Domingo, 09 de julho de 2017

Arnold e o extermínio do PIB

Houston, nós temos um problema! É dizendo isso que precisamos explicar didaticamente para nossos governos que o avanço da tecnologia implica repensar o trabalho

Roberto Francisco de Souza - redacao@revistaecologico.com.br



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Nesse mundo em que máquinas tomam o lugar de muitos de nós, não haverá trabalho. Não havendo trabalho, não há renda. Imagem: Divulgação

Nesse mundo em que máquinas tomam o lugar de muitos de nós, não haverá trabalho. Não havendo trabalho, não há renda. Imagem: Divulgação

Foi vivendo o personagem andróide T-800 que Arnold Schwarzenegger imortalizou a frase:

- I’ll be back!

Até achei que ele iria voltar mesmo, mas pensei que fosse nas telas, numa interminável sequência do robô-herói que salva o mocinho humano. Só que ele ameaça voltar de outro jeito, na forma de máquinas e algoritmos que bem podem melhorar nossa vida ou acabar com ela. De um jeito ou de outro, Houston, nós temos um problema!

Foi dizendo isso que a Apollo 13 anunciou que podia não voltar pra Terra. É dizendo isso que precisamos explicar didaticamente para nossos governos que o avanço da tecnologia implica repensar o trabalho. E fazer isso é repensar a produção e os preços, e o Produto Interno Bruto (PIB) pode ficar louco.

Imagine um mundo com tecnologia infinita. Numa conta de padeiro, onde tudo se pode, toda felicidade é possível e se o PIB, última instância, mede o bem-estar de um povo, estamos na praça! É nóis!

Mas não vai funcionar assim! A gente aprende que as empresas, força da competição da China ou do mercadinho da esquina, precisam entregar cada vez mais pelo mesmo preço. Todas elas foram vítimas de um encanto que parece maldição: inovar, inovar, inovar. Mas inovar é cada vez mais difícil num mundo onde todo mundo pode fazer isso. E onde, convenhamos, pouco se inova, muito se melhora em processos, mais ainda se “passa batom no porco”. Ele está bonitinho, mas ainda é um porco!

Será que vai valer a pena investir, perguntam os empreendedores, num mundo onde investir não retorna mais em renda que valha a pena? Melhor será deixar o dinheiro no banco, mas até o banco pode não ter o que fazer com ele.

Nesse mundo em que máquinas tomam o lugar de muitos de nós, não haverá trabalho. Não havendo trabalho, não há renda. E sem ela preços não fazem sentido, repito. Vender cada vez mais, porque temos tecnologia, para cada vez menos gente, já que não temos dinheiro para comprar. A conta não fecha e não faz sentido nenhum ou faz todo o sentido do mundo.

Os humanos capitulam diante de T-800, mas, desta vez, ele não tem nas mãos uma arma aterrorizante, nem vem montado numa motocicleta negra. Ele apenas nos encurrala num beco sem saída e nos pergunta: se eu posso fazer quase tudo o que você faz, para o que é que você existe? Se o encurralado for um economista, é nessa hora que ele perguntará: pra quê PIB, meu amigo?

Numa sociedade em que entende o valor do humano, ser rico ou ter salário não é necessidade. A renda é distribuída na forma de educação, lazer, saúde, segurança, transporte e alimentação de graça, com qualidade. Nessa sociedade, o maior desafio não é ofertar trabalho às pessoas, porque elas terão renda básica, mas sim ofertar sentido para suas vidas, a capacidade de criar.

Partidos me chamarão de socialista. Paradoxalmente, outros dirão que sou liberal. O mundo oscila entre teses que são só o que queremos ver. Para mim, não é política: é realidade! É filosofia! É tecnologia, aquela que desmonta todos os dias nossas certezas e, aos economistas, reserva sempre uma pergunta desconcertante:

- PIB? Que PIB?

 

Tech notes:

- O fim do PIB

- Onde está rolando a renda mínima

 

*Roberto Francisco de Souza é CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.

 

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