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Seja inconveniente (1)

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Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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“Tivemos a oportunidade de conseguir o apoio do público para a solução da crise climática, mas a perdemos. Agora temos uma nova chance. Não podemos perdê-la novamente.” Em trecho do novo documentário, 2017. Foto: Reprodução

“Tivemos a oportunidade de conseguir o apoio do público para a solução da crise climática, mas a perdemos. Agora temos uma nova chance. Não podemos perdê-la novamente.” Em trecho do novo documentário, 2017. Foto: Reprodução

É o que o ambientalista e ex-vice-presidente dos EUA Al Gore pede à humanidade em seu novo documentário: para resolver a crise climática, é preciso lutar contra a imoralidade de aceitarmos, ainda inertes, a destruição da natureza

 

“Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas - tu e a tua descendência.”

A famosa frase bíblica do Deuteronômio é a preferida do ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ativista climático Al Gore. Ela foi dita pelo profeta Moisés aos israelitas, anos antes do nascimento de Cristo, e se refere às boas escolhas como o melhor caminho para uma vida sustentável e feliz.

Desde a ECO-92, há 25 anos, Al Gore abraçou a missão de alertar o mundo sobre o perigo do aquecimento global e das mudanças climáticas. Foi testemunha de alguns retrocessos, como a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano. Mas também de avanços, como a adesão da Índia e da China (ambos com matriz energética ainda baseada em combustíveis fósseis) ao tratado e o crescimento do uso de energias limpas, como a eólica e a solar.

Mais de 10 anos se passaram desde o primeiro documentário de Gore, “Uma Verdade Inconveniente” (vencedor do Oscar em 2007), até o seu mais recente: “Uma Verdade Mais Inconveniente”, dirigido por Bonni Cohen e Jon Shenk e lançado nos cinemas brasileiros mês passado. Em ambos os filmes, o também vencedor do Prêmio Nobel da Paz faz um alerta sobre a questão climática. A diferença é que, no mais recente, as preocupações expostas pelo ativista em 2006 não só se tornaram reais como mostram que o cenário pode piorar ainda mais: 14 dos 15 anos mais quentes da história foram registrados depois de 2001. O recorde é de 2016.

O filme tem várias cenas marcantes: o desprendimento diário de geleiras na Groenlândia; a invasão da água do mar em Miami (EUA), que obrigou a prefeitura municipal a elevar o nível das ruas em 30 centímetros, para não afetar o cotidiano dos moradores; e entrevistas com sobreviventes de inundações. Impossível não ficar impactado com as imagens de desmatamento, poluição, enchentes e rios secos. E também do planeta Terra visto do espaço e da esperança que vem dos desertos, que estão sendo transformados em grandes usinas de captação de energia solar.

Realidade incômoda

Por ano, mais de 12,6 milhões de pessoas morrem ao redor do mundo por conta de fatores como poluição do ar, da água, do solo, altas temperaturas e eventos climáticos extremos. O número, apresentado em 2016 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), revela uma realidade que incomoda, mas parece não ter efeito imediato quando o assunto é mudança de comportamento.

“Desde que ‘Uma Verdade Inconveniente’ foi lançado há 10 anos, as variações do clima pioraram. E continuei fazendo o meu trabalho mundo afora. Houve momentos em que tudo parecia sombrio, porque as forças para impedir essa mudança de atitude reagruparam-se e injetaram dinheiro para paralisar o sistema político dos países. Fiquei desmotivado. Em um momento, pensei que perderíamos a luta”, afirmou Al Gore.

Mas ele preferiu ser... inconveniente. O alerta climático não poderia ser silenciado ali.

Foi correr o mundo ressaltando a importância da adoção de fontes de energias limpas. Conversou com autoridades, cientistas e estudantes. E realizou uma série de treinamentos para líderes de vários países. O primeiro deles, inclusive, aconteceu na sua fazenda, no Tennessee, para 50 pessoas.  O objetivo era preparar cada vez mais cidadãos para enfrentar e buscar alternativas sustentáveis comuns para se mudar a realidade climática.

