Terça, 05 de dezembro de 2017

Amor à condição humana

Novo espetáculo de Pedro Paulo Cava, “Intimidade Indecente” retrata com delicadeza a ecologia hilária, frágil, cruel e transcendente dos nossos relacionamentos afetivos na velhice

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com.br



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Andreia Garavello e Geraldo Peninha juntos:
brilhantismo, o tempo todo

Andreia Garavello e Geraldo Peninha juntos: brilhantismo, o tempo todo

Novo espetáculo de Pedro Paulo Cava, “Intimidade Indecente” retrata com delicadeza a ecologia hilária, frágil, cruel e transcendente dos nossos relacionamentos afetivos na velhice

 

A Ecológico adverte: é imperdível! Assistir à peça teatral “Intimidade Indecente”, em cartaz até o dia 17 de dezembro no Teatro da Cidade, em Belo Horizonte, é benéfico ao coração. Só provoca poesia, risos e lágrimas de reflexão. E ainda lava a nossa alma no final.

Como também advertido em sua sinopse, trata-se de um texto atual, escrito por Leilah Assumpção, que perpassa quatro décadas, com cenas do relacionamento de um casal após 20 anos juntos. Na primeira cena, eles têm 50 anos. Na segunda, já têm 60 anos. Na terceira, eles estão com um pouco mais de 70. E, na última cena, com mais de 80 anos de idade.

A peça é interpretada por dois atores de primeira grandeza, também imperdíveis na história do teatro mineiro: Andreia Garavello e Geraldo Peninha. Como sugere o título “Intimidade Indecente”, ao se reencontrarem ao longo da vida, eles revelam a força do querer erótico, tal como acontece na natureza, com todos os seres vivos. Um querer afetivo entre os casais que, quase imperceptível, está por trás de tudo. Principalmente da nossa cômica fragilidade e bizarra dificuldade em comunicar nossos verdadeiros sentimentos, desejos e fantasias com o outro, mesmo o mais íntimo de nós.

Entre tapas e beijos que não acontecem, essa discussão filosófica dura a peça inteira. Até que a vida e os corpos do casal de atores, enfim, envelhecem de vez. Tudo termina. Mesmo juntos e separados, eles não sabem mais onde estão. Só sentem que não têm nem pés nem mais planta para pisarem. Somente que continuam buscando teimosamente o afeto e a companhia um do outro, feito amantes e amigos, em outros palcos mais espiritualizados e felizes do que esse país e mundo, vasto mundo atual, sem amor nem delicadeza.

Muito menos o hábito de ir ao teatro que já tivemos antes, e nos tornava melhores. Linda demais essa “Intimidade Indecente”! Tal como a direção brilhante, a trilha sonora romântica e a iluminação maravilhosa também assinadas por Pedro Paulo Cava. Tal como seu depoimento, a seguir.

Desnundem-se!

 

Está tudo nas entrelinhas

Pedro Paulo Cava (*)

Quando os atores Andreia Garavello e Geraldo Peninha me trouxeram o texto da Leilah Assumpção, fiquei completamente envolvido pelo primor da escrita, pela sua atualidade e emoções tão bem distribuídas pelas cenas e personagens. De quebra o bom humor, as frases e falas afiadas que me fizeram rolar de rir e ainda serviram para fazer uma reflexão sobre as incomunicabilidades dos seres humanos e os desencontros das relações afetivas.

Lembrei-me de imediato da máxima do escritor Millôr Fernandes: “Casamento é como submarino: foi feito para afundar. Mas às vezes boia”.

Como se nada disso bastasse, Intimidade Indecente traça um retrato hilário e contundente sobre a crueldade do envelhecimento, principalmente quando sabemos que estamos vivendo mais e com melhor qualidade de vida. Nem todos, é claro, mas a maioria daqueles que tem uma certa condição financeira de ir tratando da sua saúde depois dos 50 anos de idade. E podem entregar seus corpinhos à medicina e à ciência que alonga o tempo de pé sobre o planeta.

Alguns morrem vendendo saúde e outros vivem tanto que apenas se dissolvem. No momento que vivemos no Brasil e no mundo, com tanta intolerância, violência, agressões desnecessárias e o avanço das forças mais retrógradas e atrasadas do conservadorismo e do fascismo, “Intimidade Indecente” é um oásis da delicadeza, da poesia e do cotidiano que teimosamente ainda sobrevive em algumas relações humanas.

Todos nós estamos em cena, tenhamos oito ou oitenta anos. Ou estaremos lá num futuro não tão distante, pois a vida é mais veloz do que nunca. Apenas um suspiro e já acabou.

Com certeza, conhecemos alguém que podemos identificar nas situações da peça, seja parente, amigo, conhecido ou apenas notícia de jornal. Ou nós mesmos. Afinal, teatro é assim mesmo: arte que emociona porque desnuda a intimidade da vida, decente ou indecentemente.

Divirtam-se!

(*) Diretor e produtor teatral.

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