Terça, 05 de dezembro de 2017

"Só a beleza do mundo deveria nos bastar para preservá-lo"

Memória Ecológico

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com.br



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"A pessoa que agride o meio ambiente merece o nosso apoio para mudar, e não o nosso julgamento."

Memória Ecológico

Meu último encontro com Hugo Eiras Furquim Werneck, considerado por muitos o “Pai do Ambientalismo Brasileiro”, se deu em 2008. Foi há nove anos, antes da lua cheia de novembro de 2008, à vespera do lançamento  da primeira edição da Revista Ecológico. Fui à sua casa, então no bairro São Pedro, em Belo Horizonte, para apresentar-lhe a ideia da linha editorial da nova publicação. E pedir-lhe autorização não apenas para nos apadrinhar com a sua filosofia e amorosidade pela causa. Mas também para dedicar o nascimento e a existência da revista à sua história de vida e pioneirismo na luta ambiental. Foi a forma que encontramos de homenageá-lo e agradecer permanentemente seus ensinamentos.

Mesmo magro e andando com dificuldade, dr.  Hugo nos recebeu com a doçura de sempre. À época, ele tinha 89 anos e estava acompanhado de Maria da Penha, sua segunda esposa e companheira fiel até o final de seus dias. Durante a entrevista, ele não se queixou uma só vez, mesmo debilitado pelo tratamento contra um câncer de pulmão.

Também não se queixou de Deus, nem dos poluidores. Muito menos do estado igual da natureza, com o placar desfavorável.

Para celebrar o início do décimo ano de publicação da Ecológico, reproduzimos, a seguir, o último recado do fundador e ex-presidente do Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, que pregava o amor e amava os pássaros e as borboletas:

 

E aí, doutor Hugo?

Você não morre tão cedo, rapaz! Tenho uma novidade pra te contar. Estou doido para receber alta, visitar e trocar umas ideias com o José Carlos Carvalho, e poder voltar ao trabalho que estava fazendo para a ArcelorMittal nas comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco. Meu objetivo agora é contribuir para formarmos cidadãos íntegros, falar dos valores da família, da escola e da sociedade. E do amor que também anda sumido nas relações atuais. Afinal, não nascemos humanos, nos tornamos humanos. Valores também tão presentes na natureza, nos pássaros...

 

Como assim?

Falo da importância do respeito mútuo e, sobretudo, no querer bem o outro, algo que existe genuíno e é mais visível nos animais. Hoje eu sou viúvo, casado outra vez e agradeço a companhia que Deus me deu. Mas sempre penso no primeiro casamento com Wanda, no qual eu vivi 56 anos na mais profunda felicidade. Nunca tivemos um atrito que estremecesse a nossa relação. Havia divergências, sim, e pensar diferente não significa ser inimigo, faz parte também da democracia doméstica. Graças a esse entendimento prévio, à tolerância mútua que é fundamental no convívio humano, nós aprendemos a transformá-las, mesmo de maneira errática, no caminho da perfeição.

 

E o que o senhor fala sobre o amor em suas viagens?

Que ele é tudo de melhor que temos de cultivar em nós. De resgatar, inclusive, o sentido da relação de intimidade entre o homem e a mulher, onde, com o tempo, o amor ultrapassa o valor da sexualidade. Que essa transformação, tal como as borboletas que saem do estado larval para voar e ganhar a liberdade, ocorre de maneira absolutamente natural e na base do diálogo. Desejo bilateral, decisão bilateral. Isso é muito importante e deve ter ressonância. Todas as relações, em que prevalecem o afeto e o cuidado mútuos, verdadeiros, são assim. Veja os pássaros. Eles criam relações exemplares. Voam e cantam juntos, seja em tempos discretos como no inverno, ou eloquentes no verão. Comem juntos, têm tempo para si. E como já disse o mestre Jesus, nunca observamos um pássaro qualquer mendigando ou morrendo de fome feito os humanos.