Com “Uma Verdade Mais Inconveniente”, Al Gore nos faz uma nova provocação, um convite mais que necessário: sermos protagonistas na luta contra o aquecimento global. Ir além de pressionar os governos. E, sim, liderarmos esse movimento: “Comprometa-se, #sejainconveniente e junte-se aos milhões de pessoas dispostas a resolver a crise climática. Use seu poder de escolha, sua voz, seu voto. Convença as pessoas de sua cidade, do trabalho, da universidade, a mudar para a energia 100% renovável. Lute como se seu mundo dependesse disso. E ele depende”.

É este o novo recado de Al Gore que você confere a seguir:

 

Esperança

“Eu tinha um plano diferente para a minha vida. Mas a vida tinha um plano diferente para mim. Qualquer um que se prontifique a resolver a crise climática enfrenta uma batalha constante entre a esperança e a desesperança. Há esperança. Não se deprimam! A desesperança pode paralisar. Estamos ganhando força e vendo mudanças positivas, o que me faz sentir bastante otimista!”

Geleiras

“Em abril deste ano, a temperatura na Groenlândia foi muito mais alta do que o normal. Um engenheiro fez um vídeo em um voo de helicóptero durante este pico de temperatura. Há partes da geleira explodindo com as altas temperaturas.”

Elevação do mar

“Miami é a cidade mais ameaçada pela elevação do nível do mar no mundo inteiro. A projeção para o sul da Flórida foi de um aumento de 2,1 metros neste século. As dez cidades mais ameaçadas são Calcutá, Mumbai, Daca, Guangzhou, Ho Chi Minh City, Shanghai, Bangkok, Rangoon, Miami e Rai Phong.” 

“Em ilhas de baixíssima altitude, como as Maldivas, há uma quantidade enorme de pessoas em risco por causa da elevação do nível do mar. O governo de Kiribati, país africano, já adquiriu inclusive terras para transferir a população.”

“Dez anos atrás, quando o documentário ‘Uma Verdade Inconveniente’ foi lançado, a cena mais criticada do filme foi a da animação mostrando que a elevação do nível do mar e as tempestades levariam a água do mar ao Memorial 11 de Setembro, que estava em construção. E isso aconteceu.”

Democracia

“Para tratarmos da crise ambiental, teremos de resolver a crise da democracia. O dinheiro exerce muita influência e a nossa democracia foi hackeada. Os grandes doadores é que tomam as decisões.”

Política

“Sobre me candidatar novamente, eu conto uma piada: sou um político em reabilitação. E, se quiser me afastar de vez, tenho de evitar uma recaída!”

“Eu gostava da política, mas o ativismo climático é uma missão. Há fome de informação sobre o que e por que está acontecendo isso com o clima. E sobre como podemos resolver.”

Estados Unidos

“Desde quando os EUA abandonaram o seu papel de líder mundial? Quando Xi Jinping, presidente da China, disse: ‘Reduziremos nossas emissões de gás carbônico e queremos criar modelos de eficiência solar e eólica’.”

“O aquecimento global e as mudanças climáticas são o maior desafio ambiental que já enfrentamos. Nenhum outro país pode fazer o papel dos Estados Unidos.”

 

Satélite DSCOVR

“Sempre começava os meus treinamentos com fotos do planeta. Quando vemos a Terra do espaço, estabelecemos uma conexão com o lar que compartilhamos. E a última imagem feita pelo programa Apollo (The Blue Marble, 07/12/82), da Terra toda iluminada, mudou a nossa forma de olharmos o planeta. Ela estimulou o movimento ambiental moderno. Coloquei aquela imagem na parede do meu gabinete, na Ala Oeste da Casa Branca. Olhava para ela todos os dias.”

“Liguei para a Nasa e perguntei: ‘Vocês não teriam outra foto da Terra? Que tal termos imagens diárias do planeta? Isso ajudaria as pessoas a se comprometerem com o equilíbrio climático. Mas descobri que não havia outra! Foi assim que nasceu a ideia do satélite DSCOVR, não só dá para termos mais fotos maravilhosas do mundo que vivemos como também obter mais dados daquele ponto do espaço.”

