Domingo, 09 de julho de 2017

O impeachment natural (2)?

Com uma mão esperta, Temer vetou MPs que ameaçavam os compromissos climáticos assumidos solenemente pelo Brasil no Acordo de Paris. E, com a outra mão, mais esperta ainda, um mês depois, ele sancionou outra MP, acabando com a proteção de 1,1 milhão de acres da maior floresta tropical ainda de pé na face da Terra

Hiram Firmino - redacao@souecologico.com



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Hiram Firmino, editor da Revista Ecológico.

Hiram Firmino, editor da Revista Ecológico.

Em sua última edição, a Revista Ecológico reportou, como matéria de capa, a histórica união de ambientalistas, indígenas e artistas de todo o planeta e tribos contra duas medidas provisórias (MPs) do Governo Temer que iriam ceifar quase 600 mil hectares da Floresta Amazônica. O que Temer fez, inclusive tuitando para a nossa top model ecológica Gisele Bündchen?

Com uma mão esperta, ele vetou ambas as medidas que também ameaçavam os compromissos climáticos assumidos solenemente pelo Brasil no Acordo de Paris. E, com a outra mão, mais esperta ainda, o que ele fez, mais precisamente no último dia 11 de julho, um mês depois de tamanha e derradeira esperança em seu governo? Sancionou outra MP, a de número 759 (cujo relator é o senador Romero Jucá), que ele já trazia na manga, acabando com a proteção de 1,1 milhão de acres da maior floresta tropical ainda de pé na face da Terra.

Isso depois de Temer ter, internacionalmente, vendido uma imagem de “protetor da Amazônia”, conforme protesto do ambientalista Diego Casaes, ativista do Movimento Mundial Avaaz, que tem quase 10 milhões de membros no Brasil e uma longa história de luta pela proteção da Grande Floresta:

“Os cidadãos do mundo não vão esperar sentados enquanto assistem ao presidente Temer destruir a Amazônia, uma árvore por vez. É revoltante que, para proteger sua própria vida política, Temer esteja disposto a sacrificar tanto e privar todas as gerações futuras da Amazônia. Se seu governo não parar de empurrar leis como essa MP goela abaixo dos brasileiros, um dia teremos que explicar aos nossos netos como deixamos a corrupção também matar a Amazônia”.

A taxa de desflorestamento hoje do bioma é a maior dos últimos nove anos. E a MP 759 irá afrouxar a proteção da floresta ainda mais, dando a centenas de milhares de fazendeiros o direito de ocupar áreas de preservação. A preocupação planetária procede. Segundo o deputado federal Edmilson Rodrigues, essa requentada MP vai pôr fim à reforma agrária e legitimar os grileiros: “20 milhões de hectares do bioma amazônico e 40 milhões de hectares do Cerrado brasileiro podem ser devastados juntos”.

Segundo os ambientalistas sob convocação novamente da WWF Brasil, já passada também a pressão de doadores internacionais (vide o corte de 50% no apoio financeiro anunciado pela Noruega contra o desmatamento do bioma), este novo projeto de lei do Governo Temer, já chamado de “MP da Grilagem”, foi subscrito por mais de 200 deputados da bancada ruralista. Ele integra um pacote recente de propostas que defendem que a Amazônia seja liberada para mineração e agronegócios em nome do desenvolvimento local. E não pelo desenvolvimento “sustentável” local que é realidade em várias partes do Brasil que dá certo, onde existem mineração e agricultura ambientalmente corretas.

Não foi à-toa que a Revista Exame, em sua última edição – “A Amazônia em risco” –, escancarou também na capa a questão, após seus repórteres terem percorrido 1.418 quilômetros para dimensionar esse tamanho retrocesso e impacto na economia brasileira. “A destruição da floresta mais importante do planeta avança num ritmo equivalente a 128 campos de futebol por hora”. Mas deu esperança, em apoio à causa ambiental que hoje é de toda a humanidade, menos dos nossos políticos: “A boa notícia” – afirmou a publicação – “é que dá para reverter o prejuízo”.

 

Capa da Exame aborda o fim do verde da maior floresta do planeta. Imagem: Reprodução

 

Isso explica porque, nesta edição a favor de todas as árvores e florestas que ainda restam no planeta, a Ecológico aborda, com chamada de capa, a questão da falta de verde na fábrica da Coca-Cola Femsa em Itabirito, em meio às montanhas devastadas de Minas.

Até hoje, já passados dois anos da sua inauguração, a unidade mineira da marca Coca-Cola (reconhecida e admirada por sua pegada sustentável na Amazônia) não tem uma só árvore na planta industrial. Nem cuida e investe, de forma exemplar, no verde à sua volta. E mesmo assim, anuncia-se como a “fábrica mais verde e sustentável do mundo”.

Que verde preterido é esse, mesmo já chamado por todas as religiões de o “símbolo da vida”? A Coca-Cola deveria saber que, como dizia Guimarães Rosa, além de inconfidente e berço do ambientalista brasileiro, em Minas até “o vento é verde”?

É essa a indagação, também com esperança, desta edição.

Boa leitura e até a próxima lua cheia! 

 

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