Freud, que defendia que a cura pela psicanálise advém do ato do ser humano basicamente falar e tomar consciência de seus problemas, morreu de câncer na garganta. Gandhi e Lennon pregaram o pacifismo e ambos morreram vítimas da violência. E o senhor que só fala em amor e compreensão, agora também não pode falar, por causa de um câncer no pulmão. Como explicar isso? Não é injusto?

Revoltar contra o quê, meu filho, se só tenho a agradecer? Nunca me preveni dessas coisas. Também nunca fumei um cigarro, a não ser nos meus primeiros tempos de casado. Acompanhava Wanda e tomava cerveja preta. Isso ocorreu a cada nascimento de nossos 11 filhos. Nunca vi minha mãe nem meu pai, que não eram ricos, se revoltarem com a vida, mesmo quando mudaram para Belo Horizonte em meio a todas as dificuldades. Na verdade, quando me disseram que eu tinha tuberculose ou câncer, eu logo pensei e resolvi: tenho de aceitar e seguir os caminhos de Deus. Tenho um enjoo permanente, sim, mesmo quando me alimento com pequenas coisas. E não tenho mais o apetite de antes. Mas é engraçado. Não faz falta. Olha aí outra vantagem de estar doente!

 

Não sente dor?

Só senti um pouco no início. Hoje tem remédio pra tudo. E tenho de confessar: meu final de vida está é muito suave, tranquilo. Estou tendo mais tempo para pensar na minha paternidade e meus filhos me enchem de ternura. Essa é a dádiva de ter, plantar e cultivar relacionamentos afetivos ao longo da vida. A colheita, como numa lavoura orgânica sem uso de pesticidas e outras deformidades, é certa.

 

Onde o senhor, que agora não pode mais ter contato com a natureza, busca essa resignação?

Não é resignação. É agradecimento. Hoje eu tenho e convivo com três médicos, rapazes ainda, de outra geração. São cheios de ideias diferentes, algumas até mais evoluídas que as minhas. Como aprendo a ser mais humilde com eles! Sou grato, enfim, pela oportunidade que Deus me deu para viver toda e qualquer experiência humana, positiva ou negativa, e a descoberta de um segredo.

 

Que segredo?

O de nunca se comparar ou fazer comparação com e entre as outras pessoas. É respeitar as diferenças, não impor nada. Deixá-las livres em seu livre arbítrio. Todos os meus filhos fumaram e a nenhum deles eu disse que parassem. Isso é responsabilidade de cada um, de cada ser humano consciente de sua missão consigo mesmo e com a saúde do planeta, se deve ou não cuidar da sua saúde, da sua própria vida. E não mais se poluir, poluir o outro.

 

Que destino o senhor vislumbra para o planeta e a humanidade?

A humanidade marcha com dificuldades. Desde Cristo, os grandes pensadores, só se ouve falar em crimes, só se aponta o erro, a corrupção. Tudo bem, isso é o mundo real e não podemos fugir dele. Mas ninguém fala de uma coisa chamada virtude. Nós precisamos de gente que saiba que está fazendo o bem, que tem a convicção que esse é o único caminho, a força e o instrumento poderoso que temos e pouco usamos e divulgamos. As pessoas devem repensar naquilo que acreditam. É por isso que me agarro com todos os dedos ao amor. Não existe maior dom e instrumento de mudança que ele.

Saramago disse uma vez, e o senhor o contestou na época, que o ser humano é uma praga no universo, que o ego e o ódio, e não o amor, vencerão no fim, com a escalada da sua presença nada ecológica em todo o planeta. Continua pensando assim?

Claro. O amor vencerá, sim. O mundo está mudando mais depressa do que somos capazes de perceber e encarar. A natureza se recomporá e existirá sem o homem; mas o contrário, não. Não há sentido na vida do homem sem a sua interação com a natureza. Ambos são gerados pelo mesmo Criador. Se a consciência ambiental chegar somente através do intelecto, a humanidade ficará apenas mais culta do ponto de vista ecológico. Mas se a tocarmos pelo afeto, pelo coração, a mudança e a salvação serão inevitáveis. Não existe outro caminho. Quando qualquer pessoa, rica ou pobre, branca ou amarela, enxergar uma borboleta e disser: “Que beleza!”, pronto. Ela estará sensibilizada. E jamais se negará a ajudar quando um seu semelhante, ainda num estado socialmente larvário lhe pedir esmola, mesmo que seja um impostor.

