrico e florestal são baseadas no conceito de Comunidades que Sustentam a Agricultura, as chamadas CSAs. A entidade reúne 10 das 22 Comunidades existentes no DF.

Um dos objetivos das CSAs é assegurar o escoamento de alimentos agroecológicos de forma direta ao consumidor. “Enquanto as nossas florestas vão crescendo, vamos produzindo água, mandioca, milho, hortaliças e frutas, além de relações mais saudáveis entre toda a cadeia envolvida. Somos parte de uma nova realidade e também da solução para a crise hídrica que atormenta diferentes regiões”, pontuou Fátima.

Convicta de que os benefícios de se preservar água, solo e plantas não podem ser medidos apenas sob a perspectiva do dinheiro, a agricultora ensinou: “Lucro é ter sombra para trabalhar. É ver nossos jovens preservando sementes. É quando o marido larga o veneno (agrotóxico) e pega o facão para manejar a floresta”.

Tecnologia ganha-ganha

Sobrinho-neto do “pai” do ambientalismo brasileiro, o mineiro Hugo Werneck (1919-2008), a quem a Revista Ecológico é dedicada, o pesquisador da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, defendeu a importância do manejo hídrico na agricultura, em especial da irrigação.

De acordo com ele, são inúmeras as tecnologias e novidades nessa área, incluindo o uso de sensores remotos para estimativas de evapotranspiração e aplicativos de telefone celular que ajudam a otimizar a irrigação com foco na economia de água.

Para Werneck, que também é diretor da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), três pontos devem ser aprimorados no manejo da irrigação: o uso de plantas, com a opção por espécies mais resistentes à seca; investimento em instrumentos e equipamentos; e capacitação da mão de obra envolvida. “Com algumas técnicas de manejo de irrigação e com o monitoramento tanto da água no solo quanto climático, conseguimos reduzir de 20% a 30% da água usada na agricultura.”

Outra medida sustentável, destacou o pesquisador, é o Sistema de Plantio Direto (SPD) na palha, que dispensa o revolvimento do solo, sendo efetuado sem as etapas do preparo convencional, como a aração. Com isso, protege o solo do impacto direto da chuva, evitando o escoamento superficial (enxurrada) e erosão. “É uma tecnologia ganha-ganha. O produtor ganha com a redução de custos e, o meio ambiente, com o aumento do estoque de carbono, a diminuição do escoamento superficial e a proteção da biodiversidade.”

Parceiro da preservação

Para o coordenador de Implementação de Projetos Indutores da Agência Nacional de Águas (ANA), Devanir Garcia, a água que abastece as cidades é fruto do trabalho de produtores rurais comprometidos com ações de conservação hídrica e da biodiversidade e, portanto, eles merecem receber por isso.

 “Temos de superar a visão ultrapassada de considerar o produtor rural um vilão; ele é um grande parceiro da restauração ambiental e hídrica”. Garcia apresentou resultados do Produtor de Água, programa de adesão voluntária de pagamento por serviços ambientais, no qual agricultores que adotam práticas e manejos conservacionistas e de melhoria da cobertura vegetal em suas terras são recompensados financeiramente.

O programa tem como base o conceito provedor-recebedor, com foco na melhoria da qualidade e quantidade de água nos mananciais, por meio de incentivo financeiro aos produtores. O agricultor participante tem de comprovar a adoção de boas práticas, tais como o sistema de plantio direto e a construção de terraços e barraginhas. “A legislação prevê que quem usa deve pagar pela água. Então, quem a produz merece receber.”

Presidente da Comissão Internacional de Irrigação e Drenagem (ICID), o engenheiro sul-africano Felix Reinders, especialista em agricultura e irrigação, alertou: “Em escala global, 38% dos rios estão poluídos e temos 55% menos terras plantáveis em razão do uso excessivo de agrotóxicos.” Criada em 1950, a ICID reúne uma rede de profissionais em diferentes partes do mundo, atuando também na gestão de inundações.

Ela acredita na adoção de relações mais harmoniosas entre as pessoas e a natureza, na força do cooperativismo e trabalha para assegurar um presente e um futuro com mais segurança hídrica e alimentar para todos.

Foi amparada nessas convicções que a produtora rural Fátima Cabral, presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera), no Distrito Federal (DF), recebeu aplausos e emocionou participantes durante o painel “Agricultura e serviços ecossistêmicos: produtores rurais podem salvar rios e ainda lucrar?”.

Com sua fala franca e cadenciada, Fátima relatou experiências do dia a dia em sua propriedade de 40 hectares, a Chácara Pé na Terra. Ela trabalha com o marido e os três filhos. Produz alimentos em sistema de agrofloresta, por meio do plantio consorciado de culturas agrícolas com espécies arbóreas.

“Hoje, somos 45 produtores. Estamos numa região de grande importância para a segurança hídrica de cidades como Sobradinho e Planaltina. Acreditamos que cuidar da natureza dá lucro sim; e que nosso lucro é reflexo de um cuidado intensivo com a natureza e com a água, que é a nossa grande mãe.”

Para Fátima, o resgate do valor do agricultor é um dos mais valiosos diferenciais da Aprospera, que também atua em sintonia com outros programas de apoio à agricultura sustentável, como o Produtor de Água, da Agência Nacional de Águas (ANA). “O ofício do agricultor é a profissão mais importante do planeta. É o agricultor que alimenta o cientista, o médico e faz a comida chegar do campo às mesas”, ponderou.

Parte da solução

A maioria dos associados da Aprospera vive na região do Assentamento Oziel Alves III, bem como dos núcleos rurais Pipiripau e Taquara, na divisa com Goiás. As ações de manejo e de cuidado hídrico e florestal são baseadas no conceito de Comunidades que Sustentam a Agricultura, as chamadas CSAs. A entidade reúne 10 das 22 Comunidades existentes no DF.

Um dos objetivos das CSAs é assegurar o escoamento de alimentos agroecológicos de forma direta ao consumidor. “Enquanto as nossas florestas vão crescendo, vamos produzindo água, mandioca, milho, hortaliças e frutas, além de relações mais saudáveis entre toda a cadeia envolvida. Somos parte de uma nova realidade e também da solução para a crise hídrica que atormenta diferentes regiões”, pontuou Fátima.

Convicta de que os benefícios de se preservar água, solo e plantas não podem ser medidos apenas sob a perspectiva do dinheiro, a agricultora ensinou: “Lucro é ter sombra para trabalhar. É ver nossos jovens preservando sementes. É quando o marido larga o veneno (agrotóxico) e pega o facão para manejar a floresta”.

Saiba mais

Atualmente, o programa Produtor de Água contabiliza 57 projetos em andamento, em sete regiões metropolitanas, incluindo mananciais responsáveis pelo abastecimento das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Campo Grande, Palmas e Rio Branco. São cerca de 400 mil hectares trabalhados, com mais de 22 mil produtores cadastrados, dois mil deles recebendo pela prestação de serviços ambientais. As ações se refletem em incremento da conservação ambiental e em ganhos de qualidade hídrica para 5 milhões de brasileiros. Em Minas Gerais há 33 projetos em várias etapas de implantação e recebendo diferentes tipos de apoio da ANA.

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