“O Congresso se opôs ao DSCOVR. Eu concorreria à presidência e isso deve ter influenciado. Mas quando consegui a aprovação, outros instrumentos foram adicionados. Um deles foi o dispositivo de alarme para tempestades solares que ameaçam as redes de energia elétrica e os oleodutos. A Nasa construiu o satélite e marcou o lançamento. Mas após a posse de George W. Bush e de Dick Cheney, ele foi cancelado.”

“A nova administração não entendeu que estavam cancelando um sistema global de alerta de tempestade solar. E as empresas que dependiam disso começaram a fazer barulho. Propuseram resolver o dilema tirando os instrumentos meteorológicos e a câmera do satélite, compensando o peso deles com sacos de areia e deixando apenas o instrumento que essas indústrias poderosas queriam em órbita. Quanto extremismo! O satélite foi para o depósito.

“Mas quando o presidente Obama foi eleito, fui vê-lo e contei a história do DSCOVR e de como foi cancelado. Ele alocou verbas e o foguete foi lançado em 2015.”

China

“Em 150 anos queimando combustível e recebendo os seus benefícios, a pobreza diminuiu e o padrão de vida subiu. Há quem diga que se deve continuar com a indústria de óleo e gás e até de carvão. Mas no norte da China a expectativa de vida caiu cinco anos e meio por conta da poluição do ar. O prefeito de Pequim, Wang Anshun, disse que ‘a cidade não era habitável’. Em várias partes do país já é mais barato obter a eletricidade pelo sol e pelo vento. É neste momento que é preciso apoiar a determinação do governo de investir ainda mais na energia renovável.”

 

O sol que nos salvará

“Em apenas um dia, a Escócia obteve 100% de eletricidade eólica. Portugal teve quatro dias seguidos só de energia renovável. O vento sozinho pode fornecer 40 vezes toda a demanda global de energia.”

“Para mim, a energia solar é a evolução mais emocionante que a humanidade conquistou. Quatorze anos atrás, as melhores projeções apontavam que teríamos instalado no mundo todo um gigawatt de eletricidade solar por ano. Quando chegamos em 2010, superamos essa meta em 17 vezes. Em 2015, em 58 vezes. Em 2016, 73.”

“Hoje há mais celulares do que pessoas no mundo. A maioria em países sem telefonia fixa. Esse avanço rendeu-lhes o primeiro serviço de telefonia. Há países em que a rede elétrica não é nada boa, como na África e no subcontinente indiano. Agora, vemos um painel solar em um telhado de palha na África. Laptops com energia solar. Os pais querem que os filhos tenham acesso à informação.”

“Chile, um país em desenvolvimento, tem ótimos avanços. No final de 2013, eles tinham 11 megawatts de energia solar. No final de 2014, mais de 400 megawatts. No de 2015, mais de 800. E, em 2016, 13,3 gigawatts de projetos solares aprovados em construção. Há outras regiões do mundo ‘contaminadas’ por esse surto ecológico. Estamos vendo uma verdadeira mudança. Em termos globais, o planeta recebe mais energia do sol por hora do que toda a economia global usa em um ano inteiro. Se colhermos e a usarmos produtivamente, resolveremos essa parte da crise climática.”

Depoimentos climáticos

“Algumas das companhias que negam as mudanças climáticas, como o Instituto Americano de Petróleo, distorcem o mercado para conter o investimento em renováveis com uma nova linha de propaganda: mesmo sendo verdade o que Al Gore diz desde 1980, isso seria muito caro, a ponto de arrasar a economia. É um tema insidioso que volta com força. Queremos saber que grupos são, quais as análises deles e que ações o governo está tomando. Isso é violação da lei contra o consumidor e o mercado. Mas está claro que eles, basicamente, tentaram arrasar a capacidade de a humanidade responder a essa ameaça exponencial.”

Eric Schneiderman, procurador-geral do estado de Nova York

“A relação entre o clima e a paz no mundo é evidente e não temos o direito de não obter êxito.” Anne Hidalgo, prefeita de Paris

“As mudanças climáticas se tornaram o desafio mais sério da humanidade.” Vladimir Putin, presidente da Rússia

Saiba mais

Confira, na próxima edição da Ecológico, a segunda parte do especial “Uma Verdade Mais Inconveniente”.

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