Domingo, 09 de julho de 2017

A Coca-Cola mais sem verde do mundo

Dois anos após sua implantação em Itabirito (MG), a “fábrica mais verde e sustentável do Sistema Coca-Cola Femsa do planeta” ainda não faz jus ao que anuncia. Paisagismo zero. Não tem árvores nem passarinho

Hiram Firmino - redacao@souecologico.com



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A sua maior e única “área verde” na planta industrial também será árida um dia. O gramado atual está reservado para a futura expansão da fábrica. Foto: Divulgação

A sua maior e única “área verde” na planta industrial também será árida um dia. O gramado atual está reservado para a futura expansão da fábrica. Foto: Divulgação

No dia 11 de junho de 2015, a Femsa Brasil, maior franquia e engarrafadora privada de bebidas da marca Coca-Cola no planeta, inaugurou a sua anunciada “fábrica mais verde do Sistema Coca-Cola no mundo”. Mais: “Uma fábrica de bebidas entre as mais modernas e sustentáveis, a qual representa um marco em respeito ao meio ambiente, tecnologia e produtividade”. Foi no distrito industrial de Itabirito (MG), a 55 km da capital mineira, às margens da BR-040, saída lindissimamente montanhosa para o Rio de Janeiro.

A inauguração, com toda pompa empresarial, circunstância política e esperança ecológica, foi precedida de uma forte suspeição e reação dos ambientalistas.

Sob a liderança da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), eles queriam saber se a Femsa também tinha tratado previamente com o poder local, via prefeitura e Governo do Estado, ações para evitar a ocupação imobiliária e o adensamento caótico que a nova fábrica iria atrair, em proporção geométrica na região, além dos empregos e impostos.

Preocupação solitária. Não houve diálogo nem planejamento suficientes, muito menos atuação parceira dos órgãos ambientais nesse sentido. Em se tratando de um investimento da ordem de US$ 258 milhões no município e arredores, o empreendimento foi licenciado com mais ações de mitigação (diminuição do impacto ambiental) do que de compensações sociais e ambientais (para preservação da fauna e da flora)  ao seu redor.

Sem essas críticas, ainda nos bastidores, mas com esperança, a Revista Ecológico também registrou a inauguração da nova e maior “fábrica verde do mundo”, a exemplo da maioria dos veículos de comunicação. Pelo menos a maquete do empreendimento prometia isso.

 

Decepção pesada

Há um ano, a Ecológico recebeu um convite da Femsa Itabirito para conhecer a fábrica já em franca e exitosa operação. Afinal, tratava-se da planta industrial mexicana mais eficiente do Sistema Coca-Cola, utilizando 1,45 litro de água para cada litro de refrigerante produzido. O convite se estendeu a toda a equipe de funcionários da revista.

Fomos e voltamos mineiramente surpresos e decepcionados. A natureza que nos dá vida e sustenta, constatamos in loco, não havia sido convidada a integrar o projeto da “fábrica verde”. Vista e cultuada universalmente como o “símbolo da vida”, nenhuma árvore sequer havia sido plantada em meio aos seus 65 mil metros quadrados de área construída. Vegetação alguma capaz de embelezar, dar sombra, flor para passarinho pousar e capaz de melhorar o microclima fervente de tamanha aridez.

Nenhuma sombra tanto para os seus motoristas e caminhões quanto para os carros dos seus 450 funcionários, mais clientes e visitantes artificialmente encalorados e estacionados em pátios 100% ensolarados. Uma falta de verde medonha, vide seus pisos nada drenantes, só de asfalto e cimento, incapazes de reter e infiltrar a água da chuva.

Não há caramanchão natural algum. Todos os muros, divisórias e cercas na área externa da fábrica também negam o bucolismo típico dos mineiros. Nenhuma trepadeira, um pé somente de bougainville e outro de maracujá ou jasmim. Em vez de madeira certificada, todos os equipamentos que separam gentes, carros e caminhões são de arame, cimento e ferro.

Nem o gramado enorme, de 50 mil metros quadrados, equivalente a um terço do tamanho de toda a área construída, localizado à esquerda da entrada da fábrica, pode ser chamado de área verde. Como cantavam Chico Buarque e Milton Nascimento, nada de árvores foi plantado. Nem nunca será. Trata-se de uma área industrial estratégica para a futura expansão da fábrica.

 

NA MAQUETE o verde está presente dentro e fora da fábrica. Foto: Ecológico

 

NA REAL só existe o “paisagismo” natural, externo e antropizado. Foto: Divulgação

 

Um mês atrás

Coincidindo com o segundo aniversário da fábrica, desta vez foi a própria Ecológico que solicitou ser convidada pela Femsa para integrar a visita de um outro grupo de jornalistas. Nosso objetivo era rever se, já passado esse tempo todo, o pouco verde prometido na maquete da “fábrica mais verde” da Coca-Cola havia virado verdade.

Não virou.

Na planta, a área verde natural existente ao redor da fábrica chega a um total de 78.879,5 m2. São quase três mil metros quadrados a mais do que toda a área construída sem verde. E não se trata de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Mas, sim, sob a forma de Reserva Legal e de Área de Preservação Permanente, como já reza a legislação ambiental brasileira.

O que se vê esverdeado ali é um conjunto bastante significativo, tipo manchas, de matas de galeria igualmente antropizadas à sua volta. Ou seja, cujas características originais (solo, vegetação, relevo e regime hídrico) foram alteradas em consequência de atividade humana.

Nossa pergunta, já feita duas vezes, foi: por que a Femsa não ajuda a natureza local, já parcialmente degradada, com o adensamento/plantio das próprias espécies locais, fazendo uso das tecnologias de recuperação ambiental existentes?

A empresa respondeu que “são terrenos com solos ferruginosos e, por isso mesmo, têm de ser deixados como estão”. Simples assim, sem verde por onde o homem passou.

Perguntamos também se poderíamos ver os locais onde, no início das obras da fábrica, deveriam estar plantadas as anunciadas 800 mudas de espécies nativas, sendo elas bagueiras (plantas com grande capacidade de atração de animais), para o plantio posterior de mudas na área de estudo. Também não nos mostraram, pela segunda vez solicitada.

A Ecológico insistiu:

- E algumas árvores pequenas que vimos no fundo da fábrica, durante a visita ao processo de engarrafamento? Não seriam elas essas mudas? Podemos vê-las?

A resposta foi novamente negativa. Somente a empresa terceirizada, que fez o projeto, poderia nos informar.

Terminada a visita à fábrica, e com muita dificuldade de acesso, vide a explosão urbana descontrolada à sua volta, decidimos ir ao local por nossa conta. Podemos estar equivocados quanto à localização certa desses plantios. Mas o que vimos ali, plantadas próximas aos muros e cercas artificiais sem verde da unidade, não passam de algumas dúzias de árvores de tamanho médio. Quase todas elas sem estaqueamento e caídas, por falta de monitoramento, abandonadas em meio ao capim gordura reinante na região.

Ato final. Pode ser delírio dos amantes da natureza, como no passado eram chamados os ambientalistas em sua defesa, mas enquanto a Femsa, o município de Itabirito e o Governo do Estado não convidarem a natureza para fazer parte do empreendimento e de seus planos de negócios a partir das montanhas de Minas, essa sua “maior fábrica verde da Coca-Cola do mundo” não pode ser sustentável, muito menos chamada assim. Como cantaria Roberto Carlos...

Ainda!

 


Leia mais:

 

Cartilha distribuída pela Femsa elenca as medidas sustentáveis que lhe fizeram obter o licenciamento ambiental. Mas se contradiz nos itens “verde” e “fauna”

 

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