O senhor acha mesmo que o amor, no fim, vencerá, apesar do desamor e o ódio parecerem mais organizados e determinados em seus objetivos?

Não tenho dúvida. O que temos de mostrar é como ele é, já que não conseguimos defini-lo. O amor apenas ocorre e pode ser induzido. É como se uma pessoa chegasse diante de um espelho com uma lanterna e o iluminasse. O que acontece quando iluminamos um espelho? A luz volta e nos ilumina. Pois na questão ambiental é a mesma coisa. O amor que dedicamos à natureza e ajuda ao próximo é o que nos ensina. Essa é a beleza da natureza. Tudo o que fizermos por ela retornará a nós mesmos.

 

Seu pai gostava da natureza também?

Muito. Como eu gostava de pegar passarinhos, um dia ele inventou uma frase para os meus castigos, que não foram poucos: “Maltratar animais e plantas é indício de mau caráter”, que eu tinha de repetir escrevendo. Eu não sabia o que era indício. Escrevia 100 vezes e, quando tinha folga e sabia que ia desobedecê-lo outra vez, já deixava previamente escritas outras 100 dessas frases. Parece que aprendi o significado dela.

 

Que recado o senhor mais gostaria de passar aos nossos leitores?

Que eles se tornem pessoas pensantes, que usem não apenas sua inteligência, mas principalmente sua sabedoria, para se descobrirem e se tornarem capazes de amar, buscar novas formas de expressar o amor e o encantamento possíveis em suas vidas cotidianas e nas profissões que exercem. Até na política ambiental não existe contraindicação para isso.

 

Na política?

Vou te dar um exemplo. O maior erro que existe na nossa legislação, ainda baseada nos mecanismos de fiscalização e controle, é transformar os atos contra a natureza em crimes, é transformar o sujeito ou a empresa que a degrada em criminosos. Ao fazer isso, a nossa jurisdição transforma e consolida alguém que fez uma coisa errada em bandido. Perante a natureza que nos protege, alimenta e nos faz viver, quem a degrada o faz mais por ignorância ou falta de alternativas, por não ter podido aprender a sua grandeza, da qual depende para viver. Uma pessoa assim, por ignorar ou enxergar de maneira suicida tamanha obra de Deus, a ponto de agredi-la, merece o nosso apoio e não o nosso julgamento.

 

Como assim?

Crime supõe intenção, e nem sempre existe isso. Se rotulada de bandida, criminosa, aí sim, ela pode se transformar nisso pelo resto da vida. Já o contrário, ao perdoá-la e esclarecê-la através do que chamamos de educação ambiental, podemos transformar esta mesma pessoa em uma defensora do meio ambiente. Veja o caso dos caçadores de ovos de tartaruga no Brasil. Hoje, em vez de depredar, os nativos ganham inclusive mais dinheiro, como funcionários ou prestadores de serviço ao Ibama, para defendê-las. Tal como uma borboleta em seu processo de transformação, uma criança ou adolescente delinquente não merece punição, mas que os ajudemos a se transformar em cidadãos dignos amanhã. Imagine se matássemos ou aprisionássemos todas as larvas de borboletas, por serem feias e nocivas neste estágio? Não existiriam as borboletas adultas, esvoaçantes em sua beleza, leveza e graça. Não existiriam as “cores que voam” a nos encantar, como uma criança um dia me ensinou a vê-las, visitando o borboletário da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte. Já pensou nesta criação de Deus? Uma cor que voa? Só isso, a beleza do mundo, deveria bastar para respeitarmos, amarmos e preservarmos a natureza. 

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