Quinta, 22 de março de 2018

Desmatamento pode intensificar o aquecimento global

Os estudos revelaram ainda que a diferença observada nas simulações se deve principalmente às emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais

Karina Toledo | Agência Fapesp



font_add font_delete printer
As conclusões do estudo se baseiam em trabalhos de modelagem computacional e medidas coletadas em florestas, sob a coordenação de Catherine Scott, pesquisadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

As conclusões do estudo se baseiam em trabalhos de modelagem computacional e medidas coletadas em florestas, sob a coordenação de Catherine Scott, pesquisadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

O processo de aquecimento global pode ocorrer de forma ainda mais intensa do que o previsto originalmente, caso não se consiga frear o desmatamento – particularmente nas regiões tropicais do planeta.

O alerta foi publicado na Nature Communications por um grupo internacional de cientistas. Entre os autores do texto estão os brasileiros Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), e Luciana Varanda Rizzo, professora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp.

“Se continuarmos destruindo as florestas no ritmo atual – cerca de 7 mil km2 por ano no caso da Amazônia –, daqui a três ou quatro décadas teremos uma grande perda acumulada. E isso vai intensificar o processo de aquecimento do planeta independentemente do esforço feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, disse Artaxo.

As conclusões do estudo se baseiam em trabalhos de modelagem computacional e medidas coletadas em florestas, sob a coordenação de Catherine Scott, pesquisadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Após anos coletando informações sobre o funcionamento das florestas tropicais e temperadas, os gases emitidos pela vegetação e seus impactos na regulação do clima, o grupo foi capaz de reproduzir matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês).

Além, ainda, de antropogênicos e biogênicos, ozônio, dióxido de carbono, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global. Entre eles, o chamado albedo de superfície (a fração da radiação solar refletida de volta para o espaço em comparação à fração absorvida, que muda de acordo com o tipo de cobertura da superfície).

No estudo, foi usado um modelo numérico da atmosfera desenvolvido no Met Office, agência nacional de meteorologia do Reino Unido. “Depois que conseguimos regular o modelo para reproduzir as condições atuais da atmosfera terrestre e o aumento da temperatura do planeta ocorrido desde 1850, fizemos uma simulação em que o mesmo cenário era mantido, mas todas as florestas eram eliminadas. O resultado foi uma elevação significativa de 0,8ºC na temperatura média. Ou seja, hoje o planeta estaria em média quase 1ºC mais quente, se não houvesse mais florestas”, comentou Artaxo.

Os estudos revelaram ainda que a diferença observada nas simulações se deve principalmente às emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

“Ao serem oxidados, os BVOCs dão origem a partículas de aerossol que esfriam o clima, refletindo parte da radiação solar de volta ao espaço. Uma vez derrubada, a floresta deixa de emitir BVOCs e esse resfriamento deixa de existir, levando a um aquecimento futuro. Esse efeito não estava sendo levado em conta em modelagens anteriores”, comentou Artaxo.

Segundo o pesquisador, as florestas temperadas produzem VOCs diferentes e com menor capacidade de dar origem a essas partículas esfriadoras.

 

Coleta de dados

Atualmente, a vegetação cobre um terço da área continental do planeta – fração bem menor do que a existente antes da intervenção humana. Grandes áreas florestais na Europa, Ásia, África e América já foram derrubadas.

As informações sobre o funcionamento das florestas tropicais começaram a ser coletadas em 2009, na Amazônia, sob a coordenação de Artaxo, no âmbito de dois projetos temáticos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp): “GoAmazon: interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica” e “Aeroclima: efeitos diretos e indiretos de aerossóis no clima da Amazônia e Pantanal”.

Segundo o professor, o desmatamento altera em definitivo a quantidade de aerossóis e de ozônio na atmosfera do planeta, o que muda todo o balanço radiativo da atmosfera.

“A partir desse estudo, aumentou a importância relativa de se manter a floresta em pé. Não só é urgente parar a destruição, como também pensar em políticas de reflorestamento em larga escala, principalmente em regiões tropicais. Caso contrário, pouco vai adiantar o esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis”, disse Artaxo.

Saiba mais

Para ler o artigo “Impact on short -lived climate forcers increases projected warming due to deforestation” na íntegra, acesse: goo.gl/LHZS7K

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição