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Domingo, 09 de julho de 2017

A ecologia da elegância

Livro “Na Sala com Danuza”, da cronista Danuza Leão, completa 25 anos e se mantém atual ao afirmar que ser elegante, na verdade, é ser gentil

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Danuza Leão. Foto: Divulgação

Danuza Leão. Foto: Divulgação

Em 2012, Danuza Leão provocou polêmica com uma de suas crônicas na Folha de S. Paulo. O texto fazia referência à ascensão das camadas sociais mais pobres, à expansão da classe C. Disse a cronista e escritora que “ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir”. A frase foi considerada deselegante, isso para dizer o mínimo na avaliação de quem estava acostumado a ler crônicas bem-humoradas, repletas de gentilezas.

Danuza se redimiu em outro texto, mas a mancha demorou um pouco a sumir de seu vestido de sensatez. Já perdoada pelos porteiros e pelas domésticas, das quais também ganhou olhares atravessados, ela se levantou sem tropeçar. Afinal, a capixaba de Itaguaçu é uma “garota elegante perdida entre orangotangos de black-tie”, como afirmou o jornalista e escritor Eduardo Logullo, no texto de apresentação do primeiro livro da cronista: “Na Sala com Danuza”, best-seller que completa 25 anos.

A obra surgiu de uma grande vontade, conta Logullo. “O telefone tocou, Danuza propôs fazer um livro sobre barbarismos e barbaridades que ela não aguentava mais ficar calada. A leoa queria rugir. A leoa queria enumerar delicadas delícias de uma gramática comportamental, destilada após anos de filosofias e bobagens. Neste reino da farofa, só Danuza pode servir de indicador do comportamento: há décadas ela é ponta-de-lança de acontecimentos fervilhantes, vulcânicos e estrondosos”.

Nascida Danuza Lofego Leão, em 26 de julho de 1933, ela foi casada com o jornalista Samuel Wainer, fundador do extinto jornal “Última Hora”. Com ele, teve três filhos. Modelo internacional de sucesso na década de 1950, foi a primeira brasileira a desfilar em Paris.

Danuza é irmã da falecida cantora Nara Leão e até se aventurou pelo cinema, no clássico “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Para alguém que não se conforma com o estado das coisas e tem muito a dizer, se aventurar pela literatura parecia um caminho sem volta.

“Na Sala com Danuza” é o primeiro dos oito livros que ela lançou. A escritora, que hoje mora no Rio de Janeiro, tem um jeito visceral de escrever, sem se deixar prender às estéticas da etiqueta tradicional. “Na Sala” está bem longe disso. Basta uma primeira folheada para o leitor se sentir atraído pela ecologia de sua elegância: “Nunca apague um cigarro numa planta”, é um dos seus conselhos. E, com o avançar das páginas, outras boas regras de comportamento e convivência vão ganhando forma.

A seguir, a Ecológico apresenta algumas delas. Confira:

 

Educação

“Nunca aponte para nada com o dedo – só para as estrelas.”

“Atenção: fale baixo. Em sua casa, na casa dos outros, em lugares públicos. É incrível o ruído que se ouve quando se entra em alguns restaurantes, sobretudo os não acarpetados. Me sinto num galinheiro. E os salões de beleza? Acho que é por isso (também) que não os frequento.”

“(...) O Brasil anda mal-educado. Da vulgaridade à grosseria, os homens que dirigem nosso país se tratam – e nos tratam – sem o menor respeito. É possível que a boa educação tenha desaparecido dos nossos costumes? Ninguém respeita ninguém, os códigos desapareceram.”

 

O outro

“A verdadeira cortesia é pensar primeiro no outro antes de pensar em si mesmo.”

“Não conte histórias muito longas. Dê chance ao outro expor as ideias dele.”

“Seja atento, curioso, interessado. Nada pior que ouvinte distraído.”

 

Humildade

“Exibir erudição é pedante e antipático. Se você for mesmo muito culto, finja ser apenas médio. Seja modesto.”

“Não é nenhuma humilhação não saber nada de algum assunto. Bobo é querer parecer que conhece – sem conhecer.”

“Ninguém deve pretender ser o que não é. Me lembra a história de um amigo francês que ganhou muito dinheiro e anunciou que ia comprar um castelo. Ao que o outro respondeu: ‘Castelo não se compra. Se herda’.”

 

Discrição

“Evite comentar sobre seus sucessos com quem está em má fase. Sobre seu maravilhoso trabalho com quem está desempregado. Sobre seu estonteante namorado com quem está sem nenhum. Além de indelicado, pode atrair olho grande.”

 

Repetição

“Nada é mais chato do que ouvir uma história pela segunda vez.”

 

Opinião

“Não seja radical em suas opiniões. Tenha flexibilidade para mudar, se ouvir uma melhor que a sua. Também discorde. Se todo mundo estiver de acordo, morre o assunto.”

 

Análise

“Não fique só no eu, eu, eu. Para isso, pague uma sessão de análise.”

 

Pagar a conta

“Basicamente, a coisa funciona assim: quem convida deve estar preparado para pagar. E quem foi convidado, para dividir.”

 

Gatos

“Antes que me acusem de não gostar de bichos, com tudo que isso costuma implicar (falta de sentimentos, etc.), quero declarar minha paixão por gatos. Tive um, Amadeu, e tenho saudades dele até hoje. Gatos têm personalidade, independência: não são puxa-sacos nem carentes. São bonitos, elegantes, limpos, educados.”

 

Amor

“Nas relações amorosas, qualquer coisa é melhor do que a indiferença, o desinteresse. Às vezes, fico observando nos restaurantes casais que jantam sem se olhar, sem se falar. Para mim, é o pior filme que pode haver entre duas pessoas.”

