Quarta, 18 de abril de 2018

A segunda expulsão do paraíso?

Maior evento ambiental no Brasil desde a ECO/92 confirma nossa condenação climática planetária como 11,2 bilhões de refugiados hídricos até o ano 2100

Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br



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Em 1999, quando foi publicada a edição de seu livro “Água”, o escritor e jornalista sul-africano Marq de Villiers descreveu o que ele testemunhou na Nigéria, na Mãe África Ocidental, onde o Homo sapiens surgiu. E se expandiu depois de maneira predatória jamais vista em outra espécie, dizimando até hoje seus iguais e a natureza que os criou.

Descreveu Villiers (leia mais na página 60), com o olhar sensível de repórter: “Fiquei em um vilarejo onde uma ONG americana havia instalado uma bomba de água movida a energia solar e um tanque reservatório galvanizado; ambos estavam funcionando perfeitamente após cinco anos de sua instalação. Na Nigéria, no outro lado da fronteira, uma bomba similar havia quebrado e, numa noite, uma criança abrira a válvula do tanque e toda a água escorreu, ensopando a terra crestada. A criança foi espancada. Mas já era tarde demais: a água se fora e todos os habitantes do vilarejo se mudaram. Eles nunca voltaram.”

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), até 2050 metade dos sete bilhões de habitantes que já somos desde o dia primeiro de janeiro de 2018 também não terá mais como permanecer viva, trabalhar e sobreviver. E será inútil e desumano espancar todas as nossas crianças travessas. Até lá, nossa terra natal ou adotiva já fará parte de um planeta morto e ensolarado ao extremo, sem uma gota d’água doce sequer para beber. Seremos todos refugiados hídricos. Esta previsão é, sim, de secar a garganta. Metade dos futuros 1,1 bilhão de africanos, os mais pobres e destituídos seres humanos do planeta, não terá solo agrícola para plantar.

Do mesmo modo, metade dos 4,1 bilhões de asiáticos, a mais rica (e em desenvolvimento) população pujante do planeta, também estará mortalmente desidratada. E, até 2100, se nada mudar e não modificarmos nossa relação com a natureza e a água que nos mantêm vivos, 11,2 bilhões de Homo sapiens estarão irreversivelmente condenados ao inferno climático.

Será esse o alcance democrático do aquecimento global somado ao revide implacável da natureza que ainda agredimos, tamanho o nosso desamor, ignorância e desrespeito pela complexidade cósmica-terrestre que nos criou junto deste planeta maravilhoso.

Tudo o que continuamos fazendo com ela, como uma mais apropriada espécie de Homo estupidus que parecemos ser, nos será respondido em ondas de calor e acontecimentos ambientais extremos. Tal como os oceanos que, em suas praias, nos devolvem o lixo que lhe enviamos na forma de rios poluídos. Tal como nos lembra o trecho do tema musical da novela “O Outro Lado do Paraíso” (TV Globo) – “tudo que você faz um dia volta pra você”. O ser humano prefere ainda se achar intocável, provisoriamente seguro no seu endereço terreno e refrigerado artificialmente.

A menos que surja, a tempo, o Homo ecologicus, será este o futuro comum que nos espera e estamos acelerando, tão científico e comportamental quanto bíblico (leia sobre a primeira “Expulsão do Paraíso” no link goo.gl/AzqQfz)?

É o que a Revista Ecológico discute, nesta edição, com a cobertura jornalística do 8o Fórum Mundial da Água. Acompanhe!

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