“O que pode acontecer com duas pessoas que moram junto, namoram, convivem ou são apenas amigas: um desentendimento, uma rusga, um mal-entendido, o que for, com ou sem razão, culpa de um ou de outro. Mas vocês se entenderam, se desculparam, se perdoaram. Então, regra de ouro: não se fala mais no assunto.”

“(...) Depois de uma noite de grande desacerto, desapareça. Dê tempo para que a raiva passe e a saudade chegue. Talvez seja sua única chance.”

“Aos que não conseguem deixar de jogar charme: seja um mestre na discrição. Galinhagem com repercussão social é muito mais grave. Aproveitando: nada mais fora de moda do que o adultério. As relações devem ser livres, ensolaradas.”

 

Filhos

“Não morra de vergonha se seu filho deu um vexame na frente de seus amigos. Não valorize os erros nem dê bronca em público.”

“Use sempre um bom vocabulário, isso aumenta a capacidade linguística das crianças.”

 

Amizade 

“Aceite o amigo como ele é. Se a maneira dele ser te incomoda, afaste-se. Conviver e ficar falando mal, qual é a graça?”

“Não revele pormenores de seu namoro para suas amigas. Um dia, uma delas pode usar tudo que ouviu de você para seduzir seu namorado e até fazer uma bela intriga, contando o que você, num momento de fragilidade, contou para ela.”

“Às vezes, a vida separa as pessoas. Marido novo, interesses novos, acontece. Se sua amiga, que vivia em discotecas, vira zen, mesmo que a amizade permaneça, o assunto acaba, claro. Mesmo que você fique triste, procure entender. O gostar não inclui necessariamente a convivência. Se vocês se gostam mesmo, podem um dia se reencontrar e ficar tudo como era antes, sem cobranças do tempo que não se viram nem se procuraram.”

“Nunca faça perguntas sobre assuntos pessoais. Se o outro quiser falar, ouça e fique quietinha. Não indague sobre afetos, casamentos, situação financeira, vida sexual, etc.”

 

 

Elogios

“Não economize elogios. Se você acha uma pessoa bonita, um prato saboroso, uma casa aconchegante, diga, diga, diga. Dê prazer aos outros.”

“Elogie sua mulher, sua namorada. O vestido, o penteado que ela mudou. Preste atenção na pessoa que você, pelo menos teoricamente, ama.”

 

Empréstimos

“Antes de emprestar, avise que você empresta numa boa, mas que tem o péssimo hábito de querer de volta.”

 

Cozinha

“Aviso às mulheres que fogem da cozinha: aprendam alguma receita, ponham o nariz nas panelas, é uma delícia. E mulher que não sabe cozinhar deveria ser proibida de morar junto com alguém.”

 

Privacidade

“Não se lê correspondência de outra pessoa. Nem se mexe na bolsa, ou se olha a agenda, ou a gaveta, ou se escuta uma conversa. Isso é invasão intolerável de privacidade.”

 

Proximidade

“Não chegue muito perto nem toque seu interlocutor. Guarde a distância regulamentar de 50 centímetros. A não ser, claro, que já estejam a caminho do motel.”

 

Vida

“Seja senhor absoluto de sua vida. Faça dela algo de muito interessante – e que só pertence a você. E lembre-se: em qualquer setor, o problema não é o que se faz, mas como se faz.”

 

Moda

“Não se preocupe com a moda. Mas seja obsessiva com a elegância.”

 

Beleza

“Lembre-se de que não existe ninguém irremediavelmente feio e nada que não possa ser melhorado. Todos têm essa possibilidade, e é tão divertido! Sabe aquele dia em que parece que tem uma nuvem cinza bem em cima de sua cabeça? Pois nesse dia, mais do que nunca, acerte sua coluna, levante a cabeça e vá em frente.”

 

Sentidos

“Desenvolva seus sentidos. No meio de um bosque, apure os ouvidos. Viaje através dos sons, dos odores. Apure seu olfato, seu paladar. Coma de tudo. Beba de tudo. Esqueça seus hábitos, seus horários.”

 

No trabalho

“Não passe a segunda-feira contando seu fim de semana.”

“Ao chegar ao trabalho, cumprimente todos como se o mundo estivesse correndo às mil maravilhas. Não fique se queixando da vida.”

“Seja boa colega de trabalho. Se ofereça para quebrar um galho, seja leal com os companheiros. Nunca faça comentários desagradáveis sobre a firma em que trabalha, sobre seu chefe. Corredores e bebedores têm ouvidos. Cuidado, emprego está difícil.”

 

Gentileza

“Um sorriso e segurar a porta para o outro passar significam a mesma coisa, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Se tratada com gentileza, a pessoa, por um instante que seja, se sente especial, e isso não a faz se sentir assim tão só.”

“Se estendo a mão com um sorriso, o outro também estende a sua e me retribui o sorriso. As pessoas se imitam. Se eu te trato mal, você também me trata mal.”

“O uso da cortesia é uma maneira de evitar o caos. O mundo está cada vez mais povoado e, quanto mais gente existir, mais necessitamos de boa educação.”

“Esteja sempre pronto a ajudar quem cometeu uma gafe. Que essa ajuda surja como um reflexo, como quando você vê alguém escorregando na rua e, sem pensar, corre para ajudar. E nunca se aproveitando do fato de, por saber mais, fazer a pessoa se sentir ainda pior do que já está, depois do erro cometido. Afinal, mesmo no peito de quem não conhece etiqueta, também bate um coração.”

 

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